Mão Morta

Mão Morta, No Fim Era O Frio

Editado pela Rastilho Records em 2019, é o 18.º título na carreira dos Mão Morta. “No Fim Era O Frio” é um magnífico e distópico trabalho conceptual que, uma vez mais, redefine os bracarenses.

“No Fim Era o Frio”, álbum dos bracarenses Mão Morta, foi lançado no dia 27 de Setembro de 2019 pela editora independente Rastilho Records. Gravado por Ruca Lacerda, no Largo Recording Studios, em Maio de 2019, e masterizado por Frederico Cristiano no Mechanical Heart Mastering em Braga, apresenta 11 temas/módulos. As ilustrações da capa e contra capa são da autoria de José Carlos de Sousa Costa.

Nas palavras de Adolfo Luxúria Canibal: «Este álbum apresenta-se como uma narrativa distópica onde conceitos como aquecimento global ou subida das águas do mar servem de cenário para um questionar e decompor de diferentes paradigmas do quotidiano. São paradigmas que nos rodeiam e com os quais nos relacionamos e replicamos, desviados para um enquadramento onde a familiaridade ganha a estranheza que permite a sua percepção. Mas esta é uma percepção demencial, num horizonte ficcional que nunca sabemos se é real ou delirante e onde as composições criadas com os padrões deslocalizados da sua primitiva função dão novas vidas e leituras ao frio cosmológico e à solidão humana, aqui ecos de uma mesma inadaptação existencial e vazio afectivo».

A abertura, com “O Despertar” e “O Mundo Não É Mais Um Lugar Seguro”, estabelece o majestoso ambiente sonoro do álbum. Sintetizações luxuriosas e guitarras sobrecarregadas de efeitos (um magnífico trabalho de Vasco Vaz) criam uma parede fria e, de certa forma, também extremamente envolvente às palavras distópicas de Adolfo Luxúria Canibal.  Distopia ou realismo mágico?

“Um Ser Que Não Se Ilumina” contém o charme estrutural de uns Swans, mas com todas as idiossincrasias de Mão Morta. O seu corpo, a sua estrutura e força rítmicas, o prímevo desespero vocal… “Quem És Tu”/”Oxalá”, novo movimento de introdução e canção, com destacadas vozes corais. O enorme peso de “Passo O Dia A Olhar O Sol”.

O hipnotizante díptico “Invasão Bélica”/”A Minha Amada” com a sua propulsividade rítmica, ainda que simples, num cruzamento entre electrónica e acústica; os drones sónicos de sintetização e cordas; e as palavras que quase descrevem uma fantasia erótica e distópica de Paolo Eleuteri Serpieri, criam um dos melhores momentos da discografia dos Mão Morta.

“Deflagram Clarões De Luz” é um boogie orelhudo. Um rock ‘n’ roll que se gruda instantaneamente na memória. Se haverá uma canção que poderá ser isolada deste homogéneo disco, será esta e o seu mesmerizante final, cujos “clarões” melódicos transportam alguns dos momentos mais calorosos no conceito “No Fim Era O Frio”.

A terminar, “Isto É Real”. Passe a idiotice de enumerar referências a Mão Morta, o tema soa a uns The Stooges mais contemplativos, antes de “Sinto Tanto Frio” encerrar o álbum, revestindo-o uma vez mais dum espesso corpo de guitarras e de densidade no baixo e nas sintetizações.