“Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory” é o quinto álbum de estúdio e o primeiro conceptual dos Dream Theater. Sequela de “Metropolis Pt.1: The Miracle and the Sleeper”, a banda regressou aos BearTracks Studios em Suffern, Nova Iorque, para o gravar. Originalmente lançado a 26 de Outubro de 1999, pela Elektra Records, Mike Portnoy, John Petrucci e Jordan Ruddess (que se estreou aqui) recordam esta obra-prima do prog rock.
Numa perspectiva global, 1998 foi um ano cheio de acontecimentos. Foi assinado o acordo de paz de Sexta-Feira Santa, que pôs termo a décadas de conflito na Irlanda do Norte. O euro foi introduzido em todo o continente. Bill Clinton admitiu a sua indiscrição com a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky, o que levou à sua destituição e eventual absolvição. A França ganhou o Campeonato do Mundo de Futebol. A Rússia foi atingida por uma crise financeira. A última sensação da Internet era uma coisa chamada Google e “Titanic” tornou-se o primeiro filme a faturar mil milhões de dólares. Estes factos estão, evidentemente, bem documentados.
O que talvez não saibas é que 1998 foi também o ano em que Mike Portnoy deixou os Dream Theater pela primeira vez – pelo menos por um breve período. «Para mim, os Dream Theater tinham chegado a um ponto crítico, de vai ou racha. Durante a digressão de Falling Into Infinity decidi deixar a banda – e fi-lo durante alguns dias. Estávamos na Finlândia e basicamente… Não vou reviver isso tudo de novo, mas estávamos a passar por momentos incrivelmente difíceis. Resumindo a história, a única forma de voltar a pôr os Dream Theater nos eixos era recuperar o controlo de quase todas as facetas da banda», explica o baterista, recordando o incidente.
Portnoy não está a mentir. Para uma reavaliação completa e minuciosa do 25.º aniversário de Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory, temos de examinar a confusão em que a banda se meteu com Falling Into Infinity, de 1997. Nessa altura, incluindo um curto período conhecido como Majesty, o grupo americano-canadiano já estava junto há uns 12 anos.
Uma Sucessão de Eventos Dramáticos
Os bons e os maus momentos dos Dream Theater incluíram um falso começo quando assinaram com a Mechanic Records para a sua estreia, When Dream And Day Unite, embora a entrada do cantor James LaBrie e a mudança para a Atco (uma subsidiária da Atlantic) para o divisor de águas que se seguiu, Images And Words, os tenha visto vender meio milhão de cópias e reivindicar o papel de líderes do metal progressivo.
A seguir ao álbum Awake, a perda do teclista original Kevin Moore foi um revés e, com as idas e vindas de empregados na editora-mãe da Atlantic, a Warner Brothers empurrou-os da Atco para a EastWest e, finalmente, para a Elektra e para o compreensivo Derek Shulman – o vocalista dos Gentle Giant que se tornou o chefe da editora e que ajudou a contratá-los – aparentemente há muito desaparecido. «Francamente, não sei porque é que a empresa nos manteve até ao oitavo e último disco do nosso contrato», admite o guitarrista John Petrucci.
É fácil esquecer (por ser difícil de perceber) que, há mais de duas décadas, o futuro dos Dream Theater parecia longe de estar assegurado. O respeito que eles têm hoje ainda não havia sido conquistado. Os media não os entendiam («Somos criticados por todas as revistas, então por que nos damos ao trabalho?», lamentava-se o baterista Mike Portnoy na Classic Rock). E a banda parecia ter perdido o fôlego quando, depois de se curvar às exigências dos seus patrões, Falling Into Infinity estagnou no número 52 da Billboard Hot 100.
Nos bastidores, a pressão começou a aumentar, levando à tensão entre os dois principais elementos criativos dos Dream Theater. Portnoy e Petrucci tinham formado o grupo como estudantes na Berklee College Of Music, em Boston, com o baixista John Myung. Controlador confesso, Portnoy não gostou da insistência da editora em que Kevin Shirley, dos Aerosmith/The Black Crowes, fosse o responsável pela consola de gravação de Falling Into Infinity, e também que eles tentassem colaborar com Desmond Child, compositor dos Bon Jovi/Kiss, resultando numa única co-escrita na canção You Not Me.
Quando se sugere a Portnoy que a Elektra se “intrometeu” na criatividade dos Dream Theater em Falling Into Infinity, o baterista ri-se sarcasticamente: «Oh, eu diria muito, muito mais do que ‘intromissão’. A Elektra controlava completamente a banda naquela época – eles quase a destruíram».
No entanto, a editora não estava sozinha nesse papel. Na estrada, o alcoolismo de Portnoy estava fora de controlo. Após ter tomado a iniciativa de despedir o técnico de guitarra de Petrucci, na sequência de um incidente em palco, o teclista Derek Sherinian afirmou mais tarde que os dois deixaram de se falar durante quase um mês. Isso aumentou o ressentimento de Portnoy em relação à vontade de Petrucci de aceitar “compromissos” impostos ao grupo. No final, uma farsa de uma discussão embriagada com o tour manager sobre uma visita pós-show ao McDonalds resultou em Portnoy a exigir um voo para casa no dia seguinte, antes de concordar em honrar o resto da digressão europeia.
Mais de duas décadas depois, Petrucci lembra-se do curso dos acontecimentos de forma um pouco diferente. «O Mike estava frustrado com muitas coisas que estavam a acontecer, mas ele nunca se sentou e disse à banda que ia sair. Não foi como quando ele se demitiu [em 2010]; talvez isso fosse algo na mente do Mike – mas ele nunca tornou isso oficial», afirma o guitarrista.
«Havia uma tonelada de frustração – para todos nós, embora eu não dissesse que os Dream Theater estiveram perto de se separar nessa altura. Mas a perspectiva de cada um é diferente. Por exemplo, o Mike odiava fazer alterações nas músicas quando trabalhámos com o Kevin Shirley no Falling Into Infinity, e também como esse disco foi produzido. Ele ficou ressentido com o facto de eu ter passado um dia a trabalhar em canções com o Desmond Child. Não quero menosprezaer nada do ponto de vista do Mike, mas eu não via as coisas dessa forma. Eu adorava o Kevin Shirley. E se trabalhar com um compositor como o Desmond era ou não a coisa certa a fazer, eu diverti-me imenso e foi uma experiência útil», elabora Petrucci.
Implacáveis
Enquanto Portnoy adiava a sua saída, os Dream Theater contrataram dois pesos pesados da indústria – o empresário dos Deep Purple, Bruce Payne, e o representante de Steve Morse, Frank Solomon – para actuarem como Rottweilers em seu nome, pelo menos a curto prazo, e mais tarde com a editora discográfica. «Dissemos ao Bruce e ao Frank que não sabíamos se íamos continuar depois daquela digressão. O John deixou claro que não continuaria sem mim e que se eu saísse seria o fim da banda». disse Portnoy ao escritor Rich Wilson no livro oficial dos Dream Theater, Lifting Shadows.
Ninguém ficou mais surpreendido que Portnoy quando, após Solomon ler o ato de revolta à chefe da Elektra, Sylvia Rhone, exigindo que os Dream Theater assumissem a responsabilidade pela produção, a poderosa executiva recuou. «O Frank falou com a editora e jogou duro por nós, dizendo que se a Elektra queria que os Dream Theater existissem, então teria que ser nos nossos próprios termos. Isso significava não ouvir a música até que ela estivesse pronta e deixar-nos em paz. Era imperativo que recuperássemos a confiança do nosso público», conta o baterista.
Entretanto, os restantes membros dos Dream Theater também concordaram que Petrucci e Portnoy se tornassem os líderes da banda, pondo fim à chamada “falsa democracia”. «Estabelecer que alguém estava no comando ajudou a suavizar as brigas. Até então, tínhamos perdido muito tempo com as pessoas a fazer campanha com as suas ideias para os outros. O John e eu tínhamos uma visão muito clara do que deveria ser o nosso próximo disco e toda a gente ficou contente por respeitar isso», explica Portnoy. No entanto, como diz o velho ditado, não se pode fazer uma omelete sem partir um ovo ou dois – e o passo seguinte foi assegurar a icónica formação dos Dream Theater que, à excepção da eventual sucessão de Portnoy por Mike Mangini e do seu regresso, se mantém até aos dias de hoje.
Tendo recebido a sua própria educação formal na Juilliard School Of Music, em Nova Iorque, Jordan Rudess substituíra brevemente Kevin Moore em 1994, dando um concerto com o grupo num evento chamado Foundations Forum, antes de, no papel recente de pai, perceber que era mais responsável aceitar um papel a tempo parcial com a banda instrumental Dixie Dregs, sediada na Geórgia, ao lado do guitarrista dos Kansas/Deep Purple, Steve Morse.
Embora a oportunidade de trazer Rudess para os Dream Theater parecesse ter sido perdida, Portnoy e Petrucci convidaram-no a fazer parte do seu projecto externo Liquid Tension Experiment, que também contava com o guru do Chapman Stick, Tony Levin, dos King Crimson e Peter Gabriel. «Nessa altura, a minha mulher e eu tínhamos um filho pequeno e estar com os Dregs parecia mais adequado à minha vida. Tinha dito ‘não’ aos Dream Theater, mas aceitei de bom grado o convite para voltar a tocar com o John e o Mike, parecia ser a minha única oportunidade de o fazer. Foi emocionante. O Tony Levin é um músico brilhante que veio de um mundo diferente do deles, por isso eu era o ‘tipo do meio’. Pensando nisso agora, esse é quase o meu papel nos Dream Theater – manter as coisas equilibradas», pondera o virtuoso teclista.
Ao longo dos dois álbuns instrumentais dos Liquid Tension Experiment para a Magna Carta Records, a química entre Petrucci, Portnoy e Rudess tornou-se inegável – e à medida que a relação dos Dream Theater com Sherinian se afundava, Petrucci e Portnoy chegaram à mesma conclusão – para levar as coisas para o próximo nível a nível musical, Rudess tinha de se juntar à banda.
Sherinian era um tipo solteiro e preocupado com a imagem que, longe da música, se sentia como o oposto polar dos seus companheiros de banda mais velhos. E assim, durante a finalização do segundo álbum de Liquid Tension Experiment, Petrucci e Portnoy sondaram Rudess sobre um retorno mais permanente aos Dream Theater. Ele mostrou-se receptivo, mas com uma pequena série de datas que não podiam ser canceladas, e a banda conformou-se com as más notícias antes de informar um Sherinian incrédulo que os seus quatro anos de carreira tinham terminado, através de uma chamada telefónica de grupo em Janeiro de 1999.
«Foi estranho, mas era uma questão de negócios, não era nada pessoal. Para que a banda sobrevivesse, isto era algo que tínhamos de fazer», recorda Portnoy. «Seguir em frente sem o Derek foi uma coisa implacável, mas no fundo estávamos a pensar como seria com o Jordan na banda novamente. Contar-lhe a nossa decisão foi muito difícil, porque não havia razão para o despedimento, mas por vezes temos de tomar decisões difíceis – e olhando para trás sei que esta foi a mais acertada», remata Petrucci.
Ao anunciar o seu próprio grupo, os Planet X, Sherinian deixou recados: «Fui apanhado totalmente desprevenido pelo facto de a banda se ter livrado de mim, mas nestas situações temos de fazer limonada dos limões. Adoro o rock progressivo pela sua complexidade e musicalidade, mas visualmente aborrece-me até às lágrimas. Quero injectar alguma atitude de Hollywood». [Em anos posteriores, Sherinian juntaria forças novamente com Portnoy , nos Sons Of Apollo].
As Fundações de Metropolis
Com Portnoy a tomar uma última bebida alcoólica no seu 33º aniversário, a 20 de Abril de 2000, e após a resolução dos numerosos problemas da banda, o assunto da demissão do baterista passou para segundo plano, que recorda: «Tratava-se de recuperar o controlo. Estávamos a limpar a casa e a começar de novo. E o que se seguiu foi a ressurreição dos Dream Theater».
As sementes para Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory foram lançadas logo em 1996, quando Sherinian ainda era membro. Uma vez mais é Portnoy que volta atrás no tempo: «Durante as sessões de Falling Into Infinity decidimos finalmente fazer o que os fãs nos tinham implorado desde Images And Words, que era escrever a segunda parte de Metropolis, uma canção desse álbum. Eu, o John Petrucci, o John Myung e o Derek Sherinian escrevemos um épico de 20 minutos, embora não tivesse letras ou vozes; mas dentro da estrutura da música, muitos momentos chegaram ao disco final de uma forma ou de outra, incluindo Overture 1928, Strange Déjà Vu, The Dance Of Eternity e One Last Time».
Essa versão em bruto foi mais tarde disponibilizada pela YtseJam Records de Portnoy como parte de um bootleg oficial das demos de Infinity, mas o seu conteúdo tornou-se a pedra angular do novo plano dos Dream Theater. «Para o próximo disco, estava na altura de fazer algo conceptual e super ambicioso. Como uma banda progressiva, fazer uma peça conceptual completa era algo que precisava ser riscado da lista que ser marcada. Era algo que estávamos ansiosos por fazer», diz o baterista fundador da banda.
Possivelmente conscientes da forma como obra-prima do metal progressivo com o seu selo, Operation: Mindcrime catapultara a carreira dos Queensrÿche na década anterior, a Elektra Records deu luz verde ao projecto e reservou tempo nos BearTracks Studios, a instalação no norte do estado de Nova York onde o grupo havia concebido Images And Words.
Embora esse mesmo álbum tenha proporcionado a sua emancipação comercial, tanto Portnoy como Kevin Moore chocaram de frente com o seu excêntrico produtor, David Prater. Mais tarde, foi dito que Prater insistiu em tirar a roupa e desligar todas as luzes do estúdio enquanto misturava a épica faixa de abertura, Pull Me Under, fazendo Mike suspirar: «Lidar com esse idiota foi tortuoso». Desta vez, no entanto, os grilhões foram retirados. Tão fresca e nova era a associação dos Dream Theater com Rudess que, para impressionar os seus colegas de banda, ele apresentou um portfólio de 40 ou 50 fragmentos de música previamente preparados.
«Lembro-me do Mike Portnoy a olhar para mim confuso e dizer: ‘Oh meu Deus, gostamos de escrever música juntos no estúdio’. Eu fiquei tipo: ‘Desculpa, não sabia’. O Mike ficou surpreendido. Mas é claro que ele não resistiu e algumas delas foram usadas. Para a banda, no entanto, foi uma coisa realmente nova trabalhar com alguém como eu», ri-se Rudess. Sobre o teclista, Petrucci acrescenta: «Está sempre totalmente preparado – é por isso que ele é tão importante para nós». Rudess disse uma vez à Prog que um profundo interesse em orquestração foi a sua maior contribuição para os Dream Theater – algo que «no início, deixou-os um pouco nervosos» – afirmando também que «John Petrucci precisava mesmo de um parceiro que o inspirasse e acompanhasse».
O guitarrista não discorda destes pontos. «Apesar de os três tipos terem personalidades muito diferentes, sempre tive uma relação muito próxima com cada um dos nossos teclistas. A partir do momento em que Jordan chegou, com o seu conhecimento, habilidade, musicalidade e entusiasmo, houve uma química de escrita instantânea que nos permitiu levar as coisas mais longe do que nunca. A qualidade da nossa música cresceu exponencialmente».
Por seu lado, Rudess insiste que não sentiu qualquer desconforto ao substituir um tipo cujo banco podia ainda estar ligeiramente quente: «Não quero parecer insensível, mas pelo que eu entendi do drama com o Derek, era algo anunciado e eu senti que meu lugar era ali». Rudess também não estava particularmente ciente de que os Dream Theater iriam manter-se ou cair com base na música que estavam a fazer. «Não tinha vivido toda a história do Falling Into Infinity. O que senti dos outros foi excitação, talvez até um entusiasmo renovado. Trazer-me para a banda deu-lhes outra explosão de energia. Eles estavam muito entusiasmados – nada os ia deitar abaixo», argumenta.
Victoria Is Real
Embora a ideia original tenha vindo de Petrucci, Portnoy tinha ficado impressionado com Dead Again, um filme chamado que foi dirigido e estrelado por Kenneth Branagh, e juntos os dois dínamos principais dos Dream Theater pensaram em um enredo estrelado por um homem chamado Nicholas, que visita um hipnoterapeuta para se submeter a uma terapia regressiva e descobrir que, numa vida anterior, ele tinha sido uma jovem mulher, Victoria Page, que foi brutalmente assassinada na década de 1920. O protagonista opta então por aprofundar a história para descobrir elementos mais perturbadores da sua vida anterior.
Para nos deixar ainda mais imersos e simultaneamente desorientados, o enredo, dividido em 12 actos individuais, foi cortado e colado de uma forma aparentemente aleatória, ao jeito de Quentin Tarantino. «É como um mistério de assassinato que tens que seguir através do livro das letras, porque diferentes fontes se relacionavam com os períodos de tempo na história», Portnoy observa com orgulho. Durante a sua pesquisa intensiva, Petrucci absorveu horas e horas de fitas cassete sobre regressão hipnótica. «Até as punha a tocar enquanto conduzia o carro – não era a coisa mais inteligente a fazer! Mas atirei-me mesmo a isso».
John Myung compôs a letra de Fatal Tragedy e LaBrie contribuiu com a letra de One Last Time, mas a história foi toda obra de John e Mike. «Preparámos a história capítulo a capítulo antes de entrarmos no estúdio. Foi uma tarefa hercúlea», diz Portnoy.
Uma dúzia de músicas foi concluída no BearTracks; mas Portnoy diz que, embora o conceito tenha emanado dele e de Petrucci, cada membro contribuiu igualmente. «Não quero que ninguém fuja com a ideia de que eu e o John escrevemos este álbum. A música foi feita com os quatro instrumentistas numa sala, a trocar ideias uns com os outros antes de chamarmos o James [LaBrie], e ele, o John e eu colaborámos nessas melodias».
Num canto do estúdio, os Dream Theater ergueram um santuário a que chamaram Inspiration Corner. Entre os seus conteúdos estavam Tommy e Quadrophenia dos The Who, The Wall e The Dark Side Of The Moon dos Pink Floyd, Misplaced Childhood e Brave dos Marillion, The Lamb Lies Down On Broadway dos Genesis, Sgt Pepper… dos Fab Four, a dupla de Roger Waters The Pros And Cons Of Hitchhiking e Radio KAOS, bem como exemplos mais contemporâneos como OK Computer dos Radiohead e Operation: Mindcrime.
Rudess admite que a instalação o intrigou um pouco como recém-chegado: «Quando Portnoy trouxe aqueles álbuns… Nesta altura compreendo-o e está tudo bem, mas não preciso de expor as minhas influências musicais mesmo à minha frente e tentar alimentá-las. Não queria olhar para isso nem distrair-me com o que tinha sido feito anteriormente. Eu só queria tocar música». Portnoy tem uma visão diferente: «Qualquer pessoa que diga que fez um disco sem qualquer influência externa está a mentir. Fizemos um disco que nenhuma dessas bandas alguma vez faria. Só queríamos algo que nos servisse de referência, não para roubar».
«Naquela altura, estávamos talvez há 10 anos na nossa carreira e, por favor, acreditem que não encarámos de ânimo leve a ideia de fazer um disco conceptual. Éramos grandes fãs dessas obra-primas e, quando chegou a altura de fazer uma nossa, queríamos que estivessem na sala connosco, como um lembrete de como fazer as coisas corretamente», explica Petrucci pacientemente.
Uma pequena parte de apropriação indébita, que Portnoy admite voluntariamente, diz respeito à épica conclusão de 12 minutos do álbum. «Uma obscuridade de Barclay James Harvest chamada Suicide? está entre as minhas favoritas de todos os tempos. Conta a história de alguém que ou é morto ou suicida-se. Depois de terminar, a banda reencena toda a história com efeitos sonoros. É por isso que no final de Finally Free a música se desvanece, ouve-se o hipnoterapeuta a dizer ao Nicholas para abrir os olhos antes de passar para a estática, e não se sabe se ele foi ou não assassinado», explica o baterista referindo-se ao canto do cisne de Octoberon, álbum de 1976.
Com Rudess a arranjar e a dirigir um coro de gospel para embelezar The Spirit Carries On, os Dream Theater começaram a perceber que tinham criado algo de muito especial. «Foi a primeira vez que usámos uma vocalista feminina [Theresa Thomason], inspirada em The Dark Side Of The Moon», comenta Portnoy. Rudess também ajudou Portnoy a criar os vários efeitos sonoros que coloriram o conto, «eram coisas como tiros, um casino ou a cena de sexo», revela o baterista.
Como fãs de longa data dos Rush (quem nunca?), o quinteto também apreciou a colaboração íntima com o homem de confiança dos canadianos, Terry Brown, que para além de coproduzir as vozes de LaBrie e Portnoy também desempenhou o papel de hipnoterapeuta – embora, a longo prazo, esta experiência deixasse um sabor ligeiramente amargo. «Quando se tratava de usar a sua voz em digressão, Terry queria quantias extravagantes de dinheiro. É por isso que os créditos do álbum ao vivo dizem: ‘Extra special no thanks to Terry Brown’», explica Portnoy.
O único desastre significativo veio de uma mistura de David Bottrill – em termos de produção, o homem do momento – que trabalhou com os Dream Theater após o Thrak do King Crimson e o segundo álbum do Tool, Ænima. «A mistura de Bottrill era demasiado suave e não era suficientemente pesada», recorda Petrucci com tristeza. Assim, com o tempo a esgotar-se, Kevin Shirley interveio durante o tempo que a sua própria agenda permitia, especificamente para aperfeiçoar as canções que a banda acreditava terem potencial como singles. O bootleg oficial da YtseJam exuma a versão original.
Um Clássico Moderno
Retirando a sub-referência do título da capa dos CDs promocionais enviados aos críticos, e cortando qualquer referência musical a Metropolis de um radio edit do single Home, os Dream Theater fizeram um esforço extremo para esconder que Scenes era uma sequência de Metropolis até o último momento possível. Tornou-se um sucesso no Top 75 nos Estados Unidos quando originalmente lançado em 26 de Outubro de 1999, embora, intrigantemente, esta posição na tabela não conseguiu igualar a de Falling Into Infinity, que tinha alcançado o número 52.
Incrivelmente, os Dream Theater não receberam qualquer feedback significativo da Elektra – nem afirmação do valor artístico, nem desaprovação pelo facto de não ter chegado mais alto. «A empresa era tão grande que me pareceu que eles mal sabiam que nós existíamos. Consegui falar com Sylvia Rhone ao telefone, o que para um membro da banda não deveria ser difícil – mas foi – e quando lhe pedi para lançar Through Her Eyes como single, ela respondeu: ‘Naaah, acho que não’. Ela foi simpática, mas, em última análise, para os Dream Theater a posição nas tabelas não importava. A Elektra sabia que tínhamos uma grande base de fãs que só iria crescer e que havia dinheiro a ganhar, e era só isso que lhes interessava», recorda Petrucci.
Durante uma digressão mundial de oito meses, Metropolis Pt 2 foi apresentado do princípio ao fim, um feito que a banda nunca tinha tentado anteriormente. A sua teatralidade sombria e macabra adequava-se ao grande palco. Lembro-me de ficar tão atordoado quando as luzes se voltaram a acender na Aula Magna, em Lisboa, como quando o disco parou, a primeira vez que o ouvi.
Mais tarde lançado como o DVD Metropolis 2000: Scenes From New York, e em forma de disco de áudio triplo como Live Scenes From New York, uma ambiciosa apresentação de três horas no Roseland Ballroom viu atores e atrizes a interpretar o enredo, reforçado por Theresa Thomason e um coro. Tudo o que realmente impediu os Dream Theater em 1999 foi a tecnologia primitiva disponível para apresentar o seu espectáculo. «Naquela época, os nossos ecrãs de vídeo eram pequenos monitores de TV horríveis ao lado do palco. Mas os nossos corações estavam implantados naquele espetáculo e os fãs perceberam-no mesmo», lembra Portnoy.
Duas décadas depois, é difícil não pensar em Scenes From A Memory como o disco que salvou a carreira dos Dream Theater. Mike Portnoy considera-o a melhor afirmação da banda – e também a mais significativa. «Toda a gente sabe a importância de 2112 para os Rush, e este foi o nosso equivalente – estou convencido de que não estaríamos a falar agora sem esse disco».
«Scenes é certamente um dos nossos álbuns definidores, mas o tempo coloca as coisas em perspectiva. Acredito que, um dia, The Astonishing [a fracturante “passagem pós-apocalítica retro-futurista para o feudalismo de estilo medieval” do grupo, lançada em 2016] ocupará o seu devido lugar; nunca será tão popular como Metropolis Pt 2, mas espero que seja reavaliado».
«Este foi um ponto de viragem indubitável para nós. Foi o nosso primeiro disco conceptual – e claro que fizemos mais desses, mais recentemente o The Astonishing. E a chegada do Jordan permitiu-nos fazer o tipo de disco que antes teria sido impossível. Tenho um orgulho imenso nele», conclui diplomaticamente Petrucci.
Artigo traduzido e adaptado de The only way of getting back on track was to regain control of just about every facet of the band: When Mike Portnoy quit Dream Theater for the first time, the shakeup led to epic double-album Metropolis Pt. 2, de Dave Ling.

Um pensamento sobre “Dream Theater, As Memórias de Metropolis PT2: Scenes From A Memory”