O duplo disco “Alpha Noir/Omega White” é, nas palavras de Pedro Paixão, um dos pontos mais altos na carreira dos Moonspell. A dicotomia sonora da banda foi purgada de cada uma das partes, conseguindo uma sonoridade homogénea que corresponde a todas as expectativas criadas por uma banda cuja ambição nunca confundiu consolidação com estagnação.
Uma banda (e particularmente as de heavy metal) podem fazer música para os fãs, mas não pode fazer música com os fãs. Se fôssemos ouvir opiniões sobre a carreira dos Moonspell, cada uma ditaria sentença diferente, porque Moonspell tem essa característica, para o bem e para o mal, de conseguir aglutinar uma quantidade de pessoas completamente diversas, um público muito heterogéneo.
É Pedro Paixão, compositor multi-instrumentista dos Moonspell, que reafirma que os fãs são considerados, mas em última análise não podem determinar as escolhas de uma banda. «Quando compomos tentamos ser puros e honestos nas nossas emoções e na forma de as transmitir. Isso pode ter influência, admito, o fã pode bater-te qualquer coisa que te gere um sentimento que depois dá qualquer coisa, mas directamente isso é impossível. Nos arranjos poderemos pensar que isto agrada mais, aquilo agrada menos, mas na hora de optar… O maior respeito que podemos ter pelos fãs é sermos honestos, e saberem que fazemos as coisas porque nos vão assim mesmo na alma».
De qualquer forma, “Alpha Noir/Omega White” vincou a sensação de que, esteticamente, os Moonspell seguiam de encontro a um som mais abrangente, mais rocker e com maior uniformização de encontro aos standards do género. Paixão garante que aborda «a música sempre com um espírito de inovação, de criar – no sentido de criar algo novo, que seja para sentir algo não antes sentido. Porque, honestamente, para estar a repetir sentimentos… Vou ouvir o original». Dito isto, o músico admite sem rodeios, a uma utilização de clichés, se podemos dizer assim.
«O que acontece é que vamos conhecendo melhor a música e reconhecendo como é que as coisas se fazem, temos outra capacidade de reproduzir determinadas coisas. O uso do chavão e de haver, digamos, um alojamento sonoro é algo natural nos músicos também. Opeth, por exemplo, vão buscar coisas que já foram feitas, alguns chavões, mas descontextualizam para um death metal mais pesado ou para um rock progressivo. Um músico muitas vezes faz isso, vai beber a um determinado estilo. Uma das coisas que acho importante notar-se é a não-distinção entre o factor musical de composição e o som. É importante que as bandas, mais do que os músicos, compreendam que não se pode querer um som muito diferente do que é a sua génese. E a procura dos Moonspell foi dessa honestidade e dessa pureza, portanto tentar encontrar o som como em Moonspell normalmente soamos, como soamos ao vivo, como soamos em ensaio, como soamos como pessoas. ».
O que implica isto em “Alpha Noir/OmegaWhite” é o uso de um thrash gótico, digamos assim, que transporta algum quê de urbano. Algum quê de político, de social e de atitude, também musical, mas possuidor do carácter gótico, luxuoso e negro dos Moonspell. Por exemplo, o “Omega White”, o segundo álbum, o segundo conceito, é um álbum muito mais típico de Moonspell, é muito parecido com músicas feitas no passado, apenas estão reunidas num álbum quando eram ilhas – como a “Luna” no “Memorial”. Em “Alpha Noir” os Moonspell arriscaram mais, mas que foi buscar chavões é um facto.
Por isso, Pedro Paixão repete sobre este duplo álbum de Moonspell, sem preconceitos: «Tornámo-nos mais generalistas na abordagem com que fazemos música a partir do “Irreligious”, que já é um álbum que qualquer pessoa poderá ouvir, não está circunspecto a um determinado estilo. O “Wolfheart” já começa a alargar os cotovelos, a abrir as asas. Temos álbuns muito mais fechados, com um estilo muito mais próprio, mas o “Irreligious” é um excelente exemplo, porque é um álbum que tem uma personalidade vincadíssima, provavelmente é o nosso álbum, ou o segundo álbum, mais homogéneo, a par do “Alpha Noir”. Tem um estilo muito coerente do princípio ao fim e, no entanto, é um álbum muito acessível».
Foi sobre “Alpha Noir/Omega White”, álbum de 2012 dos Moonspell, que falámos com o Pedro Paixão (na altura, para uma entrevista publicada originalmente na AS #26) no antigo estúdio da banda da Amadora, onde se realizou a grossa parte das captações do disco.
Alpha & Omega
Os Moonspell já fizeram várias coisas conceptuais, contudo, “Alpha Noir/Omega White”, um álbum duplo, obrigou a algum trabalho específico?
Acho que, principalmente eu e o Fernando [Ribeiro] somos aquilo que chamaram ao Roger Waters – somos conceptualistas. Preciso de uma mensagem para trabalhar e desenvolver ideias novas, que estimulem a composição. Apesar de haver técnicas e exercícios que também potenciam a composição, a verdade é que, passada a primeira fase em que há ideias soltas e espontâneas, que surgem em casa ou como banda, depois quando desenvolvemos o trabalho conjunto – quer como banda, quer o trabalho como um conjunto de canções – já precisamos de ter um eixo sob o qual trabalhamos. Desta feita nós deparámo-nos com uma situação diferente. Normalmente há várias tendências musicais embutidas em cada música de Moonspell, daí uma certa marca de contraste nos nossos temas. Neste caso compusemos, logo inicialmente, três músicas num estilo muito próprio e outra que era muito mais, sabemos agora “Omega”. E queria fazer um álbum pesado, sem essas diferenças de intensidade. Uma coisa que me chateou no passado, é termos músicas pesadas como a “Night Eternal” no mesmo álbum de uma “Scorpion Flower”, uma música que tem um estilo mais leve.
Isso é um compromisso não só de composição mas especialmente sonoro, porque depois a produção tem que ter alguma homogeneidade, por uma questão de tempo e de método de gravação, não há outra forma. Quem já gravou, uma demo que seja, percebe isso. Não se mudam radicalmente as bases sonoras de música para música, caso contrário… Com tempo e orçamento claro que se faz, agora, sem ser assim entras num compromisso em que nem a música pesada está verdadeiramente pesada, nem a música leve está verdadeiramente leve. Decidimos fazer dois álbuns! Um álbum que é realmente um conceito muito forte, o “Alpha Noir”, um álbum que vai à guerra, que vem de dentro para fora, algo que de alguma forma agride e que impressiona. O “Omega White” é mais um conjunto de canções, na minha óptica é também uma resposta ao “Alpha Noir” mais do que uma vida por si próprio, mas que ganhou essa vida e essa personalidade como resposta que é. E daí que depois em termos sonoros tivemos todas as habilitações para conseguir fazer, na minha opinião, os dois álbuns que são do melhor na carreira de Moonspell. Porque realmente não houve compromissos, são mensagens muito directas.

Essa questão de bases sonoras, dinâmicas de som, etc., o que exploraram especificamente para dar resposta a cada um dos “lados” do disco?
Cada álbum é um método diferente, um produtor diferente. E acho que nunca consigo distinguir – por isso é que sou membro de uma banda e não, propriamente, um produtor (mas mesmo se fosse produtor pensaria assim de certeza) –, ou desligar o som da composição. Quando se compõe cria-se som, a música é som que transmite algo, e portanto as coisas são um bocado indissociáveis. A música não deixa de ser um som que tem de ser produzido de alguma forma. O grande desafio é sempre conseguir soar à banda em causa, considerando a mensagem que queremos transmitir naquele momento.
Gravámos a bateria num estúdio, mas depois gravámos tudo o resto aqui no nosso estúdio, tendo vindo o nosso produtor sonoro cá para equalizar os sons, para timbrar as captações. Tivemos a possibilidade, não só de dispor de um tempo imenso para ter a melhor performance e o melhor som, mas de experimentar muito equipamento, especialmente guitarras. Nos teclados temos um set-up relativamente definido, apesar de que aqui também temos mais acesso, e eu e o Ricardo trabalhámos os dois ambos os instrumentos – pudemos recorrer a uma livraria maior de sons. Normalmente os teclados já iam gravados daqui, porque, normalmente, não mudamos muito os sons na mistura. Há uns que se mudam porque também temos os ficheiros MIDI a “bombar” na mesma – nesse aspecto sou muito académico e então tenho o ficheiro MIDI, o ficheiro áudio; em coros, que utilizamos muito, sintetizados, tenho muitas variantes, combinações, e tudo gravado por pistas. Aproveito muito o digital. Está gravado, a verdade é essa, e levamos em áudio para as misturas. Antes quando gravava ainda as guitarras não estavam gravadas, nem a bateria ou voz, porque íamos lá gravar tudo. Desta vez isso fez uma grande diferença.
Dizes uma grande diferença no sentido de preenchimento harmónico?
Exactamente. Escolhes, pões mais esta nota ou tiras outra nota porque a frequência que está a abordar, mesmo que fique muito bem isoladamente, em que ouves o arranjo orquestral e está bonito, tem lá tudo, depois quando juntas tapa determinadas coisas. Pudemos fazer uma escolha criteriosa do som, das notas e dos ritmos a utilizar dum modo muito mais preciso. Agora, o “Alpha” tem teclados, claro, mas não é o grande motor. E nesse aspecto também tivemos a possibilidade de experimentar um sem-número de amplificadores e de, salvo erro, três colunas diferentes, utilizámos também combos. Tínhamos vários setups que íamos mudando, fomos fazendo esse trabalho sem o produtor. Ele timbrou as várias possibilidades. Uma grande diferença sonora foi que nós tivemos o tempo de fazer a guitarra ritmo com o groove e intensidade certos; tentar mesmo dobrar coladinha. Noutros álbuns acabámos por ter aquele wide stereo e neste concentrámos mais cada instrumento, com maior precisão.
Foi tudo “humano”, não fizeram cortes de takes e colagem neste “Alpha Noir/Omega White”?
Não fomos à guerra, digamos, com muitas artimanhas – com muitos esconderijos e tácticas –, fomos em frente, mas com escudo. Quer em composição, quer depois em captação, tentámos o espírito do “less is more”, mesmo. Porque, devido a esse estilo mais directo no “Alpha Noir”, quisemos tornar as guitarras grandes, com menos layers. Somos um pouco caracterizados por aquela muralha sonora, teclados com muitas notas e guitarras wide stereo, algo que mandámos para o lado e tentámos que cada elemento se ouvisse muito bem. Então diminuímos o número de dobras, ou as dobras que são feitas serem mesmo coladinhas, não ter duas leads, um ritmo e um teclado a fazerem coisas diferentes. E na captação mantivemos esse espírito.
Não queiram fazer o melhor som do mundo sem trabalhar na composição, porque é impossível. Podes ter dez coisas que soam muito bem individualmente, mas depois quando juntas todas é mais difícil e quanto mais pior. Portanto, quanto mais perto da simplicidade, geralmente, melhores são os resultados.
Pedro Paixão
Os Moonspell fizeram os espectáculos do “Wolfheart” numa altura em que estavam a trabalhar este disco, e até já tinham começado gravações, e anteriormente a “Soombra” (curta digressão de concertos acústicos) – duas coisas bastante distintas. Isso influenciou de alguma forma essa distinção, de um disco para o outro, neste “Alpha Noir/Omega White”?
É possível, é uma observação pertinente. É um facto, ganhámos esta capacidade (penso que isso vem com a idade, com a experiência) de compartimentarmos. De conseguirmos extremar uma faceta da banda um dia, e conseguir ir ao outro extremo no outro dia. É de notar que Moonspell (com um período de excepção em que talvez não fôssemos tão virados para o passado) sempre foi uma banda que tocou as faixas antigas. Durante o nosso percurso nunca virámos as costas ao nosso passado, sempre foi algo que assumimos. O “Memorial” até é uma dedicatória a isso, porque nós compreendemos que a nossa carne cresceu, e foi feita sempre do mesmo. Os portugueses são tão nostálgicos e nós não queremos renegar o nosso passado. Nunca o fizemos, sempre nos sentimos bastante orgulhosos, e ainda hoje esforçamo-nos sempre ao máximo para pôr as faixas antigas nos sets.
Uma banda evolui naturalmente, um músico torna-se mais competente com a experiência. Não têm a tentação de “complicar” os temas mais antigos, de dar-lhes outra roupagem?
Curiosamente, temos exactamente a postura contrária! Se for preciso até vamos buscar sons mais “rascos” no teclado que eu utilizava, porque gostamos mesmo de sentir aquilo como é. Quando vou ver as minhas bandas favoritas, com o som actual, a qualidade e a disponibilidade técnica e tecnológica que hoje em dia está presente na maioria dos concertos, gosto de ouvir aquilo como aquilo é, não gosto de invenções. Pode ter uma parte extra, depende do estilo de música. Agora, em termos de alma, o metal, que é suor, aquela frontalidade e atitude, acho que temos sempre esse feeling de tentar fazer as coisas parecidas com o que eram, melhor tocado mas como deveria ser aquilo.
Muitas vezes quando estás a compor – neste caso do “Alpha Noir” optámos mesmo por não complicar um riff – um riff é um riff, foi esta a nossa atitude. Não quer dizer que seja esta a atitude a tomar sempre, mas num projecto deste género tentámos ser fiéis àquilo que nos propúnhamos. E isso vem da composição, em primeiro lugar, e o som aparece como uma consequência e tem de ser uma ferramenta que potencie essa composição. Daí que nós tenhamos trabalhado com um produtor musical, para trabalhar as músicas, e para as tornar musicalmente mais apelativas, com a mensagem a ser mais clara. Como dizia o Pete Steele: «Damos o carvão para ele polir e tornar aquilo e diamante ou numa pedra lustrosa».
E depois o produtor sonoro tem precisamente que potenciar, e tivemos outro produtor sonoro, o Tue Madsen, para poder potenciar o que foi já debitado pela música, no fundo. E isso tem que se compreender, não queiram fazer o melhor som do mundo sem trabalhar na composição, porque é impossível. Podes ter dez coisas que soam muito bem individualmente, mas depois quando juntas todas é mais difícil, quanto mais pior. Portanto, quanto mais perto da simplicidade, geralmente, melhores são os resultados.
Noir & White
Em termos de sala, para fazer no vosso espaço as captações de “Alpha Noir/Omega White”, houve exigências no tratamento acústico ou algum tipo de ajustes específicos pedidos pelo Tue Madsen?
O Tue Madsen é uma pessoa muito simples, mas nós não. Eu não sou nada simples, portanto fiz as perguntas do que ele queria. Da parte de tratamento acústico sei como ele funciona e, como não íamos gravar bateria aqui, o que se veio a confirmar é que ele queria, basicamente, uma sala morta, neutra em termos acústicos. Pudemos expandir o nosso estúdio e criámos uma sala neutra, basicamente, isolada, onde pudemos captar as guitarras e gravar à vontade, sem reflexões.
Li muita coisa sobre acústica e fizemos realmente ali o isolamento correcto, bass traps, tudo! Está contíguo à sala de estar e podia estar ali a guitarra a berrar ao ponto de provocar surdez, que as pessoas podiam estar a conversar à vontade, não passava. E assim gravámos o baixo, as guitarras e também a voz. O Tue não gosta de Mackie, o que nós temos, pois adoro a Mackie. Então, basicamente, fizemos um bypass, servindo a mesa de mistura apenas como escuta e não como gravação, com a captação directa para o computador. Ele queria Pro Tools, utilizámos sincronizado com o Logic Audio, portanto um pc com um mac sincronizado e aquilo funciona bem, ele até apreciava bastante isso…
Nenhuns problemas de latência…
Não, aquilo consegue fazer quase ao ponto, porque não gravamos áudio para o Logic, à excepção dos teclados. E como eles estão ligados em rede, depois quando eu faço a transposição para o Pro Tools o WAV começa no mesmo ponto, ao puxares para o zero ele fica mesmo no zero. Curiosamente, os monitores que ele pediu são extremamente baratos, da Behringer, que comprámos com prazer, não só porque eram baratos, mas especialmente porque dão uma bela escuta, uma bela referência. E temos um conjunto de amigos e pessoas que nos apoiam, como o Vegeta, que tem um estúdio em Mafra, o Canadas do Poison Apple e, principalmente, a Puro Audio que nos emprestou muita coisa (pre-amps, compressores), durante um largo período de tempo, para processar o sinal antes de entrar na gravação, para lhe dar aquele calor e fazer a amplificação correcta e da forma que o nosso produtor queria.
Que modelos usaram mais?
Utilizámos um TL Audio clássico para, por exemplo, guitarras limpas, para acústicas; um Focusrite para voz quer num álbum quer no outro. Um Aphex que a Puro Audio tinha e acabámos por utilizar para clean guitars, mas eléctricas, na captação do combo. Lembro-me que alguns foram para trás porque o Tue nem precisou de tantos. Microfones, ele trouxe o microfone dele de voz e emprestou durante uns meses a fio. Curiosamente, um microfone chinês, que ele não conhece a marca, mas que garantia que era uma coisa maravilhosa. O Tue é especialista em descobrir marcas baratas e desconhecidas, mas que têm uma performance quase igual. Utilizámos por acaso os SM58 para guitarra, a par dos Studio Project, os C1. Usámos só plugins para ir buscar um efeito ou outro mais específico ao DI das guitarras, que se grava sempre a par das duas cabeças a sair para duas colunas captadas com três micros – portanto, 4 pistas por guitarra garantidamente.
O processamento de efeitos é então todo posterior à captação?
Na mistura. Há de facto coisas que gravámos com efeito, mas normalmente efeitos mais secos, como o Wah Wah, o Tube Screamer, esse tipo de coisas que estão na génese do som e da composição. Agora delays, etc., era tudo sempre a posteriori. O que fazíamos era pôr um plugin na escuta, para a pessoa tocar com efeito e não em seco sem não saber como é que aquilo vai soar.
Em “Alpha Noir/Omega White”, estávamos mais preocupados com a performance humana do que propriamente com as máquinas. Nada contra isso, aliás, sou um amante de coisas de James Blake ou Massive Attack, que utilizam inúmeras captações pouco ortodoxas. Mas para o nosso caso, para a mensagem e para a forma como queríamos trabalhar os álbuns, não sentimos essa necessidade.
Pedro Paixão
Fizeram a sala muito neutra. Deduzindo que estão neste espaço para ficar, pelo menos mais um tempo [os Moonspell permaneceram no estúdio Inferno até cerca de 2019], a minha questão é se “amanhã” quiserem gravar guitarras com mais headroom, com mais projecção…
Uma sala neutra permite isso, precisamente. A tendência moderna é até de secar as coisas, e eu gosto dessa tendência, mas também sei que para criar um ambiente de thrash tem que se ter um certo room naquele “rifar” quando a guitarra aparece sozinha, e isso fez-se. Mas, por exemplo, a parte acústica veio muito também da bateria, que foi gravada numa piscina. No estúdio do Tue, em casa ele tem uma piscina interior vazia e é a sala de captação dele. Aquilo é mesmo uma piscina interior, numa sala de, imagino eu, 8 metros por 6, e a piscina para aí de 6 por 4 que o Mike descia para ir para o fundo, sentava-se lá, tocava e pronto. Dá uma grande característica de room, quer num álbum quer noutro, que foram tratados de forma diferente. Um tem mais sala, outro tem um bocado menos de sala, mais controlo. A verdade é que acho que esse tipo de rooms que referes poderá, eventualmente, ter algum interesse gravar alguma coisa que tenha um feeling mais ao vivo, mas em geral o isolamento e conseguires diferenciar o sinal é sempre mais vantajoso, acho eu, hoje em dia.
Houve mais truques ou curiosidades além da “piscina” em “Alpha Noir/Omega White”?
Não. Foi tudo muito mais simples, entre midis e plugins. E honestamente, para além de compressão e equalização, as coisas pouco processamento acabam por ter. No caso dos teclados nós sempre assumimos muito o teclado como sintetizador, e mesmo quando queremos ir para um certo realismo, faz-se simulações. Mas nos outros instrumentos não vi que houvesse essa necessidade, nem de procura de sons, porque quisemos fazer uma coisa mesmo directa. E é aquilo que já falámos, a experiência também te leva a abordar as coisas de uma forma mais directa, e saber que não vale a pena perder tempo com determinadas coisas. Isso é bom quando ainda estás à procura de uma certa personalidade. Como nos Moonspell já temos uma personalidade muito definida, essa procura ou já vem de antemão ou não há espaço assim a grandes experiências. Estávamos mais preocupados mesmo com a performance do humano, do que propriamente serem as máquinas a fornecer…
Nada contra isso, aliás, sou um amante de coisas de James Blake ou Massive Attack, que utilizam inúmeras captações pouco ortodoxas. Mas para o nosso caso, para a mensagem e para a forma como queríamos trabalhar os álbuns, não sentimos essa necessidade. Havia procura de som, mas dentro dos amplificadores, dos pedais, etc., mas não da captação.
Como dividiram as sessões para cada disco de “Alpha Noir/Omega White”? Qual foi a resolução com que gravaram?
Gravámos a 48 kHz e a 24 bits. Tínhamos uma sessão por música, e uma pasta por álbum, com as várias sessões. O Tue, ao vir cá, uma parte do trabalho dele foi preparar as sessões da forma como ele gosta, os routings internos no computador da forma como ele quer trabalhar depois. Para mim foi um arrepio quando lhe dei os ficheiros do “Alpha Noir” primeiro – porque nós fizemos as coisas por fases – e ele põe aquilo e já está tudo pronto para ser misturado. Ele próprio gostou muito. Mas ele trabalha muito bem nesse sentido, lembro-me que estava ansioso, até dormi mal na noite antes de ele chegar para a captação do “Alpha Noir”, para saber se tudo funcionava.
Quando foi para o “Omega White”, ele veio cá uma segunda vez, já estava nas calmas. E foi muito engraçado, como eu não prestei atenção, depois quando precisei de importar pistas e eu vou fazer um import para copiar de outra versão do álbum, a primeira pasta que me abre é uma escrita em bold e em maiúsculas a dizer “IMPORT FROM HERE” [Importa Daqui], portanto ele é tão organizado que lá pôs, já com faixas extra e tudo, já com os routings certos. Ao importares já estavas com os trackings a postos para gravar logo mais uma pista. Não houve qualquer tipo de problema. Eu tinha esse receio, e foi das coisas mais fáceis, foi um grande desafio que teve uma resposta muito simples, e às vezes acontece, às vezes tens desafios pequenos e nunca mais se chega ao ponto certo, e às vezes tens um desafio gigantesco e de repente vês «olha, afinal este era só dar aqui um pulinho e já estava».

Um pensamento sobre “Alpha Noir/Omega White, Moonspell”