Birds Of Fire

Birds Of Fire, Mahavishnu Orchestra

Em “Birds Of Fire”, o segundo disco da Mahavishnu Orchestra, John McLaughlin criou um álbum perfeito, liderando uma banda perfeita.

Não raras vezes pomo-nos a imaginar line-ups perfeitos. Houve ocasiões na história da música em que eles aconteceram, ainda que momentaneamente. Em 1971, a Mahavishnu Orchestra formou-se sob a liderança de John McLaughlin, na guitarra. A acompanhá-lo surgiam Jan Hammer (teclados), Jerry Goodman (violino), Rick Laird (baixo) e, principalmente, Billy Cobham (bateria).

“The Inner Mounting Flame” foi a estreia da banda, uma espécie de lua-de-mel em que tudo foi enamoramento pelas composições de McLaughlin. Mas depressa a excitante fusão jazz/rock da “Orquestra” começou a cativar a atenção de toda a gente, do jazz ao psicadelismo.

Com os olhos do mundo sobre a orquestra, “Birds of Fire” tornou-se num daqueles álbuns raros. Num canto do cisne. Todos os músicos estão a lidar com os focos do estrelato e a procurar mostrar, a cada momento, a sua tremenda valia. O que “Birds of Fire” tem a mais que qualquer álbum de virtuosismo instrumental é a coesão das composições exclusivas de McLaughlin, o que permite aos instrumentistas, por mais que se exibam, nunca perder visceralidade, nunca perder direcção. A excepção ao decorrer frenético do disco será, apenas, “Miles Beyond”, tema dedicado a Miles Davis que incitou John McLaughlin a criar o projecto.

Essa agressividade em “Birds Of Fire” advinha não só da competitividade entre os músicos, mas também decorria da maior sonoridade rock pela qual a Mahavishnu Orchestra optou. Após um primeiro álbum que foi como que um exercício de exploração no universo crítico do jazz, foi o mundo dos amplificadores a rebentar de gain que mais calorosamente acolheu a banda – que o diga Jeff Beck, que se apaixonou pelo estilo de John Mclaughlin nesta altura.

Era como se os Deep Purple ou os Yardbirds fossem ainda mais “cromos”. A coerência e velocidade de solos harmonizados ou a capella de John McLaughlin, Jan Hammer e Jerry Goodman, isto quando Rick Laird não dobra também as linhas melódicas, são de facto “pássaros de fogo” a percorrer um imaginário céu multicolorido – sempre com a firmeza geológica das baterias de Billy Cobham. O tema “One Word”… Ai, Mãe do Céu!

A formação da Mahavishnu Orchestra em “Birds Of Fire”: John McLaughlin, Jerry Goodman, Billy Cobham, Rick Laird e Jan Hammer.

Muito pouco tempo depois da edição de “Birds of Fire”, a banda desintegrou-se e, tal como em grande parte dos seus motivos líricos ou conceptuais, passou a “reencarnar” noutros line-ups. Sempre sob o comando do genial John McLaughlin, mas, ainda que mantendo pertinência, com o fogo a extinguir-se lentamente até ao final algo paupérrimo com os álbuns “Mahavishnu” (1984) e “Adventures in Radioland” (1986), que não foram muito mais que um exercício de excentricidade e experimentação do seu mentor com as tecnologias do alvor do mundo digital, como o Synclavier ou Synth Guitar.

Para além do brilho e da intensidade musical, “Birds of Fire” é um testemunho da busca incessante por inovação e transcendência artística. O álbum consegue conjugar técnica virtuosa com uma energia quase espiritual, resultado da profunda ligação entre os músicos da Mahavishnu Orchestra e da visão artística de John McLaughlin.

Este legado permanece relevante, influenciando inúmeras gerações de artistas que procuram desafiar limites e fundir géneros. Apesar da dissolução da formação original, a influência da Mahavishnu Orchestra perdura não só pela qualidade das suas primeiras gravações, mas também pelo impacto cultural e musical que provocou na cena jazz fusion, em particular, e na música progressiva, em geral. Cada álbum, especialmente “Birds of Fire”, é uma peça fundamental para compreender a evolução destes géneros e o espírito experimental dos anos 70, um período em que o jazz, o rock e a música electrónica se entrelaçavam num diálogo fecundo e audaz.