Em “Folkesange”, Myrkur abdicou do black metal na procura de ambientes cada vez mais folk e mais tradicionais.
Myrkur — ou Amalie Bruun, se preferirem o verdadeiro nome — sempre percorreu um caminho singular, capaz de desafiar noções pré-concebidas dos estilos mais pesados do underground. Desde a estreia que a artista dinamarquesa se recusa a caber numa única gaveta: começou a esculpir atmosferas no black metal, mas cedo deixou claro que o seu talento ia muito além de blast beats e muralhas de distorção. Agora, após ter sido mãe, Bruun enceta uma viagem ao coração da cultura escandinava que moldou a sua própria infância, como se a maternidade tivesse despertado nela a necessidade de reconectar com um património mais profundo, quase genético.
Contos, ritos de passagem e a invocação da continuidade que atravessa gerações e tempo são componentes da tapeçaria da música folclórica, e Folkesange possui todos estes elementos na sua essência. De certo modo, o álbum é uma abordagem purista ao folclore musical escandinavo, livre de dramatismo excessivo nas interpretações ou de fusões sónicas que descaracterizem o material.
Ao invés, a delicada e emotiva voz de Bruun surge envolvida por violino, piano, lira e o tradicional cordofone sueco, a nyckelharpa. Também o Kulning — uma ancestral forma de canto de pastoreio dos países nórdicos, usada historicamente para chamar o gado e comunicar à distância nas montanhas — é explorado o mais próximo possível das suas delimitações originais, revelando um cuidado quase etnográfico.
Em Folkesange, o passado é feito presente, mas o álbum não é meramente uma peça de museu. A produção panorâmica de Christopher Juul garante que, apesar do respeito pela tradição, as canções soem amplas e intimistas, convidando tanto à contemplação como à imersão emocional. É um trabalho que respira reverência — harmonicamente preenchido pelos drones de cordas, por um corpo rítmico melancólico e por essa suavidade vocal capaz de nos transportar para outras eras, fazendo florescer associações a um nível elementar e, ao mesmo tempo, transcendental.
Ao longo das canções, Myrkur alterna entre composições tradicionais e criações originais, num equilíbrio que evita a sensação de mera recriação. Ella abre o disco com um cântico quase cerimonial, guiado por harmonias vocais que evocam tanto o sagrado como o quotidiano da vida rural. Em Tor i Helheim, mergulhamos numa narrativa mitológica onde a percussão grave ecoa como um passo cerimonioso no gelo, enquanto Leaves of Yggdrasil nos oferece uma das interpretações mais emotivas de todo o álbum — aqui, a voz de Bruun parece suspender o tempo, como se nos encontrássemos sob a copa da árvore cósmica da mitologia nórdica.
O uso de instrumentos tradicionais não é decorativo, mas funcional. A nyckelharpa, com o seu timbre áspero e vibrante, acrescenta uma dimensão quase arqueológica ao som, como se tivesse sido escavada de um passado remoto para ressoar no presente. A lira e o violino, por sua vez, oferecem texturas que oscilam entre a melancolia pastoril e a exaltação festiva, criando uma narrativa musical que alterna luz e sombra.
Há também um subtexto interessante em Folkesange: o de que a preservação cultural pode ser um acto de resistência. Num mundo globalizado, em que a homogeneização sonora ameaça apagar as especificidades regionais, um álbum como este assume um valor político subtil. Ao revisitar canções e técnicas ancestrais com integridade, Bruun não está apenas a olhar para trás — está a reivindicar que estas formas de expressão têm lugar no presente e no futuro.
A ligação à maternidade, ainda que não explícita nas letras, sente-se na forma como o álbum está estruturado. As canções fluem com a cadência de uma narrativa oral, como histórias passadas de geração em geração junto à lareira. É música que pode embalar, mas também despertar — que alterna ternura e força, tal como o papel de quem cuida.
Por isso, Folkesange é uma experiência imersiva. Por completa casualidade — ou talvez não —, a mensagem que transporta sobre tempos em que a vida era mais simples e modesta ganha uma acutilância particular nestes estranhos tempos de pestilência que muitos, paranóicos ou não, afirmam ser cármica. Há algo de profundamente reconfortante na ideia de que, mesmo em períodos de crise, a música pode servir de ponte para uma sensação de continuidade histórica, de pertença a algo maior do que nós.
Ao terminar a audição, fica a sensação de que Folkesange não é apenas um disco, mas um gesto: o de segurar nas mãos um fio que nos liga a séculos de memória cultural e decidir não o deixar cair. É música feita com o coração voltado para o passado, mas com a consciência de que é no presente que ela deve viver. E é precisamente por isso que ressoa com tanta força — porque nos lembra que, antes de tudo, somos criaturas de histórias, sons e tradições que sobrevivem enquanto houver quem as cante.

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