Os nacionais ANZV estão prestes a estrear o seu segundo álbum. “KUR” mais uma incursão blackened death no mundo ritual sumério, chega 30 de Maio de 2025, via Edged Circle Productions, data seguida por concertos de apresentação em Lisboa e no Porto.
Com base na antiga mitologia suméria, KUR, descrito como um reino cavernoso escuro e sombrio sob a terra, mergulha nas profundezas de um submundo onde a mortalidade desmorona e as forças míticas colidem. Com uma intensidade implacável, o segundo álbum – com esse mesmo título, “KUR” – explora temas de desespero, transcendência e a eterna dança entre a vida e a morte. Cada faixa é uma passagem pelo abismo – uma oferenda ao vazio.
É desta forma que um press release oficial da banda descreve o sucessor de “Gallas”, disco de estreia de ANZV, no qual a banda revela impressionante domínio atmosférico e dinâmico, que foi editado em 2022, pela Exorcize Music. Desta feita, a editora de “KUR” é o selo norueguês Edged Circle Productions. Para marcar o lançamento do álbum, os ANZV realizarão dois concertos especiais de apresentação. O primeiro, logo após da edição de “KUR”, em Lisboa, a 31 de Maio. O segundo, exactamente uma semana depois, dia 7 de Junho no Porto.
As salas eleitas para acolher os rituais são o RCA Club, em Lisboa, e o Hard Club, no Porto. Info sobre os concertos e bilheteira na Notredame. E enquanto não analisamos a música nova dos ANZV, fiquem com uma amostra do passado ao mesmo tempo que mergulhamos na simbologia do título do disco e das datas anunciadas para os concertos.
Sete
As datas dos concertos de apresentação de “KUR”, dos ANZV, podem ser apenas uma coincidência ou talvez não. O dia 31 de Maio, não entra exactamente nestas contas, mas entre ambos decorre uma semana e depois o concerto no Porto é no dia 7. O número sete desempenhou um papel significativo na mitologia suméria, reflectindo-se em diversos aspectos culturais e religiosos da vetusta civilização.
Na cosmologia suméria, havia sete deuses principais, conhecidos como os “Anunnaki”, que eram considerados os juízes do submundo. A mitologia suméria também menciona os “Apkallu” ou “Abgal” em sumério, que eram sete sábios semidivinos enviados pelos deuses para civilizar a humanidade. Estes seres eram vistos como portadores de conhecimento e cultura, e a sua associação com o número sete sublinha a sacralidade deste número na tradição suméria e, consequentemente, no espaço criativo dos ANZV.
Em textos mitológicos sumérios, o número sete aparece frequentemente em diversos contextos: na Epopeia de Atrahasis, o poema épico que narra a história de um grande dilúvio que durou sete dias e sete noites, após o qual a humanidade foi recriada (o mito etiológico que inspirou o excerto do Genesis bíblico judaico-cristão da Arca de Noé); os Sete Portões do Submundo que são atravessados pela deusa Inanna, na sua descensão, simbolizando etapas de transformação e purificação; e as Sete Auras de Humbaba que, no épico de Gilgamesh, que representam a força e poder do monstro que as possui.
Valerá ainda a pena referir que os sumérios identificaram sete corpos celestes visíveis a olho nu: o Sol, a Lua, Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno. Esta observação levou à associação do número sete com o cosmos (com a ordem tão adorada pelos gregos) e influenciou a estruturação do tempo, como a divisão da semana em sete dias. Os dias eleitos para a apresentação do segundo disco dos ANZV parecem cada vez menos um mero acaso.
KUR
Na mitologia suméria, “Kur” é um termo multifacetado que pode referir-se a diferentes conceitos, dependendo do contexto. Originalmente, “Kur” significava “montanha” ou “terra estrangeira”. No entanto, ao longo do tempo, passou a designar o submundo, também conhecido como “a terra sem retorno” ou “Kurnugia”. Este submundo era concebido como uma vasta caverna sombria situada nas profundezas da terra, governada pela deusa Ereshkigal.
É por aqui que os ANZV parecem interpretar o termo. O “Kur” era descrito como um lugar lúgubre onde os espíritos dos mortos residiam, levando uma existência sombria que reflectia uma versão distorcida da vida na Terra. Este reino subterrâneo era acessível através de sete portões, aqueles que foram atravessados pela deusa Inanna, cada um guardado por um porteiro, e qualquer um que lá entrasse dificilmente retornaria. A semelhança com o Hades helénico é evidente.
Além de representar o submundo, “Kur” também personificava um demónio monstruoso na mitologia suméria. Esta entidade era associada ao reino dos mortos e ao vazio desesperançado entre o Abzu (as águas primordiais) e a terra (Ma). Em suma, “Kur” é um termo complexo que abrange vários conceitos e a riqueza e a profundidade das crenças sumérias sobre a vida após a morte e o desconhecido.
