Process Of Guilt

Process Of Guilt & Rorcal

Em 2014, os Process Of Guilt encerraram o épico ciclo “FÆMIN” através do tríptico “Liar”, no split com os suíços Rorcal. Hugo Santos junta-se à ROMA INVERSA numa reflexão sobre esse trabalho de tantas transições na carreira dos eborenses.

O guitarrista/vocalista dos lusos, Hugo Santos, recua a 2014 e recorda a primeira vez que a banda nacional colaborou num tema com alguém que não faz parte do quarteto que a forma. O músico reflecte sobre como as proximidades de visão e estética sonora com JP, guitarrista dos suíços, estabeleceram muito do que distingue o tríptico “Liar” e sobre a sua gravação.

A cada lançamento dos Process Of Guilt, sempre existiram mudanças estéticas, se não profundas, pelo menos significativas. Mas neste caso essa sensação é mais reduzida. Talvez porque foi algo que ficou a meio caminho entre álbuns. “Liar” foi o primeiro esforço de composição dos eborenses a seguir ao “FÆMIN” um disco que, para Hugo Santos, foi onde os Process Of Guilt se encontraram.

Onde ficaram a par entre aquilo que ouviam e entre uma data de ambiências que queriam fazer: «Aí descobrimos ritmos mais dinâmicos e há uma orgânica de banda a funcionar de forma diferente. Em “Liar” tentámos levar isso um pouco ainda mais adiante e também transformar um grande tema em partes menores que, individualmente, conseguem ter um ritmo e cadência próprias». Para os que seguiam ou seguem a par e passo os Process Of Guilt, “Liar” parece exactamente o tema que se estaria à espera, na altura.

Como refere Hugo Santos, em termos de evolução “Liar” foi congruente. «Gravámos o “FÆMIN” em 2011. Há três anos que andamos a tocar e a desenvolver uma estética que é a que ambicionamos. Por outro lado, a forma, o som final que o “FÆMIN” teve, como reflexo do sítio onde foi misturado [por Andrew Schneider, nos Translator Audio Studios, em New York, hoje os Acre Audio], acabou por nos influenciar na procura dessa contundência de som. O “Liar” é uma continuação, mas é também a primeira vez em que fazemos algo que já não é o “FÆMIN” e que tentamos levar um pouco mais à frente».

Além da mistura, também as sessões de captação e masterização significaram mudanças, acima de tudo logísticas. Os membros da banda estavam progressivamente a deixar Évora e a concentrar-se na metrópole lisboeta e por isso “Liar” «marcou a primeira vez que abandonámos o sítio onde gravámos tudo desde o nosso início, o estúdio Quinta Dimensão, do João Bacelar. Acabámos por encontrar um novo parceiro, no estúdio do Paulo Basílio (hoje o Buzz Room), onde fizemos captação de guitarras e voz, sendo que também encontrámos um novo local para a captação da bateria, uma vez que o André Tavares fez as captações no Atlantic Blue», recorda o músico dos Process Of Guilt.

Já os objectivos estéticos também foram determinantes na produção do trabalho. «Sabendo que iríamos ter a participação do JP, que iria acrescentar uma camada de noise ao nosso trabalho, acabámos por tirar partido da sua vontade em querer misturar estes temas. Como ele iria misturar os temas de Rorcal, achámos que isso acabaria por unificar a abordagem sónica dos dois lados do split. Também abordámos um novo estúdio para masterização, que foi feita pelo Raphaël Bovey no My Room Studio. Estamos conscientes das diferenças de som entre o “Fæmin” e o “Liar”, mas estamos contentes com ambos», conclui Santos.

A atmosfera que percorre este split, eco físico que une os Process Of Guilt e os Rorcal, é violentamente interrompida pelas pinturas negras e doentias dos últimos. A capacidade de potenciar a esquizofrenia, através da harmonização das linhas de guitarras, é uma arma de violência que atravessa “IX”, “X” e “XI”. Ainda assim, a progressão melódica da peça central consegue ser um tocante raio de luz, a meio da intrincada rede de demência criada pelos suíços. Curiosamente, é em “XI”, a peça com apontamentos mais lentos, que há uma maior relação com as estruturas clássicas do black metal. O que os Rorcal mostram em agressividade, os Process Of Guilt mostram em flutuações de intensidade.

Há em “Liar” um certo balanço, que se sentia em “FÆMIN”, mas que aí estava mais amarrado. Naturalmente, o tríptico não descola completamente do terceiro álbum da banda (algo mais notório no movimento II), mas acrescenta mais dinâmica naquela capacidade que os Process Of Guilt possuem de construir melodias através da opressão do peso dos seus riffs monocórdicos.

Até por esse motivo, o movimento II poderia estar mais extenso, o flow que o percorre deixa uma frustração ao ser interrompido (ou a vontade de o ouvir novamente), é esse o único pecado do tema. Após o altar de feedback que é o movimento III, sentimos que a mestria que a banda começou a demonstrar em “Erosion” e que apurou em “FÆMIN” está no seu zénite nos três movimentos de “Liar”.

A mistura do JP, inconscientemente, parece mais benéfica ao corpo sonoro mais cru dos Rorcal, ainda que tenha sido feita num ambiente totalmente digital e a dos portugueses através de mesa analógica. Um paradoxo explicado pelo frontman dos Process Of Guilt: «Acredito é que ele, por estar muito mais por dentro do som de Rorcal que do nosso, tenha retirado melhor partido da captação de Rorcal que da nossa própria captação, que foi a melhor que tiveramos até esse momento».

Santos admitia ainda que a soma da mistura do JP com a masterização do Raphaël Bovey dá um som muito mais “europeu”, muito mais puxado aos médios, do que a mistura do “FÆMIN”. Principalmente desde o “Erosion”, fala-se muito em Godflesh quando se fala nos Process Of Guilt e esse tipo de mistura trouxe isso ainda mais para primeiro plano. Algo ambicionado, todavia, que os portugueses procuravam desde o split com Caïna (2009).

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