Led Zeppelin

Led Zeppelin no Royal Albert Hall (1970): O Rig de Um Milhão de Dólares

Uma análise ao equipamento usado pelos Led Zeppelin no Royal Albert Hall em 1970 e ao seu valor actual no mercado. Da Les Paul de Jimmy Page ao Hammond de John Paul Jones,da Ludwig aos amps, quanto custa hoje reconstruir aquele som?

O concerto dos Led Zeppelin no Royal Albert Hall, a 9 de Janeiro de 1970, não é apenas mais um registo ao vivo de uma banda em ascensão — é um ponto de inflexão. Gravado poucos meses após a edição de Led Zeppelin II (abre review) e imediatamente antes da viragem estética de Led Zeppelin III (abre review), capta um grupo num momento raro: suficientemente consolidado para dominar o palco, mas ainda em mutação, sem o peso da própria mitologia a ditar cada decisão.

Há uma tensão interessante nesse período: os britânicos ainda não eram a instituição monolítica em que se tornariam, mas já tinham ultrapassado a fase de promessa. . Por um lado, os Led Zeppelin já eram uma máquina de concerto altamente eficaz, com uma identidade sonora clara e agressiva. Por outro, ainda não estavam presos a uma fórmula definitiva.

O concerto do Royal Albert Hall documenta exactamente isso — versões extensas, dinâmicas imprevisíveis, uma abordagem que oscila entre o blues electrificado, o hard rock emergente e algo mais difuso, que viria a ganhar forma nos anos seguintes. O que se vê — e sobretudo o que se ouve — naquele palco londrino é um grupo em expansão, a testar limites, a alongar temas, a endurecer uma linguagem que ainda não estava completamente fixada.

O alinhamento dos Led Zeppelin reflecte exactamente isso. “Dazed and Confused” ultrapassa largamente a versão de estúdio, “How Many More Times” transforma-se numa suite aberta, e até temas mais directos ganham uma dimensão diferente ao vivo.

Não há ainda o peso acústico de III, nem a arquitectura mais elaborada de Led Zeppelin IV. Há volume, espaço e uma certa crueza controlada. É precisamente isso que faz com que o concerto continue a circular obsessivamente entre músicos, técnicos e curiosos de equipamento. Foi nesse território que a Reverb entrou com um vídeo recente (abre link), desses que cruzam curiosidade histórica com análise de gear, propondo uma pergunta directa: quanto custaria hoje replicar o rig usado pelos Led Zeppelin nesse concerto?

Zoso

Em 1970, Page já utilizava a Gibson Les Paul Standard de 1959 como instrumento principal (abre link). Não qualquer Les Paul, mas um modelo específico que, décadas mais tarde, se tornaria um dos mais valorizados do mercado vintage. No entanto, ao falar de replicação, o ponto de referência não é a guitarra original de Page, mas sim um exemplar equivalente. Aqui, o intervalo é amplo: uma Les Paul Burst autêntica pode ultrapassar facilmente os 200 mil dólares, enquanto uma reedição Custom Shop de alto nível pode situar-se entre os 5 mil e os 15 mil. Entre estes extremos existe uma zona intermédia — instrumentos vintage sem proveniência histórica directa — que podem oscilar entre 20 mil e 80 mil dólares.

Nesta noite, Page usou outra guitarra muito especial. O instrumento é um modelo Gibson Black Beauty de 1960, com o Bigsby B7 e ganhou o seu lugar nos mitos do rock n’ roll também por acontecimentos infelizes. Já lhe dedicámos um artigo na ROMA INVERSA. Os valores do exemplo acima devem ser aplicados.

A Telecaster “Dragon”, usada por Page em fases anteriores e ocasionalmente neste período dos Led Zeppelin, introduz uma segunda variável. Um modelo vintage dos anos 50 ou 60 pode atingir valores elevados, mas a sua função no rig é complementar. Uma reprodução fiel, mesmo de gama alta, permanece numa ordem de grandeza muito inferior à da Les Paul.

Os Marshall Plexi e Super Bass do final dos anos 60 são hoje amplificadores de referência no mercado vintage, com preços típicos entre 5 mil e 15 mil dólares por unidade. Os Hiwatt, que começam a surgir como alternativa nesta fase dos Led Zeppelin, situam-se num intervalo semelhante. Há boa documentação de que entre Julho de 1969 e Novembro de 1971 Page usou Hiwatt de forma consistente, e a referência específica ao Royal Albert Hall assinala esses amps como parte visível do backline.

A questão aqui não é apenas o preço unitário, mas a quantidade: rigs de palco implicavam frequentemente múltiplos cabeços e colunas, tanto por redundância como por necessidade de volume. Somando tudo, o rig de Page pode variar significativamente dependendo das escolhas. Uma abordagem contida, com reedições e um número limitado de amplificadores, pode ficar abaixo dos 100 mil dólares. Uma configuração mais ambiciosa, com equipamento vintage autêntico e múltiplos stacks, aproxima-se facilmente dos 200 mil ou 300 mil dólares.

Bonzo

John Bonham surge com um setup mais estável em termos de mercado. O seu kit Ludwig, com o característico bombo de grandes dimensões, é altamente reconhecível, mas não atinge os valores extremos das guitarras vintage. Um conjunto completo da época, em boas condições, pode variar entre 20 mil e 50 mil dólares. Pratos Paiste vintage acrescentam mais alguns milhares, e eventuais elementos adicionais completam o conjunto. No total, é razoável situar o rig de Bonham entre 30 mil e 70 mil dólares.

A disparidade em relação a Page não reflecte a importância musical de Bonham nos Led Zeppelin, mas sim a forma como o mercado de instrumentos evoluiu, privilegiando claramente guitarras eléctricas como objectos de colecção.

Jonesy

John Paul Jones ocupa uma posição intermédia em tudo nos Led Zeppelin. Também neste campo. O Fender Jazz Bass dos anos 60 é um instrumento valorizado, com preços que podem ir dos 20 mil aos 60 mil dólares. A amplificação — frequentemente Marshall ou Acoustic — acrescenta mais alguns milhares. Tal como no caso de Page, o custo final depende da escolha entre vintage autêntico e alternativas modernas, mas permanece dentro de um intervalo relativamente controlado: 25 mil a 70 mil dólares.

Mas, no Royal Albert Hall, há um momento em que Jones passa para Hammond organ, o que implica a inclusão de um órgão e respectivo sistema de amplificação. Um Hammond vintage (B3 ou equivalente) com Leslie pode facilmente acrescentar 10 mil a 30 mil dólares ao conjunto, dependendo do estado e configuração.

A peça da Reverb diz explicitamente que a conta foi feita com preços de catálogo de 1970 e valores actuais do mercado usado segundo o Price Guide deles, ou seja, a lógica é de replicação de rig, não de “relíquias originais do músico”. Isto altera o peso do rig de Jones, que passa a situar-se de forma mais realista entre 40 mil e 100 mil dólares, dependendo de quão fiel se pretende a replicação.

Percy

Robert Plant, como seria de esperar, não altera substancialmente a equação. O equipamento vocal da época — microfones e sistemas de som — tem um peso financeiro reduzido no conjunto. Mesmo considerando material vintage, dificilmente ultrapassa alguns milhares de dólares.

O melhor rasto publicamente indexado aponta para o uso de Shure Unidyne IV 548SD em performances ao vivo no início dos anos 70, e há documentação de que, em 1973, já usava Shure Unisphere I, antecessor do SM58. Para o concerto dos Led Zeppelin no Royal Albert Hall, a formulação honesta é: muito provavelmente um Shure dinâmico da família Unidyne/Unisphere da época, mas deve reforçar-se isto como probabilidade técnica, não como certeza documental específica para o Royal Albert Hall.

A Pergunta de Um Milhão

Somando todos os elementos dos Led Zeppelin obtêm-se três cenários plausíveis. Num cenário mais contido, com reedições modernas e um número reduzido de amplificadores, o total pode situar-se entre 150 mil e 300 mil dólares. Num cenário intermédio, com mistura de vintage autêntico e equipamento contemporâneo de topo, a conta sobe para 300 mil a 600 mil dólares. Num cenário máximo, com múltiplos amplificadores vintage, instrumentos mais raros e uma replicação mais próxima da realidade de palco, o valor aproxima-se do milhão de dólares referido pela Reverb.

É neste último cenário que o número ganha sentido. Não como valor obrigatório, mas como limite superior plausível dentro da lógica proposta pelo vídeo. O exercício, tal como apresentado, não pretende fixar um preço definitivo, mas estabelecer uma ordem de grandeza. E, nesse sentido, cumpre o objectivo: traduz um concerto específico, num momento específico da história da banda, em termos que fazem sentido no mercado actual de instrumentos.

O Royal Albert Hall continua a ser um registo fundamental para perceber os Led Zeppelin em fase de expansão. O vídeo da Reverb acrescenta uma camada diferente a essa leitura, deslocando a atenção para o equipamento e para o seu valor contemporâneo. As duas coisas não são independentes — cruzam-se precisamente neste tipo de análise. O resultado é uma pergunta que permanece relevante: não quanto custava em 1970, mas quanto custa hoje aproximar-se disso. E a resposta, com todas as variáveis assumidas, mantém-se dentro de um intervalo claro — com o milhão de dólares como ponto máximo plausível, não como regra.

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