Gualdino Barros

Gualdino Barros [1938-2023]

Morreu Gualdino Barros, o baterista nascido em Angola cuja contribuição para a cena jazz portuguesa transcende o tempo. Tinha 85 anos.

A notícia do falecimento de Gualdino Barros ecoou como uma nota triste na cena jazz lisboeta. A sua partida, no dia 22 de Novembro, aos 85 anos, foi confirmada já nas últimas horas do dia 23. O homem das sete vidas deixa um vazio irreparável, mas também uma herança musical que continuará a ressoar nos corações daqueles que foram tocados por sua arte e inspiração.

Gualdino Barros, um baterista autodidata, não se limitou a moldar o seu próprio caminho musical, mas também serviu como mentor e catalisador para uma nova geração de talentos. O seu palco partilhado viu nascer e florescer músicos notáveis como Jorge Palma, Bernardo Sassetti e Dany Silva, todos tocados pela influência marcante de Gualdino.

A sua vida, um enredo fascinante que misturava música e aventura, foi como uma composição jazzística. Nos anos 60, impulsionado pela poesia de Jack Kerouac, Gualdino Barros embarcou numa jornada épica, viajando de comboio até Paris. Dormiu sob a Pont Neuf e, reza a lenda, tocou com ícones como Nina Simone e Johnny Griffin. Gravou ao lado do Thilo’s Combo com os seus conterrâneos do Duo Ouro Negro. Cada capítulo da sua vida foi uma improvisação única, uma fusão de experiências que ecoavam nas batidas da sua bateria.

O documentário “A Sétima Vida de Gualdino” imortalizou essas aventuras surreais, retratando uma vida que, de facto, foi rocambolesca e cheia de proezas. A obra dirigida por Filipe Araújo capturou a essência de um músico que não tocava apenas notas, mas vivia e respirava a música como uma expressão intrínseca da sua própria existência.

Além do seu vigor na bateria, Gualdino Barros explorou outros palcos artísticos. A sua incursão como actor no filme nacional independente de horror “I’ll See You In My Dreams”, realizado por Filipe Melo, acrescentou uma camada adicional à sua expressão artística, mostrando que a sua criatividade não estava limitada apenas ao domínio musical. Interpretar um zombie pode ser visto como, mais do que uma performance, uma metáfora visual da imortalidade que a sua música conquistou.

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