Lars Arens lidera um ensemble pouco usual, mas gloriosamente melódico. O álbum de estreia de Møborg 2 é um disco surpreendente a cada escuta, que ainda assim nos reserva um pungente plot twist.
«’Falling Silent’ refere-se a uma entrevista que por acaso me caiu nas mãos no verão de 2019. O tema afectou-me tão profundamente que quis dedicar-lhe uma peça musical. Passados apenas oito meses, foi a própria civilização humana que se silenciou: com os confinamentos impostos na sequência da pandemia, a vida nas cidades congelou…», é assim que Lars Arens, trombonista e compositor, apresenta este disco que o colectivo Møborg 2 editou em Novembro de 2024.
Um sentimento que cresceu de tal forma que levou o próprio Lars Arens, João Moreira (trompete), Paulo Bernardino (clarinete e clarinete baixo), Mário Delgado (guitarra) e Sara Abreu (violoncelo) – são eles os Møborg 2 – aos Timbuktu para serem captados por André Fernandes – a masterização esteva a cargo do Mário Barreiros, no seu próprio estúdio.
Cerca de oito meses depois da referida epifania, chamemos-lhe assim, foi a própria civilização humana que emudeceu. Na sequência da pandemia, durante o primeiro lockdown, a vida quotidiana parou e caiu num estado de hibernação. O silêncio na cidade de Lisboa traduziu-se numa atmosfera angustiosa. As gravações deste álbum de Møborg 2, inicialmente previstas para Abril 2020, foram adiadas por tempo indeterminado. Decorreriam mais de dois anos até elas finalmente se concretizarem.
Dois dias após o fim das gravações dos Møborg 2 morreu o pai do João Moreira aos 90 anos de idade. Com o seu falecimento emudeceu a voz de um dos primeiros protagonistas do jazz português. O contrabaixista Eng. Bernardo Moreira era uma das figuras históricas do jazz nacional, inseparavelmente ligado ao Hot Clube de Portugal onde foi director de 1992 a 2009. Até ao dia da sua morte continuou a leccionar a cadeira de História do Jazz na escola associada a esta instituição. Também isso somou aos “entraves” sobre este disco de Møborg 2.
Ao início poder-se-á pensar que este ensemble é algo estranho, pouco usual, mas com uma sofisticação deslumbrante e um sentido melódico glorioso, este “Falling Silent” traz consigo música imperativa. Como se tivesse destinado a ser editado, apesar de tudo. As palavras que a editora Unit Records dedica ao disco são bastanta eloquentes: «A estética da música de “Møborg 2”, embora gravada em tempos de crescente incerteza política, geopolítica e ecológica (esta última é referida na peça “Falling Silent”), não quer submeter-se a este zeitgeist, pelo menos em termos de som. Os arranjos, semelhantes aos da “música de câmara jazz”, não recorrem, portanto, aos clichés da cacofonia ou da “música sonora”. Pelo contrário, soam melódica e harmonicamente quase exclusivamente consonantes».

É evidente que “Social Distance Song” se refere aos tempos do confinamento. A suavidade dos sopros, a lassidão do violoncelo e os feedbacks de guitarra de “Green and Blue & The Sunsets” pretendem evocar a vida de Vancouver, ainda antes da imposição do distanciamento. Em retrospectiva, os dois temas sentem-se como esperança e luz necessária sobre cicatrizes que ainda transportamos desse estranho período. E, numa conclusão candidamente nostálgica, “Heidis Heimweh” leva-nos aos Alpes e à estimada personagem “Heidi das Montanhas”, numa fusão tão inesperada quanto feliz do fliscorne e da guitarra.
Até aqui instalou-se uma evocação de um ritmo silencioso. A dinâmica instrumental de “Bop for Bob” (inspirado na música do trombonista/compositor norte-americano, Bob Brookmeyer) deixa claro que não é necessário um bombo e uma tarola para nos fazer dançar, a sua agitação emocional, especialmente após a marca do minuto 3:20 faria o mais teimoso pé-de-chumbo mover-se. “When She’s Gone” sente-se mais pessoal, mais introspectiva, com uma ligeira predominância do harmonioso eufónio de Lars Arens. Vale a pena referir que o nome deste instrumento musical vem do grego eúfonos – aquele que soa bem, que é harmonioso.
“Onde está o Katzbach?” é brilhantemente frenética, cheia de possibilidades. E por falar em frenesim chegamos à pièce de résistance deste disco de Møborg 2. «No bairro French Concession, em Shanghai em 2019. Vindo de uma estrada muito movida e barulhenta, entrei num parque sossegado para fazer uma pausa. No banco à minha frente reparei num homem velho a meditar, rezar e a cantar», Lars Arens refere-se a “Towards Inner Peace”.
O tema é absoluta sinestesia das suas palavras. A primeira parte é cacofónica, agitada e dissonante e progressivamente torna-se num drone, num estado meditativo ainda perturbado por estas melodias e ideias soltas que começam a ser uniformizadas pelo arpeggio de guitarra. Então, com a mente focada, sinfonicamente uníssona, emergem os overtones da transcendência.
“Hang Drum Blues” é mais um brilhante de sonoridade rítmica, num formato sem secção rítmica. E “Concha” é uma lânguida homenagem à gata que vive com o mentor de Møborg 2, ainda que a grande protagonista seja a guitarra de Mário Delgado. “Falling Silent”, narrada por Débora King, é a história baseada em acontecimentos reais, com referência a um dos grandes problemas ambientais dos tempos que correm e do futuro. A harmonia é deixada de lado e estes quase 9 minutos sentem-se como um alarme, deixando-nos num estado de tensão e vigilância. Uma catarse invertida.
