Robert Plant traz de regresso Suzi Dian e os Saving Grace com “All That Glitters…”, um deslumbrante EP de quatro canções que cruza folk, blues e música tradicional.
Como seria natural, há uma continuidade muito natural entre Saving Grace, o álbum que Robert Plant editou em Setembro de 2025, e All That Glitters…, o EP de quatro temas que chegou a 9 de Outubro de 2026 às plataformas digitais, depois de uma edição em vinil para o Record Store Day, em Abril.
Ambos nascem da mesma vontade de procurar canções fora do repertório mais previsível do rock, num território onde o folk, o blues, a música tradicional norte-americana e a folk britânica se cruzam sem grandes preocupações com fronteiras ou classificações. A diferença está sobretudo na dimensão: enquanto o primeiro disco apresentou ao mundo o universo desta formação, o EP funciona como mais uma recolha de canções que Robert Plant e os seus companheiros têm vontade de fazer suas.
A expressão «song book of the lost and found», usada pelo próprio Plant para descrever o álbum de estreia, continua a ser uma boa chave de leitura. O músico tem passado boa parte da sua carreira posterior aos Led Zeppelin a procurar outras formas de se relacionar com a música que o formou, sem ficar preso à obrigação de reproduzir a linguagem que o tornou uma das vozes mais reconhecíveis da história do rock.
A colaboração com Alison Krauss, em Raising Sand e Raise the Roof, já tinha demonstrado a sua disponibilidade para abandonar o centro do palco e trabalhar a partir de subtilezas, texturas e repertórios alheios. Com Saving Grace, essa curiosidade encontra uma expressão mais informal e colectiva, ancorada na relação com músicos que partilham o gosto por canções antigas, por vezes esquecidas, e por interpretações que preservam as marcas do tempo.
O grupo reúne Suzi Dian, na voz e no acordeão, Oli Jefferson, na bateria, Tony Kelsey, na guitarra, Matt Worley, em vários instrumentos de cordas, banjo e voz, e Barney Morse-Brown, no violoncelo. Mais do que uma banda construída em torno da figura de Plant, Saving Grace funciona como um conjunto de personalidades que se encontram num repertório comum. A voz do antigo vocalista dos Led Zeppelin continua a ser imediatamente identificável, mas já não precisa de ocupar todo o espaço. O diálogo com Dian, as cores instrumentais e a própria escolha das canções permitem-lhe trabalhar com uma contenção que, longe de diminuir a sua presença, lhe dá novas possibilidades expressivas.
All That Glitters… abre com “The Blackest Crow”, uma canção tradicional cuja história se perde na transmissão oral e nas diferentes versões que atravessaram gerações. O tema pertence a uma linhagem de canções em que a separação, a perda e a consciência da mortalidade se encontram ligadas à linguagem da natureza. O título evoca uma imagem sombria, mas a força deste repertório não depende de uma dramatização excessiva: está na simplicidade com que uma melodia pode transportar uma experiência humana reconhecível.
Plant e Saving Grace abordam-na como música viva, sem tentarem disfarçar a sua idade nem transformá-la numa peça de museu. A interpretação interessa precisamente por essa relação entre familiaridade e descoberta, entre uma voz com uma história enorme e uma canção que parece existir muito para além de qualquer intérprete.
“Orphan Girl”, de Gillian Welch, desloca o EP para um universo mais próximo da Americana contemporânea. Welch é uma das compositoras que melhor souberam recolher a tradição do folk e da música country sem a reduzirem a uma reconstituição nostálgica, e a canção tem essa capacidade de fazer conviver uma narrativa directa com um sentimento de desamparo que nunca precisa de ser explicado por inteiro.
A escolha é particularmente adequada a Plant, cuja carreira tem sido marcada por um interesse persistente em personagens à margem, viajantes e figuras que procuram um lugar a que possam chamar casa. Em vez de tratar a composição como uma oportunidade para exibir a voz, Saving Grace permite que a própria canção conduza a interpretação.
“Two Coats” regressa à tradição, neste caso a uma canção associada ao repertório de Ralph Stanley, figura fundamental da música bluegrass e da tradição vocal dos Apalaches. Robert Plant já vinha interpretando o tema com Saving Grace desde 2019, o que ajuda a compreender por que razão acabou por chegar ao estúdio: não se trata de uma escolha feita apenas para preencher um alinhamento, mas de uma canção que acompanhou o desenvolvimento da banda e ganhou lugar no seu repertório ao vivo.
A versão gravada mantém essa ligação à prática colectiva. É também um exemplo claro da forma como Plant se aproxima destas músicas: não como quem procura reclamar a sua propriedade, mas como quem reconhece nelas uma fonte de prazer e de expressão que pode continuar a ser partilhada.
O EP encerra com “Poison”, de Bert Jansch, guitarrista e compositor escocês cuja influência sobre a folk britânica e sobre várias gerações de músicos de guitarra acústica permanece difícil de exagerar. Jansch foi um intérprete singular, capaz de absorver tradições muito diferentes e de as transformar numa linguagem própria, marcada pela economia e por uma tensão discreta.
A inclusão do tema estabelece uma ligação importante entre os dois lados do Atlântico que atravessam o repertório de Saving Grace: a tradição norte-americana não aparece isolada, mas em conversa com a história da folk britânica, com os seus músicos itinerantes, as suas experiências de reinvenção e a sua relação aberta com as formas tradicionais.
É neste ponto que All That Glitters… ganha particular interesse quando escutado ao lado de Saving Grace. O álbum de 2025 apresentou um repertório que incluía temas de Memphis Minnie, Blind Willie Johnson, Low e outros autores e intérpretes, articulando blues, folk e Americana através de uma abordagem que privilegiava a personalidade das canções. O EP não altera essa direcção nem procura ampliar artificialmente o alcance do projecto.
All That Glitters… permite delinear um percurso entre a tradição oral, a composição contemporânea de Gillian Welch e o legado de Bert Jansch, sem que o conjunto precise de apresentar uma tese ou de procurar uma conclusão grandiosa.
Pelo contrário, reforça a ideia de que Saving Grace é um espaço de exploração continuada, alimentado por canções que o grupo toca, descobre ou transporta consigo há vários anos. Os quatro temas foram gravados especialmente para esta edição, e não recuperados de sessões antigas do álbum, o que lhes confere uma identidade própria dentro do mesmo universo musical.
A brevidade do formato também joga a favor de All That Glitters…. Quatro canções são suficientes para delinear um percurso entre a tradição oral, a composição contemporânea de Gillian Welch e o legado de Bert Jansch, sem que o conjunto precise de apresentar uma tese ou de procurar uma conclusão grandiosa. A unidade resulta da sensibilidade partilhada pelos músicos e da maneira como abordam materiais de origens diferentes com uma atenção semelhante. Há, neste repertório, uma relação com o passado que não depende da reverência: estas canções continuam a ter vida porque são cantadas e tocadas no presente.
Aos 77 anos, Robert Plant não precisa de demonstrar que ainda consegue ser o homem que cantou “Whole Lotta Love” ou “Kashmir”. A história dos Led Zeppelin está feita, e a sua sombra acompanha inevitavelmente tudo o que o músico faz. O mais interessante na sua carreira recente é precisamente a liberdade com que tem recusado viver dessa herança, escolhendo colaborações e repertórios que lhe permitem continuar a aprender, a experimentar e a partilhar o protagonismo.
All That Glitters… não tem a dimensão de um álbum de longa duração, nem precisa de a ter. É uma extensão coerente de um projecto que encontrou a sua razão de ser na curiosidade e no prazer de tocar em conjunto. O brilho a que o título alude (que remete para “Stairway To Heaven”) não vem da ideia de recuperar um passado glorioso, mas da possibilidade de voltar a encontrar algo de precioso em canções que continuam disponíveis para quem as queira ouvir.




