moisturizer

moisturizer, Wet Leg

moisturizer é o frenético, sensual e deliciosamente excêntrico segundo álbum de Wet Leg, onde a energia das digressões, o desejo, o humor e as despedidas mais afiadas se transformam numa das mais divertidas explosões pop da década.

No dia 11 de Julho de 2025, via Domino, os Wet Leg editaram o segundo álbum, moisturizer. É o momento, o segundo disco, que muitas bandas encaram com a obrigação de provar que o primeiro não foi um acidente feliz. Os Wet Leg parecem ter encarado essa possibilidade com o mesmo desdém com que Rhian Teasdale encara praticamente tudo aquilo que a rodeia.

Depois do estrondo do álbum de estreia homónimo, das posições no primeiro lugar dos tops, dos GRAMMYs, dos Brits e de mais de meio bilião de streams, havia uma escolha relativamente simples pela frente: transformar a fórmula num produto pop mais polido ou continuar a seguir a estranha intuição que os tinha levado até ali. Escolheram a segunda hipótese. Felizmente.

moisturizer é divertido, excêntrico e fabuloso, mas essas palavras, isoladamente, podem sugerir uma frivolidade que o disco não tem. Há aqui uma banda que aprendeu a tocar melhor, a compor colectivamente melhor e, sobretudo, a perceber o que é capaz de fazer quando transforma a energia física dos concertos em matéria musical. É um disco mais musculado, mais bonito e mais perverso quando precisa de o ser. Um álbum de canções de amor frenéticas, de amizades duradouras, de desejo sem pudor e de despedidas ditas no momento exacto, interpretado por uma das formações mais excêntricas e irresistíveis do Reino Unido.

E talvez seja precisamente essa a sua maior virtude: moisturizer não tenta ser mais importante do que é. É um disco profundamente divertido, mas feito por músicos que sabem exactamente o que estão a fazer. Os Wet Leg começaram a trabalhar no novo álbum em Março de 2024, quando Rhian Teasdale, Hester Chambers, Ellis Durand, Henry Holmes e Joshua Mobaraki se instalaram em Southwold para escrever.

Viveram juntos, trabalharam durante o dia e viram filmes de terror à noite. Parece uma descrição suficientemente absurda para ser verdadeira e, ao mesmo tempo, explica alguma coisa sobre a personalidade do disco. Pela primeira vez, os cinco membros da banda aparecem creditados na composição. A mudança é importante. Se o primeiro álbum tinha uma forte identidade autoral em torno de Teasdale e Chambers, moisturizer soa muito mais como uma criação colectiva.

A própria Chambers descreveu o processo como uma experiência em que estavam simplesmente a divertir-se e a explorar, enquanto Teasdale sublinhou que a pergunta fundamental era outra: isto vai ser divertido de tocar ao vivo? A resposta ouve-se imediatamente. A experiência de alguns anos de digressões ininterruptas transformou os Wet Leg numa máquina de palco muito mais apertada e feroz. A banda que aqui ouvimos já não é simplesmente aquela que escreveu “Chaise Longue” e descobriu, quase por acidente, que o mundo estava disposto a ouvi-la. É uma banda que percebeu como fazer uma canção atingir o corpo.

“catch these fists”, escolhida como primeiro avanço, é talvez a declaração de princípios mais evidente. O baixo ricocheteia contra os sintetizadores, a bateria avança com uma violência quase punk e Teasdale entrega as palavras com aquela espécie de indiferença venenosa que se tornou uma das suas assinaturas. É dance-punk, sim, mas com os dentes de fora. O vídeo, realizado pela própria banda na Ilha de Wight, prolonga essa estranheza através de uma estética que cruza Ti West, Cameron Crowe e o universo visual de “Wet Dream”.

Mas o mais interessante é perceber que a agressividade de “catch these fists” não é um acidente. moisturizer está cheio de homens que deveriam simplesmente desaparecer da vida destas mulheres. “mangetout” transforma um desses episódios numa canção de desprezo absoluto, enquanto outras composições procuram exactamente o extremo oposto: estar apaixonado até perder completamente o controlo.

E é aí que o disco se torna muito mais interessante do que uma simples colecção de canções mordazes.

Amor, Desejo e outras Doenças

Rhian Teasdale confessou anteriormente sentir-se quase alérgica à ideia de escrever canções de amor. Talvez por isso moisturizer seja tão estimulante quando decide mergulhar precisamente nesse território. Há amor stressado, amor pegajoso, amor obsessivo, amor sexual, amor feliz, amor misterioso. Há uma espécie de romantismo em estado de combustão permanente. Em “pond song”, a declaração “DEEP! IN! LOVE!!!!” é praticamente uma explosão física, uma incapacidade de conter aquilo que se sente.

O desejo percorre o disco sem pedir licença. E aqui está uma das grandes transformações dos Wet Leg: a sensualidade deixou de ser apenas uma consequência da personalidade de Teasdale para se tornar parte da própria arquitectura das canções. A sua voz continua a poder ser seca, sarcástica ou deliberadamente desinteressada, mas há momentos em que parece existir electricidade debaixo de cada sílaba.

É impossível ignorar, aliás, o magnetismo de Teasdale. Não apenas porque a sua presença é naturalmente provocadora, mas porque ela parece ter descoberto como transformar essa fisicalidade em ferramenta artística. Há qualquer coisa simultaneamente cómica, sexual, vulnerável e ameaçadora na forma como canta. E isso torna os Wet Leg difíceis de imitar: poder-se-á copiar o riff, a batida ou o sintetizador, mas é muito mais difícil reproduzir aquela personalidade.

Hester Chambers é igualmente essencial para o equilíbrio. A relação criativa entre ambas impede que o universo de moisturizer se transforme num veículo para uma única personalidade. As guitarras, os sintetizadores, o baixo e a bateria funcionam como uma unidade, criando uma música que parece constantemente prestes a perder o controlo sem nunca o fazer.

É aqui que o álbum demonstra aquilo que a banda ganhou nos palcos. Há uma diferença importante entre moisturizer e o primeiro Wet Leg: este segundo álbum parece ter sido concebido por músicos que já sabem exactamente como querem que uma canção respire diante de uma multidão. A produção voltou a ficar a cargo de Dan Carey, colaborador do primeiro álbum, mas a relação entre produção e performance mudou.

Há mais músculo, mais espaço para a bateria e para o baixo, mais agressividade nas guitarras e uma utilização dos sintetizadores que frequentemente parece querer empurrar as canções para fora das respectivas fronteiras. O resultado é um disco que pede volume. Mesmo quando é bonito, existe qualquer coisa de físico em moisturizer. A música parece estar constantemente a mover-se, a tropeçar, a dançar ou a aproximar-se demasiado de alguém. Não existe aquela sensação de banda indie a tentar parecer descontraída. Os Wet Leg estão descontraídos porque já não precisam de provar nada.

Isso explica também a escolha de continuar a trabalhar com Dan Carey. Depois de o primeiro disco ter sido um fenómeno inesperado, seria fácil procurar uma produção maior, mais cara, mais ostensivamente pop. Em vez disso, os Wet Leg preferiram preservar a estranheza. Foi uma decisão acertada. Porque moisturizer é precisamente o tipo de disco que poderia ter sido estragado por excesso de profissionalismo.

(um ano depois) moisturizer Continua Vivo

O primeiro aniversário de moisturizer chega acompanhado por uma edição deluxe que funciona menos como uma reedição necessária e mais como um documento do que aconteceu entretanto. moisturizer (deluxe) acrescenta remixes de horsegiirL, The Dare e FDC DJs, além de três gravações que anteriormente não estavam disponíveis nas plataformas de streaming: “hi from me”, originalmente editada apenas no CD japonês, uma demo de “don’t speak” gravada por Hester no seu estúdio caseiro e “u and me at home intro/outro”, cuja primeira parte os fãs reconhecerão como a música de entrada da banda em palco.

Há ainda algumas gravações ao vivo realizadas no The Village, em Los Angeles, em 2025. É um detalhe particularmente pertinente, porque a história deste álbum é, afinal, também a história da transformação dos Wet Leg numa banda de palco. Entre os remixes, a versão de “catch these fists” assinada pelos FDC DJs — Carlos O’Connell e Tom Coll, dos Fontaines D.C. — merece atenção. A dupla retira alguma da luminosidade original à canção e empurra-a para um território mais sombrio, sujo e nocturno, reforçando a dimensão venenosa das palavras de Teasdale. É quase como se a canção tivesse encontrado uma segunda vida sem deixar de ser reconhecível.

E o próprio percurso dos Wet Leg durante este primeiro ano ajuda a compreender a dimensão que moisturizer ganhou. O álbum chegou ao primeiro lugar no Reino Unido, recebeu três nomeações para os GRAMMYs e duas para os Brits e foi apresentado em grandes palcos, de Glastonbury à O2 Academy Brixton e ao Greek Theatre de Los Angeles. Em 2026, a banda passou pela Austrália e Nova Zelândia, pelo Japão, pelo Coachella e por uma sucessão de festivais e concertos de grande dimensão.

“Mangetout” chegou ao primeiro lugar da rádio alternativa norte-americana. Os Wet Leg foram convidados para a estreia de SNL UK. Teasdale apareceu em contextos que vão muito para lá da música independente. E, entretanto, a banda continuou a parecer exactamente aquilo que sempre foi: demasiado estranha para se tornar banal.

A Era Wet Leg

Talvez o verdadeiro triunfo de moisturizer seja o álbum não tenta superar o primeiro Wet Leg através da grandiosidade. Supera-o através da confiança. Os Wet Leg aprenderam a tocar juntos, aprenderam a escrever juntos e aprenderam, sobretudo, a gostar daquilo que fazem. O resultado é uma música mais musculada sem perder o absurdo, mais sofisticada sem perder a estupidez deliberada, mais sensual sem perder o sentido de humor.

É um disco de amor, mas também de rejeição. De desejo, mas também de repulsa. De amizade, mas também de independência. E é, acima de tudo, um disco de uma banda que descobriu que pode aumentar o volume sem perder a personalidade. Quando chegaram, os Wet Leg pareciam uma anomalia deliciosa. Depois vieram os prémios, os tops, os milhões de streams e os grandes palcos. Seria perfeitamente possível que tudo isso os tornasse mais previsíveis. Aconteceu exactamente o contrário.

moisturizer é o som de cinco músicos a perceberem que o mundo lhes pertence um pouco mais do que pertencia antes — e a divertirem-se indecentemente com isso. É, por isso, um álbum divertido, excêntrico e fabuloso. E, neste caso, não precisamos de pedir mais nada.

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