A evolução das estruturas musicais dos Tool em “Ænima”, em conjunto com as letras instigadoras de Maynard James Keenan, convida-nos a entrar num mundo de escuridão e complexidade cuja revelação dos significados é, simultaneamente, uma experiência desafiadora e gratificante.
Muito se tem reflectido sobre o trabalho de maior sucesso e influência dos Tool no mais de quarto de século desde o seu lançamento. Isto deve-se, talvez, à natureza enigmática dos próprios californianos. Por muito que se tenha investido na consideração conceptual dos Tool, o enigma central da banda presta-se a uma espiral cada vez maior de teorias e conjecturas, muitas delas convincentes, e todas elas a rodar descontroladamente em direcções variadas. Mas apesar de toda a procura de significado que os Tool e “Ænima” inspiram, a teoria conceptual do álbum – ou seja, aquilo sobremo que é realmente – foi escrita e lançada originalmente com o próprio álbum, em formato de vinil em 17 de Setembro de 1996 e em CD no dia 1 de Outubro de 1996.
Como exemplificam artigos que já publicámos sobre “Lateralus” ou “Fear Inoculum”, por exemplo, os Tool nunca foram o tipo de banda que lança um mero agregado de canções. Cada álbum surge como uma totalidade unificada. O que não quer dizer que os álbuns sejam necessariamente conceptuais. Embora os álbuns possam lidar com temas conceptuais, não contam, no entendimento tradicional da frase, uma única história. Em vez disso, é importante olhar para cada lançamento como uma obra de arte singular em si. As músicas individuais que compõem os álbuns são, de facto, as chaves para entender o trabalho como um todo, mas também é preciso considerar o conjunto que formam.

Os Tool nunca tornaram fácil ignorar a totalidade das coisas. Mesmo os trabalhos lançados antes de “Ænima” – “Opiate” (1992) e “Undertow” (1993) – são convincentes em criar um estado de espírito e ambiental transcendental, no qual a música é apreciada. Mas longe das tradicionais notas de rodapé dos seus dois lançamentos anteriores, “Ænima” foi apresentado com o que é nos nossos dias a assinatura dos Tool, o álbum como obra de arte. Com a sua jewelcase lenticular, era (e continua a ser) diferente de tudo o que já foi produzido. Esse é o nosso primeiro indicador da intenção do álbum.
Este era suposto ser um trabalho que agarrasse e prendesse toda a nossa atenção. Não se tratava de algo para colocar como pano de fundo; era suposto ficarmos absorvidos e transfixados. E, certamente, a embalagem das notas de rodapé facilita a transfixação. Antes mesmo de abrir o álbum, podemos ver um aglomerado de olhos a aparecer e a desaparecer.
Surge aí uma colecção particularmente densa de palavras que tornam bem explícito o que os Tool estavam a dizer. Começando com uma análise densa da cetamina do NIH, o texto aparentemente incompreensível acaba por transitar para um pequeno artigo sobre Timothy Leary e os Futants. Nessa secção, encontra-se a frase: «Sempre que um cientista, filósofo, artista ou atleta leva os nossos limites a um novo patamar, toda a raça evolui».
A evolução é um tema central para a colecção de canções que compõem a obra de arte que é “Ænima”. Esta é uma noção apropriada, dado que Ænima, também, é um trabalho de evolução por direito próprio. Com os seus dois álbuns anteriores a encaixarem-se perfeitamente no meio pós-grunge do metal da época, os Tool atingiram novos patamares com “Ænima” (um impulso que continua até hoje). Sonicamente, duas coisas mudaram em “Ænima” que ajudaram os Tool a redefinir quem e o que eram como banda.
A primeira foi Justin Chancellor, que substituiu Paul D’Amour durante o processo de composição. Com muitas das malhas já escritas, Chancellor só contribui para cerca de metade da composição, mas acrescentou uma bravata no baixo que definiria para sempre os Tool como uma banda. A segunda é o produtor David Bottrill, um mestre em colocar as suas misturas em camadas com uma incrível profundidade de som que empurra as fronteiras sónicas para uma nova direcção.
Na altura de “Ænima”, Bottrill tinha acabado de sair de uma aventura com King Crimson, tendo produzido “Vrooom” e “Thrak”. O último é particularmente reconhecido pela sua produção única e inspirada, cuja mistura divide o grupo em dois trios ao longo do disco. Sob a asa de Bottrill, os Tool evoluíram do som pós-grunge para algo mais singular e definitivo. As pistas sempre existiram. “Undertow não é um álbum trivial”. Mas era necessário delapidar mais o mármore. David Bottrill redimensionou a banda e deu-lhe uma direcção mais confiante e perigosa.
Animus & Anima
Os temas evolutivos são evidentes desde o início. “Ænima” abre com o que seria o seu primeiro single, “Stinkfist”, uma audaciosa ode aos perigos inerentes a ultrapassar os limites da estimulação usando o fisting anal como metáfora. Estranhamente, a metáfora estranhamente pungente desta prática sexual tão extrema está longe de ser o aspecto mais surpreendente da canção em si. O que é, em retrospectiva, mais chocante em “Stinkfist” é a sua aparente presciência.
A Internet estava apenas no início da massificação em 1996, com as redes sociais e os telemóveis inteligentes a serem apenas um vislumbre nos olhos de alguns. No entanto, a malha pressagia o que se tornaria um tema recorrente nas letras de Maynard James Keenan. A “superestimulação constante” mencionada na música poderia significar qualquer coisa, mas ao longo das décadas vimo-lo revisitar essa ideia nos Tool e nos seus outros projectos musicais.
Leiam as teorias de Jung sobre animus e anima, para irem além da televisão e os media, aquilo a que nos deixamos expor mais facilmente. As discussões sobre os temas da psicologia junguiana também falam de um aspecto cultural do subconsciente – que nos diz a quem ouvir, em que confiar, seguir o rebanho – que tem crescido de geração em geração na nossa espécie – literalmente criado em nós, não sendo diferente do medo inato do escuro com que, aparentemente, nascemos.
Por isso, vemos temas de mudança e evolução ao longo do álbum, usados em vários contextos para vários significados, mas todos eles ruminam a ideia de avançar para ideias, novos entendimentos e novos estados de ser.
Em “H.”: «And as the walls come down and/As I look in your eyes/My fear starts to fade/Recalling all of the times/I have died/And will die/It’s all right/I don’t mind». Em “46 & 2”: «I wanna feel the change consume me/Feel the outside turning in/I wanna feel the metamorphosis and/Cleansing I’ve suported in/my shadow». Ambas as canções tocam essas ideias junguianas que também se encontram claramente expostas no título do disco, sugerindo a teoria de Jung sobre a anima e o animus que transcendem a personalidade.
“Anima” é a palavra latina para alma, e há quem afirme que “Ænima” é uma combinação dessa palavra com “enema”, sugerindo uma limpeza da merda da alma – uma ideia reforçada pela faixa “Ænema” que, uma vez mais assenta em temas junguianos, que defendem a exploração do lado mais sombrio do inconsciente (que Carl Jung chamou “a sombra”) para fins de cura psíquica. O enigma dos Tool presta-se a múltiplas interpretações, mas é difícil ignorar o uso constante da mudança e da evolução como metáfora em “Ænima”.
Há outros motivos recorrentes no álbum. A água, por exemplo, é um símbolo poderoso tanto de destruição como de renovação, aparecendo em faixas como “Ænema” e “Third Eye”. O conceito do terceiro olho em si é outro motivo que surge amiúde (não só neste disco como na discografia da banda), representando uma consciência elevada e o despertar espiritual. Outro motivo notável é o uso do paradoxo e da contradição, reflectindo a complexidade das emoções humanas e a dualidade da existência. Isto é evidente na justaposição de agressão e vulnerabilidade, caos e ordem, que permeia as letras e a composição musical do álbum.
Na sua essência, Aenima é uma exploração profunda da experiência humana, desafiando os ouvintes a confrontar as suas próprias realidades e a considerar as implicações mais amplas das suas acções. É um álbum que ressoa com aqueles que se atrevem a mergulhar abaixo da superfície, oferecendo um espelho para as verdades pessoais e sociais.
Originalidade
Para além da metáfora, no entanto, há a evolução muito real ouvida na música e na composição do álbum que o torna um trabalho tão poderoso e duradouro. Embora a banda não se mova para fora do amplo cânone do metal, “Ænima” é notável por criar hipóteses e equações que iniciaram a evolução dos Tool de metaleiros pós-grunge para génios do prog. Embora existam indícios dessa sua eventual direcção em “Opiate” e “Undertow”, em “Ænima” o grupo mostra os seus talentos pela primeira vez, criando composições incrivelmente complexas e em camadas que exigem atenção e estudo mais de um quarto de século após o seu lançamento.
Músicas como “Eulogy” e “Pushit” estabelecem a inclinação do Tool para a estrutura quase tântrica de construção e liberação que eventualmente definiria a banda. Com compassos bizarros e uma ferocidade de ataque, os Tool (juntamente com Bottrill) criaram um disco verdadeiramente intemporal que ainda, de alguma forma, está firmemente enraizado no meio do rock do final dos anos 90. Mas, ao contrário de tantas bandas dessa altura, os Tool conseguem sintetizar os sons característicos da época (distorção, ritmos fortes, angústia) em algo cada vez mais raro no mundo da música: originalidade.
Não há como negar que os Tool têm uma sensação distinta e uma impressão digital sónica que é inegavelmente sua. Grande parte do seu sucesso contínuo deriva não só do triunfo meteórico de “Ænima” como álbum e obra de arte, mas também dos seus esforços contínuos para se manterem fiéis aos temas que tão exaustivamente exploraram nesse álbum. A evolução deve ser uma constante. Não há tempo para não mudar. Os Tool, tal como os artistas, filósofos, atletas e cientistas exaltados nas notas de rodapé dos seus trabalhos seminais, esforçam-se constantemente por ultrapassar limites e fronteiras.
Artigo apoiado no original de James Roberts, na Glide.

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