Merai

Merai, Ser (Mito de Orfeu)

Após os lançamentos dos EPs “Fénix” (2023) e “Inverno de Dentro” (2024), Merai apresenta agora o seu novo single, “Ser (Mito de Orfeu)”. 

Esta nova canção explora de forma profunda o conceito de ser. Merai reflecte sobre o que significa existir sem artifícios, sem ceder às expectativas externas, vivendo apenas aquilo que a vida nos pede. Mais tarde, ao estudar a mitologia clássica, a artista identificou uma conexão com o mito de Orfeu – a história do bardo que desceu aos Infernos para resgatar a sua amada Eurídice e regressou de mãos vazias. Segundo a lenda, a ausência de Eurídice abriu em Orfeu um espaço de vazio que lhe permitiu criar as mais elevadas formas de arte.

Hades & Luz

Orfeu, filho de Apolo e da musa Calíope, era a pessoa mais carismática da Terra. Com a sua música encantou plebeus e governantes. Cedo os pássaros, os peixes, os veados e todos os animais de todas as partes do mundo começaram a falar consigo e até as árvores se inclinavam e enunciavam notas harmoniosas e estáveis sobre as suas melodias. Certo dia, a sua amada Eurídice foi assediada por Aristeu e, ao fugir, mordida por uma serpente, o que lhe trouxe a morte. Ao descobrir a notícia, Orfeu tomou uma decisão que nunca outro ser havia tomado – iria ao Mundo dos Mortos resgatar a sua amada, contra o conselho de todos.

Fez a travessia do Estige com Caronte, passou por Cérbero, o cão infernal de 3 cabeças, conheceu as almas danadas que o guiaram pelo escuro do Outro Lado. Eis que finalmente chegou ao trono de Hades, incrustado nas raízes da Árvore da Vida, que chegavam até ao Céu. O monarca ominoso encarou-o com um sorriso, pois já sabia o que ele queria e, quando Orfeu lho disse, o Deus dos Mortos respondeu com gargalhadas sonoras.

Todavia, a sua esposa Perséfone foi comovida com a história e pediu a Orfeu que a cantasse, acompanhado pela lira, então Hades e Perséfone, extasiados com a música de Orfeu, resolveram devolvê-la ao seu amante com uma condição: que caminhasse em silêncio e não olhasse para seu ela até eles chegarem ao mundo superior.

Os amantes fizeram todo o percurso de volta – passaram as almas danadas, Cérbero, Caronte, que os levou até à última escadaria antes dos portões do Inferno. Quando atingiram o último degrau, Orfeu não resistiu a procurar certificar-se de que a sua amada o seguia e olhou para trás. Eurídice foi engolida pelo reino de Hades. Eurídice partira para nunca mais ver Orfeu, o que o mudara para sempre.

Interpretação

Segundo Merai, “Ser (Mito de Orfeu)” é uma reflexão sobre a beleza e a dualidade da vida, nas suas perdas e ganhos, nas despedidas e reencontros, na solidão e na companhia. É uma viagem musical sobre a aceitação e a experiência de ser, em toda a sua complexidade.

Com uma interpretação pessoal da lenda de Orfeu, Merai oferece uma visão singular: «Orfeu era um músico extraordinário, tão talentoso que quebrava as leis da Natureza, esbatendo as fronteiras entre o mortal e o imortal. Mas faltava-lhe algo, embora nem ele, nem o mundo, o soubessem ainda. A presença é necessária para se perceber a ausência, e vice-versa. Após a sua descida ao Inferno, Orfeu retorna com uma ausência que preenche, um vazio que se abre às mais elevadas formas de Arte. É testemunha da dualidade da Vida, do ciclo que dá e tira. Seguimos Orfeu porque também queremos aprender a ver no escuro e a ser inteiros».

«Orfeu é um arquetípico do Louco. O Louco que aprecia a vida no seu plano mais terreno, mística no seu materialismo, porém oca. O Louco é espontâneo, carismático, ingénuo, egocêntrico, de um desapego fútil e encenado. No Caminho do Artista, e no Caminho da Alma, todos temos que fazer a nossa pessoal descida ao Mundo dos Mortos que, neste conto simboliza a Sombra, o Inconsciente – o que está recalcado, o que nos é desconhecido, a fatia mais larga da Consciência», acrescenta Merai.

A música, tem a composição e os arranjos de Merai, que lhe dá letra e voz. A guitarra é de Baltasar Martinho e o violoncelo é de Mariana Neves. Captação de Alex Sweeney nos Great Dane Studios, mistura e masterização por Afonso Leichsenring. O vídeo foi realizado pela própria Merai, em colaboração com Pedro Cardoso. A foto de Merai que ilustra o artigo é de Bruno Portela.

A Mulher-Pássaro

Mariana Frangioia Portela, nascida em 2000, em Lisboa, de pai português e mãe angolana, é uma artista multifacetada que iniciou os estudos musicais aos 6 anos. Formou-se em música no Instituto Gregoriano de Lisboa e em Produção Musical na World Academy, além de ter estudado Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Sob o nome artístico de “Merai”, inspirado numa das suas personagens, uma mulher-pássaro, Mariana explora a integração da multiplicidade e a fragmentação do ser, reflectindo sobre a necessidade de unificação. A sua obra abrange diversos géneros e aborda temáticas profundas como identidade e transformação. Entre os seus trabalhos musicais destacam-se o EP “Fénix”, o single “O Meu Corpo Não”, e o EP “Inverno de Dentro”. Mariana encontra-se actualmente a concluir o seu primeiro livro, aprofundando ainda mais a sua jornada artística e literária.

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