Maynard James Keenan

Maynard James Keenan e a Separação entre Igreja e Estado

Num tempo em que vemos o fanatismo religioso e ideológico escalar socialmente, Maynard James Keenan recorda o iluminismo. O vocalista dos Tool defende a laicidade do Estado e alerta para o perigo dos fundamentalismos políticos-religiosos, num discurso que ecoa Jefferson e Madison e ressoa com décadas da sua própria obra.

Numa recente entrevista ao AZ Central (abre link), Maynard James Keenan voltou a demonstrar que, mesmo fora do território das canções, continua a pensar com a mesma tensão crítica que atravessa décadas de obra dos Tool, de A Perfect Circle e de Puscifer. O tema de partida até era a intelligência artificial e os seus limites, mas a conversa depressa derivou para algo que o músico considera mais alarmante: o crescimento de uma cultura política moldada por fundamentalismos religiosos, por fervor identitário e por uma lógica de cruzada moral que, aos seus olhos, ameaça a própria mecânica da democracia.

Maynard James Keenan não apontou nomes, nem partidos, mas foi directo na formulação do problema. Ao referir-se ao momento actual, Keenan afirmou que é preciso chegar a um ponto de equilíbrio e que a situação se torna insustentável «quando tens fundamentalistas religiosos a mandar em tudo»; logo depois, acrescentou que esses «fanáticos» são assustadores e que semelhantes formas de poder não se sustentam indefinidamente.

O que torna estas declarações particularmente relevantes não é apenas o facto de surgirem num clima político norte-americano saturado de messianismo partidário e de retórica pseudo-salvífica, mas a forma como Maynard James Keenan enquadra o problema. Ele não constrói um desabafo partidário, nem se limita a satirizar um campo ideológico específico; identifica antes um padrão histórico e psicológico. A sua preocupação central não é apenas o político providencial, o caudilho momentâneo ou a figura populista de turno.

O problema, para Maynard James Keenan, são os sistemas crenças absolutistas que transformam a política num prolongamento da fé, substituindo a deliberação pelo zelo, a institucionalidade pelo fervor e o governo pela liturgia. Quando ele observa que este tipo de regime não dura, mas dura tempo suficiente para produzir «danos geracionais», está a formular um argumento mais histórico do que panfletário: os fundamentalismos acabam por ruir, mas antes disso degradam as instituições, deformam a linguagem pública e deixam marcas que sobrevivem muito para além do seu colapso. Essa ideia — simultaneamente pessimista e lúcida — culmina numa conclusão inquietante: «Vai ficar piorar antes de melhorar».

É precisamente nessa passagem que a reflexão de Maynard James Keenan ganha densidade. A frase original «it’s gonna get darker before it gets better» não funciona como pose apocalíptica nem como niilismo decorativo; é antes uma leitura sombria, mas realista, da história política. Em termos simples, Keenan sugere que a correcção de um desvio civilizacional não ocorre antes do agravamento da crise. Primeiro vem o endurecimento, depois a saturação, e só então a eventual ruptura.

Há aqui uma desconfiança profunda em relação a qualquer optimismo fácil, e essa desconfiança, aliás, está longe de ser nova na sua obra. Basta recuar a composições como “Right in Two”, “Vicarious” ou “Ænema” (abre link) para perceber que Maynard James Keenan sempre se mostrou céptico perante o tribalismo, a estupidez colectiva, a excitação de massa e a tendência humana para procurar sentido na submissão a narrativas redentoras. As declarações recentes não surgem, por isso, como um desvio do seu pensamento; são a sua continuação em linguagem política mais explícita.

Mas a parte mais sólida da sua intervenção aparece quando ele enuncia, de modo cristalino, a necessidade da separação entre Igreja e Estado. Maynard James Keenan diz que acredita absolutamente nessa separação porque, no que toca ao Estado, estamos perante um mecanismo: um carro, um motor, uma engrenagem. A imagem é deliberadamente anti-romântica. O governo, para ele, não deve ser um corpo sentimental, nem uma entidade devocional, nem um espelho das crenças privadas de uma maioria circunstancial; deve ser uma máquina funcional. A fé pode existir, e pode existir legitimamente, mas não deve decidir “como o carro funciona”.

Noutra formulação da mesma ideia, Maynard James Keenan insiste que o governo não deve ser um «ser emocional»; deve ser «um mecanismo», «uma engrenagem», sem fé envolvida. Esta distinção é decisiva, porque não configura um ataque à religião enquanto experiência íntima, simbólica ou espiritual; é, isso sim, uma defesa da laicidade do Estado enquanto condição mínima de funcionamento racional da vida comum.

De Jefferson a Madison

É aqui que a leitura de Maynard James Keenan toca, ainda que sem aparato académico, numa tradição fundamental do pensamento político norte-americano. Quando Thomas Jefferson escreveu, em 1802, à Associação Baptista de Danbury, formulou a expressão que se tornaria canónica: uma «wall of separation between Church & State».

A frase não era mero ornamento retórico; condensava a convicção de que o poder civil devia ser contido no que respeita à religião, precisamente para preservar a liberdade de consciência e impedir que o aparelho do Estado se tornasse instrumento de confissão, tutela espiritual ou privilégio sectário. A Library of Congress (abre link) recorda que essa carta cristalizou uma visão segundo a qual o governo federal não devia legislar no sentido de estabelecer ou favorecer religião, nem governar a consciência.

Antes ainda de Jefferson, James Madison já havia articulado princípios semelhantes no célebre Memorial and Remonstrance Against Religious Assessments de 1785. Nesse texto, Madison combateu a ideia de financiamento público da religião e tratou a mistura entre autoridade civil e poder religioso como abuso perigoso. O ponto essencial do seu raciocínio era simples e duríssimo: sempre que o Estado começa a escolher, financiar ou proteger uma ortodoxia, a liberdade de consciência fica diminuída e o próprio governo corrompe a sua função.

O National Constitution Center (abre link) e outros repositórios históricos sublinham que o documento de Madison foi uma peça central da defesa da liberdade religiosa e da não ingerência recíproca entre Igreja e poder civil. O que Maynard James Keenan faz agora, em registo de entrevista e com uma metáfora automóvel, é reactivar essa mesma intuição republicana: a república degrada-se quando passa de máquina legal a organismo confessional.

A lucidez da sua posição está também no facto de não depender de insulto, nem de histeria, nem de um moralismo de ocasião. Maynard James Keenan não dramatiza a sua discordância como guerra cultural de redes sociais; descreve antes uma incompatibilidade estrutural entre governo funcional e fé transformada em critério de Estado.

Num tempo em que grande parte do discurso público se alimenta de excitação, ressentimento e misticismo político, o vocalista dos Tool insiste num princípio antigo, quase iluminista, mas ainda escandalosamente actual: a fé pertence à esfera pessoal; a república pertence ao domínio das regras, das instituições e dos mecanismos. A História norte-americana, de Madison a Jefferson, oferece-lhe precedentes robustos. A sua própria obra oferece-lhe contexto. E o presente, infelizmente, oferece-lhe abundante confirmação.

Um pensamento sobre “Maynard James Keenan e a Separação entre Igreja e Estado

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