Geoff Tate

Geoff Tate, A Voz Generosa & Encorpada do Monarca

Em palco, aos 66 anos de idade, Geoff Tate soa soberbo. A voz mais carismática do heavy metal progressivo está (talvez) como o vinho Insania que produz – harmonioso, confiante, encorpado. A safra de 2025 envelheceu bem, como se comprovou na passada noite de 10 de Março, no RCA Club. Uma segunda-feira chuvosa, aquecida pelas gargantas de fãs que entoaram com o norte-americano as grandes canções dos Queensrÿche.

A Geoff Tate’s Big Rock Show Hits Tour terminou em Lisboa, depois de seis datas em Espanha. Prometiam-se os temas clássicos que fizeram do vocalista de Seattle uma marca de água nos Queensrÿche e no género. E a expectativa foi cumprida. Tanto em termos performativos, como de alinhamento.

É opinião mais ou menos consensual que, das três décadas em que Geoff Tate esteve na banda, só a primeira é verdadeiramente valorosa. Ainda assim, seria utópico não esperar algumas coisas “dispensáveis” numa selecção de quase vinte temas, como foram logo no início “Desert Dance” ou “I Am I”. A abrir o espectáculo, “Empire”, faixa título do último álbum (1990) de Queensrÿche que este vosso escriba considera figurar na categoria de excelência. Sem contar com os discos cantados por Todd La Torre, que não interessam agora para o caso.

Com vinte minutos de concerto já dava para perceber que a voz de Geoff Tate estava e que o vocalista vinha acompanhado de bons músicos. Três (!) guitarristas, um óptimo baixista que, mesmo assim, conseguia furar a parede sonora dos colegas de cordas, e um baterista que acabou por ser o sacrificado no som final. Um grupo multinacional, com gente de Itália (Daniel Parente, guitarra), Irlanda (James Brown, guitarra), Escócia (Jack Ross, baixo), E.U.A. (Robert Baker, bateria) e um guitarrista francês que não conseguimos perceber o nome. Todos eles óptimos executantes, a que se juntou o próprio Geoff ao saxofone numa divertida “The Thin Line”.

Era tempo de ir lá um pouco mais atrás e temos a primeira grande sequência da noite com “Operation: Mindcrime”, “Breaking The Silence” e “I Don’t Believe In Love” esta, particularmente, cantada por toda a sala em mais um daqueles refrões que Tate aproveita para descansar a voz.

Silenciosa Vibrante Lucidez

Nesse departamento vocal – afinal, o mais importante e interessante da noite, não estivéssemos a falar de Geoff Tate – nada podemos apontar ao veterano norte-americano. Aquele tom que é só dele, aqueles agudos irresistíveis, ecoaram com brilhantismo pelas paredes da sala, transportando-nos para o tempo em que o talento orgânico era mais importante que tudo o resto. Ou sabes da poda, ou não, e Tate continua a saber, e não é só de uvas e vinho. Parabéns à equipa técnica que soube deixar esta magnífica voz vir ao de cima.

Não identificámos demasiados momentos em que o artista não cumpre com o que está gravado em disco… E já lá vão umas boas décadas. Três, se falarmos de “The Warning”, álbum que viria a ser relembrado com “NM 156”, talvez a escolha mais estranha da noite, mas muito efectiva também pelo uso de sample gutural, seguida de “Screaming In Digital”.

Desde os primeiros trabalhos que os Queensrÿche tiveram uma certa apetência futurística e tecnológica na sua criatividade e é aqui que Geoff Tate faz um discurso um pouco mais alongado, a revelar a sua paixão por tudo o que são gadgets, encantado por ver o mundo todo ligado entre si, em 2025. Ausentes ficaram quaisquer dissertações políticas; Tate não papagueou muito entre temas e, quando o fez, foi sempre em modo cool, a soltar gargalhadas na plateia e com aquela voz quente que sabe bem até só de ouvir falar.

Geoff Tate é um daqueles exímios vocalistas altos, de agudos, que acontece terem também um excepcional registo grave.

Na verdade, a par de Rob Halford, Geoff Tate é um daqueles exímios vocalistas altos, de agudos, que acontece terem também um excepcional registo grave. Isso notou-se bem na fantástica “Jet City Woman” e, claro, logo a seguir em “Silent Lucidity” [hush now, don’t you cry / wipe away the teardrop from your eye / you’re lying safe in bed / it was all a bad dream / spinning in your head].

Geoff Tate apresentou-a como uma canção especial para ele que, segundo fãs que o abordam ao longo da vida, já serviu de banda-sonora para casamentos, funerais e concepções de crianças, incluindo duas dele próprio! E é nesta altura que dou por mim a pensar se a multiplatinada “Silent Lucidity” não será a música mais bem sucedida, cantada pelo próprio autor, já escutada no RCA Club?

Foi também aqui que o jovem guitarrista James Brown achou que era uma boa altura para agradecer com vénias em diferentes direcções do público, incluindo varandins, enquanto “solava”! O legado de Chris DeGarmo não ficou chamuscado, apesar de tudo.

Operação: Legado Queensrÿche

Lá fora, era mais uma noite de chuva. Na sala, “Another Rainy Nigh (Without You)” e “Walk In The Shadows” era o bom velho rock que nos aconchegava, até que surge o encore com uma cover dos Pink Floyd. Na verdade, se quisermos ser rigorosos, todos os temas foram covers, uma vez que o ex-Queensrÿche se apresentou em nome próprio. Hoje, já parecem bem mais pacíficas as relações com os antigos companheiros de Seattle, resolvidas que estão as quezílias com a disputa do nome da banda.

“Welcome To The Machine” foi a canção com 50 anos que Geoff Tate foi resgatar ao álbum “Wish You Were Here” – como já havia acontecido no disco de versões “Take Cover” (2007) – a encaixar perfeitamente no repertório do músico, inclusive na questão lírica, num hipotético prenúncio floydiano de superior tecnologia. Serviu também para uma “metalização” dos riffs originalmente gravados por David Gilmour, aqui com boas prestações dos três guitarristas em palco. 

Só perdeu quem gosta de Queensrÿche e ficou em casa.

Foi um bom espectáculo, não tanto um big rock show como indica o nome da tour – nem sequer um backdrop havia ao fundo do palco – mas, ao nível da competência para homenagear um catálogo, digamos, só perdeu quem gosta de Queensrÿche e ficou em casa. E aqui entra a escolha do alinhamento. Foi todo baseado nos anos em que Geoff Tate esteve no reconhecido quinteto. Lembremos que o vocalista tem dois álbuns em nome próprio, três sob a designação Operation: Mindcrime e um, “Frequency” de 2013, sob o nome Queensrÿche, no mesmo ano de disputas entre as duas partes, em que os Queensrÿche “verdadeiros” se estrearam com Todd La Torre em… “Queensrÿche”.

Apesar de não ter sido proferida uma única vez no palco, essa era a palavra forte que todos subentendiam, banda e público, e eis que surgem os acordes semi-acústicos de “Take Hold Of The Flame”. Geoff Tate apresentou-a como uma das suas preferidas e os “putos” que o acompanham seguraram bem a chama deste hino de 1984.

Só faltava aquela, a tal, a outra das obrigatórias. Mas será que o homem de chapéu de couro e óculos de massa a ia cantar? Guitarras, baixo e kick da bateria dão o mote, Geoff Tate dispara aquele agudo fenomenal que é património imaterial do heavy metal – “Queen Of The Reich” invade-nos. Foi excelente, foi nostálgico, foi pungente. Bravo, Mr. Tate!

A setlist, para recapitular: Empire, Desert Dance, I Am I, Sacred Ground, The Thin Line, Operation: Mindcrime, Breaking The Silence, I Don’t Believe In Love, NM 156, Screaming In Digital, Walk In The Shadows, Another Rainy Night (Without You), Jet City Woman, Silent Lucidity, Welcome To The Machine, Take Hold Of The Flame, Queen Of The Reich.

No Início

Na primeira parte tivemos Josh Watts, que já foi baterista de Geoff Tate, mas que, em algumas datas desta digressão, se apresenta sozinho em palco com guitarra acústica. O nome anunciado era Ivory Lake. No entanto, por alguma razão, Josh não pôde contar com a restante banda, tal como acontecera em Madrid e Segovia. Set curto, mas revelador de boa voz e controlo das cordas (consta que também das peles), um jovem talento que teve a coragem de tentar aquecer uma noite que começou fria e acabou escaldante.

O texto é do Nelson Santos e as fotografias do Jorge Botas.

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