“Fear Inoculum” foi o culminar do percurso discográfico dos Tool, onde a banda congregou a sua cerebral geometria xamânica (sob a simbologia do número sete) com a maturação das capacidades humanas dos músicos.
“10.000 Days” foi editado em Abril de 2006. Chegou a especular-se que o próximo disco só seria editado quando se cumprissem esses dez mil dias que fazem referência ao período orbital do planeta Saturno. Felizmente não foram necessários 28 anos de espera. Cerca de 5000 dias após o quarto álbum dos Tool chegou o quinto. “Fear Inoculum” foi editado a 30 de Agosto de 2019.
Pelo menos desde 2013 que a banda ou os seus membros, singularmente, apontavam a iminência da chegada do tão aguardado disco. Danny Carey e Maynard James Keenan referiram-se de modo contrastante sobre a possibilidade de estrear o álbum nesse ano. Pouco tempo depois, o baterista afirmaria que 2014 era uma data mais realista. O que raio se passou, então, para atrasar tanto o álbum?
DOMVS IVSTITIAE
Numa entrevista com a Rolling Stone já no ano de 2015, Keenan e o guitarrista Adam Jones revelaram que um processo jurídico era o grande responsável pelos atrasos, tal como crescentes compromissos familiares de cada um dos músicos. A conceituada revista de música informava que um amigo de Jones afirmava ser ele o criador do artwork da banda e reclamava o devido crédito. Essas complicações legais começaram em 2007. Mas embora isso deva ser levado em conta, o problema real não foi esse.
Acontece que a seguradora que os Tool tinham contratado para os defender no processo, acabou por processar a banda por “pormenores técnicos” relativos ao caso. A banda, por sua vez, contra-processou a empresa por essas alegações e, basicamente, rebentou quase uma década no meio desse imbróglio legal.
«[O processo] ficou muito feio e vergonhoso», disse, na altura, o guitarrista Adam Jones sobre o caso à Yahoo! Music. «Esta é uma verdadeira simplificação da questão – mas imagina pagar o seguro automóvel, ter um acidente, e esperar que a companhia de seguros te cubra o acidente e dizem-te, ‘Bem, diriges um SUV e nós não consideramos que seja um automóvel, por isso não vamos cobrir o acidente. ‘ E, de seguida, processam-te, porque tu os queres para que te cubram. É uma loucura». O caso foi, finalmente, julgado em Janeiro de 2015, os Tool venceram o processo e retomaram o trabalho de composição, após sete anos de litigação.
PERFECCIONISMO
As coisas pareciam finalmente desimpedidas, mas nessa altura Maynard James Keenan afirmava que as hesitações dos seus colegas de banda atrasavam a conclusão do disco: «Gosto de editar discos e escrever as coisas um pouco mais rapidamente que os outros rapazes. O processo deles é bastante analítico», afirmava o vocalista. Já depois de ter feito afirmações similares ainda em 2014. Mas se isto podia ser encarado como um rant por muitos, a verdade é que Adam Jones confirmou essa ideia.
Em Setembro de 2016, o guitarrista dos Tool, durante um meet-and-greet antes de um concerto em Salt Lake City, afirmou estar a trabalhar três dias por semana, junto do baterista Danny Carey e do baixista Justin Chancellor, num novo álbum da banda. Jones, de acordo com relatos desse encontro, confessou que os três músicos tinham criado material suficiente para dois álbuns de originais. O problema é que os músicos consideravam que apenas 5 canções se aproximavam do «padrão de exigência de um álbum de Tool» e que, portanto ainda não tinham enviado os temas ao vocalista, para que este escrevesse as letras.
Só no ano seguinte surgiram relatos de que Keenan, que tem uma reconhecida aversão a trabalhar com os restantes músicos nas exigentes sessões de pré-produção, já estava em estúdio a gravar vozes. No dia 16 de Fevereiro, o site oficial deu conta de que a banda se mudara para um novo espaço de trabalho, citando como fonte o baterista Danny Carey, e que Maynard Keenan se encontrava aí a trabalhar as vozes das novas canções.
No final desse ano de 2017, Tom Morello pronunciou-se sobre essas sessões de pré-produção. O guitarrista de Rage Against The Machine, Audioslave e Prophets Of Rage, publicou um post no seu Instagram onde dizia ter ouvido o novo álbum dos Tool: «Só [ouvi] os instrumentais, mas soa épico, majestoso, sinfónico, brutal, bonito, tribal, misterioso, profundo, sensual e muito à Tool. Mesmo bom. Muito ansioso para ouvir o álbum quando estiver finalizado».
ESTÚDIO
A progressão de eventos começava a deixar de ser meramente especulativa e a passar de oficiosa a oficial. Em Março de 2018, as redes sociais comunicavam oficialmente que a banda iniciara, finalmente, as sessões de estúdio para gravar o sucessor de “10.000 Days”. Recolhemos, na altura para a publicação Arte Sonora, o máximo de informação possível sobre o equipamento que os músicos estavam a usar e sobre o ambiente de produção das sessões do quinto álbum dos Tool.
Foi ainda confirmado algo que era esperado, que a engenharia sonora do álbum estava sob a alçada de Joe Barresi, que teve a mesma responsabilidade no álbum anterior. Esta foi a primeira vez que os Tool repetiram o engenheiro de som. O estúdio onde a banda começou a trabalhar não foi indicado, embora pela foto partilhada por Carey pareça ser o estúdio JHOC, o estúdio privado de Barresi. Aí, o engenheiro tem unidades como uma consola SSL, conjugada com módulos Neve e API. O som está a ser gravado em fita de 2”!
Na sua discografia, a banda nunca trabalhou num único estúdio. “Undertow” (1993), o primeiro álbum foi, neste aspecto, o que teve a produção mais modesta. Gravado nos lendários Sound City, em Van Nuys, passou ainda pelos Grandmaster Recorders, em Hollywood. “Fear Inoculum” foi trabalhado também dentro das paredes dos Henson Recording Studios (os antigos A&M Studios) e nos über clássicos United Western Recorders.

Danny Carey partilhou no seu site oficial uma fotografia com o setup que usou na gravação do álbum. No conjunto, montado pelo técnico Joe Paul, destacam-se os timbalões Roto e uma unidade Korg WaveDrum. E, na mesma altura, no Instagram de Adam Jones podíamos ver um módulo de bateria que Carey explorou e que acabou por ficar registado em “Fear Inoculum”, depois do baterista o ter experimentado na NAMM’2018.
Na foto partilhada pelo baterista também se destacava a sua tarola de assinatura. A primeira tarola Sonor da série Signature, foi apresentada em 2009. O acabamento é tão simples como deslumbrante. Além de ser bonita, é uma das melhores tarolas dessa era de mercado.
Cascos de 1 milímetro de bronze e Power Hoops de 2.3 milímetros permitem um som aberto. As medidas são 8×14”. Tão versátil como o baterista dos Tool, responde com definição exemplar a várias afinações, numa afinação mais grave estarão no estranho mundo sonoro da banda! Além do kit Sonor, Danny Carey também terá usado uma Ludwig cromada vintage, a primeira bateria de sempre do músico.

Na época, Adam Jones (o mais entusiasta a partilhar detalhes das sessões de estúdio) também revelou o rig de guitarra com que tocou as guias para a bateria. Em destaque estava, naturalmente, o cabeço Blueface Diezel VH4. Um VH4 custa algo com uns três mil e quinhentos paus. Felizmente, em 2021, a Diezel lançou a versão micro, capaz de enorme rugido e nuns mais acessíveis €285. Ainda não surge aqui o Marshall Super Bass 1976, nem a coluna de baixo da Mesa/Boogie, estando o rig composto de forma bastante despida, com um par de 4×12 da Mesa. A guitarra que vemos na imagem é o “bacalhau” principal de Jones, a Les Paul Silverburst (um duplicado), que entretanto foi replicada pelo Gibson.
Nos vídeos e imagens que Adam Jones foi partilhando, foi possível constatar o uso do reconhecido talkbox que cria tanta da atmosfera de “Jambi”, do álbum anterior. Na enorme estação que surgia em torno de si, podia destacar-se ainda o uso de um pedal Providence Chrono Delay DLY-4, de um sintetizador Virus (uma unidade A ou B), como uma unidade stompbox, e o que parece ser um Moog Taurus, para sacar sons de baixo sintetizado.
No meio disto um pedal discreto, mas o guitarrista raramente abdica dele: o fuzz Hydra. Este raro pedal de boutique é da Screeching Owl , uma pequena empresa de Portland, que está actualmente fora de actividade. O técnico de guitarra foi Tim Dawson.
SE7E
O guitarrista Adam Jones durante uma entrevista à Guitar World, nessa altura, revelou que “Fear Inoculum” teria 7 malhas, totalizando 85 minutos de duração. Jones reforçou a importância do número 7 neste álbum: «Quando estávamos a gravar, tirei uma foto a apontar para o número sete e muitos dos riffs que o Justin [Chancellor] e eu criámos estavam em compassos de sete», explica Jones. «Não é algo que penses: ‘Vou escrever um riff em sete!’… Sem ser muito descritivo sobre o conceito, a cena principal é que os riffs e compassos de sete continuaram a surgir. Foi estranho». O guitarrista adensou o misticismo, ao referir: «Então, o Maynard explicou-me todo o seu conceito sobre o número sete. Ficámos… ‘Meu Deus! Isto é muito estranho!’ E então o Alex Grey, basicamente disse-nos o mesmo e tem todo um conceito que será revelado através de vídeo».
O número 7 é frequentemente associado a ideias de conclusão e perfeição. Representa os sete dias da semana, as sete cores do arco-íris e os sete corpos celestes na astrologia antiga. Pode simbolizar uma sensação de plenitude e realização e, assim, ao crescimento espiritual e iluminação. Em muitas tradições espirituais, o número 7 está ligado aos sete chakras, centros de energia do corpo. Pode representar uma jornada de desenvolvimento e despertar espiritual. Dessa forma, a conexão ao xamanismo, ao misticismo e à magia é inevitável. O número 7 é frequentemente associado a práticas místicas e mágicas, surgindo amiúde no folclore, mitologia e textos religiosos para simbolizaro sagrado, o conhecimento oculto e o poder espiritual.



No centro de tudo, eis o heptagrama. O potente símbolo da Kabbalah que representa os sete dias da Criação ou os primeiros sete versos do Alcorão, carregado, nas tradições pagãs, de hierofania mágica, ou simbolizando os sete planetas que os primeiros alquimistas conheciam. Inconscientemente, exercendo um poder de magnetismo sobre o ouvinte. É impossível não associar o número ao tema central do álbum sobre o medo, o controlo e o despertar espiritual, que podem estar reflectidos no simbolismo do número 7 enquanto representação de uma jornada para superar o medo e encontrar a paz interior. Maynard James Keenan referiu em diversas ocasiões que o álbum reflecte sobre a ideia de «aceitar onde estamos agora, reconhecendo de onde viemos e algumas das coisas pelas quais passámos».
Numa viagem ao fundo da nossa consciências tem lugar uma curva de crescimento visualmente exponencial, para potenciar uma descensão interior, através das ilustrações de Alex Grey e das suas visões enteogénicas, visões dos mundos subtis, cuja principal fonte de inspiração são as plantas visionárias do planeta, especialmente a grande medicina da selva amazónica que é a Ayahuasca…
NO FINAL (OU NO INÍCIO)
A 7 de Agosto foi editada title-track, em data que coincidiu com o lançamento do pre-order. “Fear Inoculum”, que também abre o disco, é um malhão que preenche todas as expectativas de uma espera tão alargada e ansiada. Percussões médio-orientais, uso de sintetização e outras novidades sublimes no universo estético dos Tool. Também estão presentes todas as idiossincrasias que a banda construiu na sua discografia, com aqueles riffs cadenciados em compassos estranhos, num crescendo de intensidade dinâmica, de construção harmónica e força melódica.
Do nosso macrocosmos interior, a banda conduz-nos mais fundo, à escuridão órfica, com “Descending”. Uma monolítica pirâmide negra, coroada com o heptagrama, exerce domínio sinestésico, com as cruzadas simbologias anabáticas e catabáticas (a base terrena apontando ao alto e este, por seu lado, expandindo para a terra). O ouvinte mantém um temor reverencial diante deste monumental tema, onde se destaca a interpretação de Danny Carey, na primeira parte da canção, e depois a de Adam Jones, iniciando o seu protagonismo solista com slide, através de arrastos melódicos tão simples como imponentes. No monumental final do tema, surgem poderosos, e todavia discretos, apontamentos de sintetização.
Não será inocente a imagem da pirâmide, se nos recordarmos do “erro matemático” que se pensava conter esta forma arquitectónica, até se descobrir o valor Phi (que corresponde a 1,618), e a sua progressão espiralada, como sucede com a sequência de Fibonacci, com a qual a banda compôs “Lateralus”. Durante séculos, o homem procurou a beleza perfeita, a proporção ideal. Os gregos criaram o rectângulo de ouro, do qual se extraiu uma proporção: o lado maior dividido pelo lado menor. E a partir dessa proporção tudo era construído. Assim foi erigido o Parthenon: os rectângulos que formam a face central e a lateral, a profundidade dividida pelo comprimento. Tudo com proporção 1,618. Descobriu-se depois que os egípcios haviam usado essa valor nas pirâmides, nas quais cada pedra era 1,618 menor do que a pedra de baixo. Anabase, catabase…
E entre Carey e Chancellor, Adam Jones serve como o dínamo dos crescendos de intensidade na maioria dos temas do álbum através de arrastos melódicos e riffs tão simples como imponentes, e são brutais os riffs finais de “Invicible” ou “Pneuma”. E por falar em “Pneuma”, os Tool sempre foram conhecidos pela sua música complexa e experimental, mas aqui mostraram-se adamantes em criar um álbum que fosse ainda mais longe nesse aspecto.
Em “Fear Inoculum”, e particularmente em “Pneuma”, a utilização pela banda de compassos não convencionais, trabalho de guitarra intrincado e paisagens sonoras experimentais cria uma experiência de audição única e envolvente. O uso de polirritmos, compassos estranhos e sincopes deste tema, ao mesmo tempo que é tão melodicamente cativante, cria uma sensação de tensão e antecipação que em destaque na galeria das malhas mais notáveis dos Tool. E o que dizer de “Chocolate Chip Trip” que é, basicamente, um mosntruoso solo de bateria de Danny Carey.
No seu lançamento, falou-se muito em repetição daquilo que a banda já fizera anteriormente. Penso ser mais acertado referir que o que sucede é a sublimação do processo alquímico interrompido após “10.000 Days”. Aqui conseguiram transformar a matéria em ouro. Cada um dos membros da banda sente-se no auge das suas capacidades excepto, estranhamente, James Maynard Keenan que (reflexo da idade?) soa muito mais sóbrio na intensidade da sua interpretação. A fim de meia década, ainda nenhum álbum de hard rock/heavy metal o ultrapassou…

Um pensamento sobre “Tool, Fear Inoculum”