Em estreia na mítica Sub Pop com o seu décimo álbum de estúdio, o duo norte-americano Stephen O’Malley e Greg Anderson regressou a Portugal. O concerto dos Sunn O))) de 11 de Julho de 2026 na República da Música, promovido pela Galeria ZDB, foi um teste de resistência física e espiritual.
Na noite de 11 de Julho de 2026, a República da Música, em Lisboa, estremeceu, submersa nas paisagens sonoras opressoras dos Sunn O))). O regresso dos Sunn O))) a Portugal, após a muito aplaudida actuação no Amplifest há um par de anos, trazia consigo o peso de uma redefinição identitária. Após anos a explorar colaborações externas e ramificações sónicas em registos como Eternity’s Pillars (2024), o duo fundador composto por Stephen O’Malley e Greg Anderson optou por um regresso radical à origem: a depuração absoluta da fórmula, reduzida ao seu núcleo atómico.
Este concerto na capital portuguesa, promovido pela Galeria ZDB — que se seguiu à passagem pela Fundação de Serralves no Porto —, serviu de palco para a materialização ao vivo do seu 10.º álbum de estúdio. O homónimo «sunn O)))», editado a 3 de Abril de 2026, marcou a estreia do grupo na lendária editora Sub Pop e foi gerado num contexto de isolamento absoluto nos Bear Creek Studios, em Washington. Longe de tudo, num estúdio rural com grandes janelas viradas para a floresta, o duo compôs sem prazos ou colaboradores externos, procurando que a música respirasse.
Stephen O’Malley descreveu esse ambiente como parte integrante do disco: «A enorme sala de gravação tinha grandes janelas com vista para as árvores. Podíamos ir caminhar, estar no meio da floresta (…). Isso acabou por se tornar uma parte muito importante do processo». Longe da pressão dos prazos, o duo transpôs a energia revitalizante dos seus últimos concertos à dupla para o novo trabalho, gerando peças esmagadoras como “Glory Black” ou “Butch’s Guns”.
Na altura da edição, Greg Anderson sublinhou que a energia acumulada nos últimos anos de estrada a dois tinha revelado um sentimento fresco e entusiasmante. Toda essa quietude natural da floresta americana foi, paradoxalmente, o combustível para o cataclismo que se viveu em Lisboa.
Envolvido por um fumo sufocante e ofuscado por luzes igualmente tétricas, o público de Lisboa experienciou um rito lúgubre de duas horas. A atmosfera caótica e ensurdecedora foi inicialmente preparada por excertos da voz de Cronos, vocalista dos Venom, deixando a plateia rapidamente afogada num universo sónico colossal. Foi uma afirmação de maturidade artística de quem já não tem nada a provar, traduzida na apresentação de novos temas como “Everett Moses”.
Rodeados por uma parede monolítica de amplificadores – 12 modelos vintage Sunn O Model T (incluindo um par de Super T), para ser específico, além das unidades da década de 70 de Ampegs SVT a correr através de 8×10 em cada lado do palco -, os guitarristas Greg Anderson e Stephen O’Malley realizaram um ritual cacofónico e disarmónico, simultaneamente angustiante e meditativo.
Nesta cerimónia estrondosa, baseada na amplificação extrema e na exploração física do som, contemplámos uma miríade de frequências transcendentais que elevaram os corpos atordoados e imersos em êxtase a um estado anestésico. Ao abdicarem de sintetizadores ou convidados, os dois músicos criaram uma interacção directa e sem filtros entre os amplificadores, o tempo e o espaço fechado da República da Música.
Esse poder, mesmo após o final do concerto, continuava a ressoar por toda a extensão do nosso ser, tornando esta uma experiência sensorial simultaneamente aterradora e fascinante. Lançar um álbum homónimo e levá-lo à estrada com esta violência prova que os Sunn O))) não regressaram ao formato elementar por nostalgia; usaram o despojamento estrutural como ponto de partida para um presente artisticamente seguro e consciente, lembrando-nos de que o volume absoluto continua a ser uma das formas mais puras de resistência cultural.








A reportagem é do Leonardo Monteiro e as fotografias são do Pedro Roque, podem (E DEVEM) ver a galeria completo em eyesofmadness-photography.blogspot.com/2026/07/sunn-o-republica-da-musica.html
