Dream Theater

Dream Theater, Parasomnia

Em “Parasomnia”, os Dream Theater reconciliam-se com o seu passado, reenquadrando Mike Portnoy no seu seio criativo. Menos dedicada a explorar novos territórios, a banda oferece-nos uma imersiva perspectiva ao seu próprio legado ao mesmo tempo que nos consegue oferecer alguns bangers estrondosos.

Intitulado “Parasomnia”, o 16.º álbum da banda marca a primeira música nova da formação clássica e mais reverenciada dos Dream Theater, composta por John Petrucci, James LaBrie, John Myung, Jordan Rudess e Mike Portnoy, desde “Black Clouds & Silver Linings”, de 2009. O novo álbum foi produzido por Petrucci e concebido por ‘Jimmy T’ Meslin, com Andy Sneap a voltar a misturar, após ter desempenhado essas funções no seu antecessor, “A View from the Top of the World”.

O seu lançamento, a 7 de Fevereiro de 2025 (via Inside Out/Sony Music) coincide com o arranque norte-americano da digressão mundial do 40.º aniversário da banda. Já na antecâmara da leg europeia dessa digressão, que passou em Portugal em Novembro de 2024, e a antecipar o referido álbum, os Dream Theater lançaram um vídeo para o single principal de quase 10 minutos, “Night Terror”. Mas há mais coisas para contar, antes de nos debruçarmos sobre as malhas de “Parasomnia” e os seus méritos.

Uma Longa e Dramática Série de Eventos

A separação de Mike Portnoy dos Dream Theater foi bem documentada. Em 2010, ele juntou-se temporariamente aos Avenged Sevenfold, para ajudá-los a terminar e fazer a digressão do seu álbum “Nightmare”, após a morte do baterista Jimmy “The Rev” Sullivan. Quando tentou regressar aos Dream Theater, foi informado de que Mike Mangini tinha preenchido o lugar de baterista, na sequência de um processo de audição exaustivo em que sete bateristas de renome mundial se candidataram. A era Mangini dos Dream Theater inclui cinco álbuns, incluindo a ópera-rock “The Astonishing”, de 2016, e um prémio Grammy 2022 por “The Alien”.

Para resumir as coisas, a relação de Portnoy com os seus antigos companheiros de banda continuou fora dos Dream Theater (apesar do baterista ir “dando uma no cravo e outra na ferradura”, ao longo dos anos). Em 2021, reuniu-se com Petrucci, Rudess e Tony Levin para um terceiro álbum de Liquid Tension Experiment – o supergrupo de prog-metal que formaram em 1997 – o seu primeiro álbum em 22 anos.

Antes disso, Petrucci juntou-se a Portnoy no álbum a solo do guitarrista de 2020, “Terminal Velocity”. Juntando-se isso ao estatuto de mal-amado que Mangini sempre teve, o regresso de Portnoy tornou-se mais uma formalidade que uma surpresa. Algo que foi oficializado há cerca de um ano, em Outubro de 2023.

Mangini foi bastante gracioso na hora de dizer adeus: «Entendo a decisão de trazerem o Mike Portnoy de volta neste momentoDesde o primeiro dia, a minha função não era preencher todos os papéis que o Mike tinha na banda. O meu papel era tocar bateria para ajudar a banda a continuar. O principal papel de manter a banda a funcionar ao vivo e com precisão todas as noites foi uma experiência intensa e muito gratificante».

Enfim, podem ler tudo sobre isto com maior detalhe no artigo em que abordámos o regresso de Portnoy aos Dream Theater.

Parasomnia

Poucos dias após o anúncio do regresso de Portnoy, os Dream Theater comunicaram estar a trabalhar afincadamente num novo álbum. Em declarações à Guitar World antes do lançamento da 40th Anniversary Tour (arranca na O2 Arena de Londres a 20 de Outubro) – Petrucci afirmou-se ansioso por ter Portnoy a apoiar o seu trabalho de riffs monstruosamente técnicos: «A minha relação com Mike Portnoy é semelhante à minha relação com [o baixista do Dream Theater] John Myung. Nós estudamos juntos na Berklee, então tínhamos 17, 18 anos. Tocámos numa banda por 25 anos e fizemos tudo juntos. Temos uma química arraigada».

Petrucci também disse ao GuitarWorld.com que previa tomar uma direcção diferente com o novo álbum. «Para mim, fazer um novo disco é uma oportunidade de dizer, tipo, ‘Tudo bem, o que é ainda não fiz antes? O que é que posso fazer que seja interessante para mim, que me deixe entusiasmado?’ E, normalmente, se começarmos com esse tipo de objectivo, as coisas acontecem. Surgem ideias. Vais explorar…»

Na soma dessas ideias, “Parasomnia” tem oito canções e um total de mais de 70 minutos de música, fechando com “The Shadow Man Incident”, que, com pouco mais de 20 minutos de duração, continua a tendência da banda de terminar os seus álbuns com faixas bem épicas. O título do álbum vem de um distúrbio do sono que pode incluir sonambulismo e terrores nocturnos e este é um disco conceptual (mais ou menos). As canções “A Broken Man”, “Dead Asleep”, “Midnight Messiah”, “Bend the Clock” e a já referida malha que encerra o disco, juntas com o sombrio e bombástico single principal, são todas criadas com o propósito de expandir o tema.

In the Arms of Morpheus & Night Terror

O tema de abertura, puramente instrumental, remete-nos para “Scenes From A Memory”, funcionando como um prólogo que evoca não só vários motivos melódicos que vão percorrer este disco como servem também de um “Resumo da Temporada Anterior”, para contextualizar uma vez mais a forma como os Dream Theater funcionam com Mike Portnoy sentado atrás do kit.

Outro destaque que não se pode ignorar é o gargantuesco som de guitarra. Não parecem restar dúvidas que John Petrucci está a usar aqui um modelo Majesty de 8 cordas, um monstro num corpo em mogno, com multi-escala de 27” e 25.5”, no lado grave e agudo respectivamente, e pickups custom angulados da DiMarzio. Além dos novos Mesa/Boogie JP-2C, uma expansão do primeiro amplificador exclusivo de produção ilimitada da MESA, desenvolvido especificamente e sem concessões que visa um único objectivo: fornecer o som IIC+ mais agressivo e puro num suporte versátil para atender às necessidades de gravação e performance ao vivo de John Petrucci. Podem saber mais sobre o amp no artigo em que o apresentamos.

Já os 10 minutos dão-nos de “Night Terror” dão-nos ainda mais informação sobre o momento dos Dream Theater. Desde logo, ao contrário das supracitadas afirmações de Petrucci, e no seguimento do tema de abertura, há muita coisa familiar neste primeiro single de “Parasomnia”. Há muito equilíbrio na composição para respeitar o percurso da banda na última década e ser-lhe consistente, ao mesmo tempo, evocar o período onde Mike Portnoy parou. Portanto, temos muitas sensações dos anos de “Systematic Chaos” (2007) e “Black Clouds & Silver Linings” (2009) e, uma vez mais, até de “Scenes From A Memory”, principalmente a partir daquele bloco de solos pelo minuto 8:50.

E por falar em solos, aquela secção (pelo minuto 7) em que são dobrados a guitarra e sintetizador, torna-se absolutamente maníaca. Aqui nota-se também a diferença essencial que os fãs sempre distinguiram entre os Dream Theater de Portnoy e Mangini, ao invés da velocidade que Mangini colocaria atrás dos seus dois shredders (Petrucci e Ruddess), Portnoy doseia tudo com mais goove, de modo mais orgânico e pesado, evitando uma décalage muito acentuada entre as secções de solos e as de riffs. Além disso, os coros vocais de Portnoy soam mais vigorosos e confiantes.

Claro que abundam os polirritmos e as mudanças drásticas de tempo. Aliás, cada um dos versos é ligeiramente diferente entre si – o segundo (arranca pelos 3:45) é um completo mindfuck! De resto, variando entre velocidade alucinante e riffs gargantuescos, talvez os Dream Theater estejam a misturar demasiadas coisas, como um showcase de tudo o se pode esperar do álbum, em vez de apresentarem algo mais homogéneo. Seja como for, as expectativas foram cumpridas.

A Broken Man

Mais uma malha de dimensão exigente, a marca 8:30 minutos, “A Broken Man” começa com uma poderosa investida musical que diminui de intensidade a partir do momento que o vocalista James LaBrie começa a contar a história de um veterano de guerra que sofre de perturbações do sono, como pesadelos e insónia, devido aos seus traumas de combate. A malha inclui gravações de áudio de veteranos reais em relatos sobre os seus horrores pessoais e a reviver os eventos traumáticos das suas missões nos campos de batalha.

A malha segue muitos dos pressupostos de “Night Terror” e o seu arranque, se pode ser considerado absolutamente expectável e dentro do cânone Dream Theater. Sucedem-se os riffs e power chords, que parecem pretender evocar o estrondo de barragens de artilharia – a tarola soa como disparos contínuos – e o caos sincopado de uma frente de batalha. As melodias vocais parecem um pouco desinspiradas, nos versos, melhorando no primeiro refrão.

Após a primeira metade, “A Broken Man” torna-se verdadeiramente interessante. Após o segundo refrão, na marca dos 5 minutos (4:56) Jordan Rudess ganha protagonismo com o solo de piano que, progressivamente, acolhe influências de John Lord, algo mais claro quando surge o Hammond. Quando John Petrucci inicia o seu solo, a secção rítmica e harmónica reveste-se duma sonoridade dirty blues, reminiscente daquela secção intermédia de “The Dance Of Eternity”, ilustrando a descontração destes soldados. E já que mencionámos o John Lord, dos Deep Purple, mais alguém reparou em quão Steve Morse é o solo de guitarra de Petrucci?

Dead Asleep

Começamos a escrever sobre esta malha da mesma forma que terminámos a anterior, referido o solo de Petrucci. É o nosso favorito neste disco dos Dream Theater. Aliás, o mesmo se pode dizer sobre esta malha baseada numa trágica história real, na qual Brian Thomas estrangulou a sua esposa durante o sono foi ilibado em tribunal, em Swansea, no País de Gales.

Depois da breve e suave introdução, os Dream Theater oferecem-nos um riff absolutamente esmagador, carregado de peso e dinamizado por estridentes harmónicos. A forma como bateria, baixo e guitarra estão colados é demolidora. É o tema mais polarizador do disco, redimensionando inclusivamente os três temas que haviam estreado anteriormente, estando estrategicamente colocada entre “A Broken Man” e “Midnight Messiah”.

Além disso, “Dead Asleep” está pejada de easter eggs. Como exemplo, a forma como a banda transita do solo de Jordan Rudess (7:47), os acordes descendentes remetem imediatamente, uma vez mais, para “Scenes From A Memory”, em particular “Beyond This Life”. Se são fãs, mesmo que moderados, dos Dream Theater será impossível não repararem. Da mesma forma, o riff e a estrutura a partir do primeiro 1/4 do minuto nove remete para “Octavarium” e “Sacrificed Sons”.

Midnight Messiah

Até aqui, são evidentes as referências aos tempos da primeira passagem de Portnoy nos Dream Theater, sobretudo musicais e baseadas em referências harmónicas rítmicas ou leitmotivs insinuados. Isso prossegue em “Midnight Messiah” que acrescenta ainda referências líricas directas, através de citações. Assim, encontramos referências claras a “Home”, “Constant Motion” e “Strange Déjà Vu” nesta letra de Mike Portnoy.

Musicalmente, “Midnight Messiah” tem uma estrutura bastante rápida e thrash, deixando às claras algo que os Dream Theater nunca esconderam: a sua devoção aos Metallica. As partes vocais são puxadinhas e, sinceramente, dos três temas já revelados, este é aquele em que James LaBrie mais se destaca. Ainda em comparação com os restantes temas de “Parasomnia”, esta malha parece mais plana, leia-se mais directa, ainda que seja a que possui a introdução mais marcante, e oferece ao ouvinte oito minutos de um sentimento de repetição a espiralar como um resíduo mental.

As batidas agressivas e o peso de guitarras de “Midnight Messiah” possuem um efeito avassalador, que é catapultado pela mudança brusca de tempo no refrão, com a abertura dos sintetizadores na mistura e a voz de LaBrie a potenciarem um sentido apoteótico. Até agora, é a malha menos complexa de descodificar e os oito minutos passam a correr. É uma escuta bem rocker, como se a banda fosse ainda bastante jovem e com cada um dos membros dos Dream Theater em intensidade máxima.

John Petrucci e Jordan Ruddess têm partes fantásticas nesta malha. Na marca dos 5:20 minutos, o primeiro solo é tremendo, muito equilibrado de técnica e feeling, com arpeggios ascendentes e descendentes, e depois aquele duelo uníssono de teclas e guitarra (em tapping) em uníssono é ouro autêntico. O terceiro refrão é muito bom. As acentuações da guitarra com dive bombs por baixo de tudo são uma cena!

Are We Dreaming & Bend The Clock

“Are We Dreaming” e “Bend the Clock” servem como pivô temático, mudando o foco dos sonhos para os arrependimentos da realidade. A primeira é um curto interlúdio carregado de sombras, austeridade e frieza, com o órgão de Rudess a criar uma atmosfera inquietante pontuada por vozes sussurradas.

“Bend the Clock”, por outro lado, é uma balada (pensavam que se livravam de uma?) que reflecte sobre o tempo perdido. Os acordes quentes de Petrucci conduzem os versos, enquanto a entrega sincera de LaBrie, naquele que é o seu mais conveniente e melhor registo, agita as emoções. O solo final, prolongado e climático, é pura magia de Petrucci: uma mistura expressividade com fraseado semelhante ao de Gilmour e brilhantismo técnico, construindo um crescendo emocional antes de se desvanecer no éter. Remete para os anos 90 dos Dream Theater, quando o guitarrista (e a própria banda) forçava a barreira do cringe, do azeite. É maravilhoso, na verdade!

The Shadow Man Incident

O grande final de tudo isto, “The Shadow Man Incident”, é um épico de 20 minutos que, tal como a introdução e tal como “Finally Free” de “Scenes From A Memory” (há que ponderar que este álbum pode ser um excelente companion disc da obra-prima dos Dream Theeater), encapsula os temas de “Parasomnia” e mostra a excelência técnica e composicional da banda.

A canção começa com o sinistro desenrolar de uma caixa de música, a sua melodia desdobra-se num esmagador riff de sete cordas que estabelece um ambiente de horror gótico/vitoriano. Os versos tecem um conto de figuras sombrias à espreita na periferia da consciência, inspirando-se nos versos de Lovecraft «That is not dead which can eternal lie, and with strange aeons even death may die», de “The Nameless City”.

A meio, a canção transita para uma secção instrumental prolongada, com trechos de canções anteriores como “Octavarium”, “The Ministry Of Lost Souls” e “Strange Deja-Vu”, um recreio para o legado da banda. A bateria de Portnoy soa estrondosa e precisa, com os seus preenchimentos caraterísticos a impulsionar o ritmo. Os solos de Petrucci são ardentes e emotivos, complementados pelas texturas cinematográficas do teclado de Rudess.

Provavelmente, no que diz respeito a épicos, este é muito mais impactante do que a faixa-título do álbum anterior, “A View from the Top of the World”. Os momentos finais são um tour de force sinfónico, com todos os membros dos Dream Theater a unirem-se numa marcha apertada e climática que cresce até ao silêncio, deixando apenas o fraco eco de um relógio a contar.

Epílogo

“Parasomnia” é um disco denso e ambicioso que recompensa a audição repetida, com uma produção estelar que consegue captar a complexa gama dinâmica dos Dream Theater com total clareza e profundidade. Embora ocasionalmente se incline para território familiar, fá-lo de uma forma que parece intencional, celebrando o legado da banda enquanto abraça a sua química renovada com o regresso de Portnoy.

E, bem vistas as coisas, cada um dos músicos da banda já conta mais de 55 anos e abriu caminho para todo um género musical. Os Dream Theater venceram um GRAMMY, depois de duas nomeações, e mais de 15 milhões de discos vendidos. “Images & Words”, recebeu certificação de Ouro e figura na lista “100 Maiores Álbuns de Metal de Todos os Tempos” da Rolling Stone. A Guitar World, por seu lado, colocou “Awake” no topo da lista “Superunknown: 50 Álbuns Icónicos que Definiram 1994”. O álbum “A Change Of Seasons” de 1996, foi, notavelmente, a banda-sonora da cobertura da NBC do Downhill Skiing nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2002.

Do über incónico “Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory” já falámos abundantemente. O quinto álbum de estúdio e o primeiro conceptual dos Dream Theater. Sequela de “Metropolis Pt.1: The Miracle and the Sleeper”, a banda regressou aos BearTracks Studios em Suffern, Nova Iorque, para o gravar. Originalmente lançado a 26 de Outubro de 1999, pela Elektra Records, Mike Portnoy, John Petrucci e Jordan Ruddess (que se estreou aqui) recordam connosco esta obra-prima do prog rock.

Em 2009, “Black Clouds & Silver Linings” alcançou a posição #6 no Top 200 da Billboard, enquanto “A Dramatic Turn Of Events” e “Dream Theater”, de 2011 e 2013, respectivamente, mantiveram-se no Top 10. Em 2016, os Dream Theater regressaram com o seu segundo álbum conceptual, o muito aplaudido “The Astonishing”, e, nos anos que passaram, continuaram sempre a crescer a sua já enorme base de seguidores com “Distance Over Time” e “A View From The Top Of The World”.

Tudo isto para dizer que os Dream Theater não nos devem absolutamente nada e só podemosdar-nos por satisfeitos por ainda estarem a fazer música de classe superlativa. Os últimos dois álbuns foram lançamentos fantásticos, considerando todas as coisas. E o mesmo vale para “Parasomnia”. Talvez não sejam do nível de “SFAM “Scenes From A Memory”, “Images & Words” ou “Awake”, mas são óptimos álbuns.

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