Tool

Tool, Undertow

“Undertow”, o primeiro álbum completo dos Tool, é um desses rituais de escuta e sobrevivência. Mais do que um artefacto sonoro, é um ensaio de dor e transcendência. Um manifesto estético onde o grotesco e o espiritual se intersectam.

Quando os Tool lançaram “Undertow” em 1993, o mundo ainda não sabia exactamente o que esperar daquela entidade obscura vinda de Los Angeles. O grunge imperava, o metal tradicional parecia em declínio e o nu-metal ainda estava por eclodir. Neste interregno, surgiu uma banda que parecia falar outra linguagem — uma linguagem feita de raiva contida, espiritualidade deformada e uma estética visual profundamente desconfortável.

“Undertow” foi o primeiro álbum completo dos Tool e, mais do que um disco de estreia, revelou-se um manifesto estético e sonoro que redefiniu os contornos do metal alternativo. Num momento em que o metal parecia dividido entre os puristas e os provocadores, “Undertow” surgiu como um terceiro caminho: o da introspecção brutal.

A sua influência estende-se também ao modo como o mainstream passou, uma vez mais, a conceber o álbum como obra total, e não apenas como colecção de faixas. Três décadas depois, é tempo de regressar a esse abismo primitivo e perguntar o que se esconde nas correntes subterrâneas da nossa própria escuta?

O Nascimento do Abismo

Os Tool haviam lançado um EP, “Opiate” (1992), que já os posicionava como uma força a ter em conta, mas foi com “Undertow” que a verdadeira mitologia começou a erguer-se. Maynard James Keenan, Adam Jones, Danny Carey e Paul D’Amour apresentaram um álbum que recusava todos os clichés da época. Ao invés da revolta desleixada do grunge, ou ostentação do hair metal ou das descargas de brutalidade do metal mais extremo, os Tool investiam numa violência emocional meticulosamente controlada.

O som de “Undertow” é denso, visceral e preciso. As guitarras de Adam Jones soam como lâminas rítmicas, os ritmos de Danny Carey são labirínticos e tribais, o baixo de Paul D’Amour traz uma agressividade melódica que dá peso às composições. E sobre tudo isso, paira a voz de Maynard, ora sussurrante, ora explodindo em gritos que não pedem atenção — exigem-na. O álbum, embora menos progressivo do que os registos seguintes dos Tool, já evidenciava estruturas não convencionais: há faixas longas, mudanças abruptas de tempo e uma recusa total da fórmula verso-refrão.

As malhas são exercícios constantes, como mantras, de confissão e purgação. O álbum abre com “Intolerance”, uma espécie de exorcismo pessoal que anuncia o ethos da banda: «You lie, cheat and steal. How can you sleep at night?» A batida é arrastada, os riffs como que em loop, a tensão cresce lentamente até explodir. Não se trata de um single acessível, mas de um convite ao labirinto e aos cantos mais escuros da psique.

“Prison Sex” é talvez a malha mais conhecida de “Undertow” (e também dos Tool), não apenas pela sonoridade, mas também pelo vídeo (banido da MTV) que usava animações em stop motion para ilustrar o abuso infantil de forma simbólica e perturbadora. Keenan falou abertamente sobre os traumas explorados na canção, recusando a vitimização e optando por um confronto cru. «This blood to me is sacred / This blood to me is sacred / My body is a cage».

“Sober”, outro dos grandes momentos do álbum, nasceu antes mesmo de “Opiate” e tornou-se um dos hinos da banda. É também o tema que levou muitos à porta dos Tool — para depois perceberem que aquela porta dava entrada a uma catedral tortuosa. A letra aborda os vícios e a falsa liberdade que eles proporcionam. Keenan implora: «Why can’t we not be sober? / I just want to start this over».

Outras malhas, como “Bottom” (com a participação de Henry Rollins), “Crawl Away” e “4°” expandem essa tensão entre brutalidade emocional e procura espiritual. “Bottom” alterna entre um monólogo falado e explosões de fúria, reflectindo a oscilação interna entre repressão e catarse. Já “4°” lida com temas de limiar — emocionais, físicos, espirituais — sugerindo a passagem por um portal interno rumo ao autoconhecimento.

A Estética do Grotesco

Parte do impacto de “Undertow” deve-se também ao seu imaginário visual. Adam Jones, guitarrista dos Tool e antigo técnico de efeitos especiais da indústria cinematográfica (trabalhou em filmes como “Jurassic Park” e “Terminator 2”), concebeu uma iconografia que recorre ao grotesco, ao corporal, ao repulsivo. A capa do álbum, com a imagem de um corpo encoberto por costelas vermelhas translúcidas, é desconfortável por definição. No interior do encarte, fotografias ainda mais perturbadoras — como o controverso “cenouras penetrantes” — complementavam o mergulho estético proposto pela banda.

Mais do que mera provocação, havia aqui um discurso: o corpo como templo e prisão, a carne como símbolo do sofrimento, o desconforto como via para a transcendência. A arte dos Tool sempre foi ritualística, e em “Undertow” esse ritual assumia já contornos quase xamânicos. A recusa da beleza convencional, o foco na matéria bruta e no grotesco remetem também à tradição surrealista — Jones citava artistas como H. R. Giger e Francis Bacon como influências visuais.

A Simbologia Submersa

“Undertow”, como o próprio nome indica, fala de correntes subterrâneas, de forças invisíveis que arrastam. É um álbum sobre o inconsciente, sobre o que está sob a superfície. A água aparece como símbolo de purificação, mas também de afogamento. As letras, cheias de imagens religiosas, corporais e psicológicas, podem ser lidas como metáforas para a condição humana: somos criaturas de desejo, presas em ciclos de culpa e redenção. Temas recorrentes nos Tool.

Há também um claro interesse pela alquimia — a ideia de que o sofrimento pode ser transmutado em ouro espiritual. Em “Flood”, por exemplo, a destruição provocada pelas águas serve de metáfora para a necessidade de limpar tudo para recomeçar. É uma visão quase bíblica da catástrofe como purgação.

As referências simbólicas e espirituais seriam aprofundadas nos álbuns seguintes, maturadas logo em “Ænima”, em conjunto com as letras instigadoras de Maynard James Keenan, mas já aqui se nota o desejo de transformar a música em ritual e convidar-nos a entrar num mundo de escuridão e complexidade cuja revelação dos significados é, simultaneamente, uma experiência desafiadora e gratificante.

Contra a Corrente

A produção do disco, assinada por Sylvia Massy e os próprios Tool, é deliberadamente crua. Nada soa polido, nada é excessivamente embelezado. A ideia era capturar a intensidade das performances sem recorrer a truques de estúdio. Foi gravado em parte nos Sound City Studios, templo de inúmeras bandas dos anos 1990, e a banda recusou a interferência da editora em vários momentos, insistindo em manter o controlo criativo.

O som do disco tem um certo grão, uma aspereza que o aproxima mais do pós-punk e do rock industrial do que da escola tradicional do metal. É um som que respira, que falha, que pulsa. Sylvia Massy, cuja carreira inclui trabalhos com Prince, Red Hot Chili Peppers e Johnny Cash, soube respeitar a estranheza da banda e ofereceu um espaço sonoro onde o desconforto se tornava arte.

“Undertow” é frequentemente apontado como um dos discos que pavimentaram o caminho para o surgimento do metal alternativo, do art-metal, do post-metal. Bandas como Deftones, Korn, A Perfect Circle (com o próprio Maynard), Mastodon e até grupos fora do metal, como Radiohead ou Nine Inch Nails, reconheceram a importância dos Tool na criação de um novo léxico musical.

O álbum vendeu mais de três milhões de cópias só nos EUA e tornou-se disco de platina múltipla — um feito notável para uma banda que rejeitava qualquer concessão à rádio ou à MTV. O seu sucesso provou que havia público para música difícil, densa, cerebral e emocionalmente incómoda.

Epílogo: O Silêncio Como Ruído

No final do disco, após a última canção listada, esconde-se uma faixa oculta intitulada “Disgustipated”. Uma colagem sonora de sons industriais, gritos, um sermão sobre a morte dos coelhos e o colapso da sociedade. É um encerramento tão perturbador quanto enigmático — e funciona como anti-epílogo: ao invés de oferecer resolução, reforça o desconforto. “Undertow” não quer ser confortável. Quer ser verdadeiro. E, para os Tool, a verdade nunca é simples, nunca é limpa, nunca é silenciosa.

O que se ouve neste álbum é o som da alma a rasgar-se por dentro, o ruído de quem mergulha nas profundezas à procura de algo — não para exibir, mas para compreender. Três décadas depois, “Undertow” continua a ser um portal. Um túnel escuro escavado no inconsciente colectivo, onde cada malha é uma oferenda à dor, à dúvida e à transformação. E é nesse limiar entre destruição e iluminação que os Tool encontraram — e continuam a encontrar — o seu verdadeiro poder.

“Undertow” é, no fundo, um álbum de iniciação: escutá-lo é aceitar o desafio de confrontar-se com aquilo que vive nas sombras.

Um pensamento sobre “Tool, Undertow

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