Gravado no Astoria, o estúdio flutuante de David Gilmour, The Division Bell nasceu de improvisações, do regresso de Richard Wright e de um método de trabalho contemplativo que devolveu aos Pink Floyd uma estética atmosférica e madura.
Após a longa digressão de A Momentary Lapse of Reason, que se estendeu entre 1987 e 1989, os membros dos Pink Floyd afastaram-se temporariamente. David Gilmour fez várias participações especiais e colaborações, enquanto Nick Mason se dedicou, entre outros projectos, à composição para cinema. Em 1992, Gilmour, Mason e o manager Steve O’Rourke participaram na La Carrera Panamericana, uma clássica corrida automobilística mexicana, ao volante de um Jaguar XK120 de 1954.
A experiência acabou por ter consequências inesperadas. Para o documentário sobre a corrida, os músicos começaram a trabalhar em nova música — a primeira colaboração significativa entre Gilmour, Mason e Richard Wright desde o final dos anos 70. Embora Wright não participasse directamente na corrida, foi convidado a contribuir para a banda sonora, e o processo revelou-se mais importante do que inicialmente previsto.
O projecto resultaria na banda sonora de Music From La Carrera Panamericana (1992), um conjunto de peças instrumentais que, embora frequentemente esquecido, representa o verdadeiro ponto de partida criativo para The Division Bell. Mais importante ainda, esse trabalho reacendeu um método de composição baseado na improvisação colectiva — algo que havia sido praticamente abandonado durante os anos mais turbulentos da banda. Nunca foi oficialmente editado, mas está disponível no bootleg A Tree Full of Secrets (abre link).
Em Janeiro de 1993, Gilmour, Mason e Wright decidiram prolongar esse impulso criativo. Começaram a trabalhar em nova música sem um conceito definido, sem pressão conceptual e sem urgência. Era, de certa forma, um regresso à forma mais intuitiva de trabalhar que caracterizara os Pink Floyd nos anos 70 (abre link). Mas o verdadeiro cenário onde esse novo capítulo tomaria forma não seria um estúdio tradicional. Seria um barco.
O Astoria: Um Estúdio Flutuante
Grande parte de The Division Bell foi concebida e gravada no Astoria, o estúdio flutuante de David Gilmour, ancorado no rio Tamisa, em Hampton. Construído em 1911 para o empresário teatral Fred Karno, o barco foi adquirido por Gilmour em 1986 e convertido num estúdio de gravação profissional de alto nível. O Astoria já tinha desempenhado um papel importante na gravação de A Momentary Lapse of Reason, mas em The Division Bell tornou-se o verdadeiro centro criativo do álbum. E isso não foi apenas uma escolha logística. Foi uma escolha estética.
Ao contrário dos grandes estúdios comerciais — frequentemente associados a pressões, horários rígidos e ambientes impessoais — o Astoria oferecia um espaço mais íntimo, quase doméstico. Os músicos trabalhavam sem pressa, desenvolvendo ideias lentamente, muitas vezes através de longas jam sessions. Este método foi fundamental. Ao contrário do álbum anterior — que envolveu múltiplos estúdios e um processo mais fragmentado — The Division Bell nasceu de um ambiente mais concentrado e coeso.




As sessões começaram em Janeiro de 1993, com David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright reunidos no barco para longos períodos de improvisação. Não existia um conceito pré-definido nem material preparado. A abordagem era deliberadamente aberta: tocar, gravar e depois avaliar. Essas gravações, frequentemente feitas em DAT, eram depois ouvidas colectivamente, com os músicos seleccionando fragmentos interessantes para posterior desenvolvimento. Este processo recordava directamente o método utilizado em Wish You Were Here ou Dark Side of the Moon, onde a música evoluía gradualmente, em vez de surgir de composições pré-definidas.
Este método não era novo para os Pink Floyd, de facto. A diferença era o contexto: agora, a banda trabalhava num ambiente mais relaxado, sem a pressão conceptual que tinha marcado The Wall ou The Final Cut. Nick Mason recordaria mais tarde que esse processo foi particularmente produtivo precisamente porque não havia urgência. As ideias podiam desenvolver-se lentamente, muitas vezes ao longo de vários dias. Este método tornou-se a espinha dorsal do álbum.
O ambiente do Astoria favorecia uma abordagem contemplativa. O som do rio, a ausência de pressão externa e o tempo disponível permitiram à banda trabalhar de forma mais orgânica. Essa tranquilidade reflecte-se directamente no som do álbum. The Division Bell é um disco de espaço e atmosfera, onde as músicas se desenvolvem lentamente, muitas vezes partindo de texturas e improvisações.
“Cluster One”, a malha de abertura de The Division Bell, é talvez o exemplo mais claro. A peça nasce de paisagens sonoras construídas gradualmente, com guitarras tratadas, efeitos ambientais e teclados etéreos. É uma introdução que define imediatamente o tom contemplativo do álbum. Outro exemplo é “Marooned”, instrumental que emergiu directamente de uma das jam sessions do Astoria. A canção, vencedora de um Grammy em 1995, representa talvez a essência do método utilizado: música que surge lentamente, sem pressa, construída sobre texturas e espaço.
Para ajudar a estruturar o material, David Gilmour voltou a colaborar com Bob Ezrin, que já tinha trabalhado com a banda em The Wall e A Momentary Lapse of Reason. Ezrin não esteve presente durante todas as sessões iniciais, mas desempenhou um papel importante na organização do material e no desenvolvimento das estruturas das músicas. Andrew Jackson, engenheiro de som de longa data dos Pink Floyd, esteve presente ao longo do processo e teve um papel crucial na captação das sessões improvisadas. Jackson já tinha trabalhado com a banda desde os anos 70 e conhecia profundamente a dinâmica criativa do grupo.
Após as sessões iniciais no Astoria, a banda transferiu parte do trabalho para Britannia Row Studios, estúdio pertencente aos Pink Floyd. Aqui, o material foi refinado, editado e desenvolvido, com maior atenção à estrutura final das músicas. A mistura final foi realizada com Mark “Spike” Stent, que ajudou a dar coesão ao som de The Division Bell.
Os Rigs de Gilmour
Outro nome importante foi Phil Taylor, técnico de guitarra de David Gilmour, cuja experiência foi essencial na preparação e manutenção do vasto equipamento utilizado durante as sessões. David Gilmour utilizou uma variedade de guitarras, incluindo a sua lendária Fender Stratocaster preta (abre link).
Outras instrumentros notáveis em The Division Bell incluem uma Fender Stratocaster ’57 reissue (de 1983) com o tremolo mais curto, com os PUs activos EMG-SA acompanhados do EMG-EXG expander e dos controlos de presença e médios SPC; Fender Telecaster ’52 reissue, usada nas sessões “Allons-y (1-2)” e muito provavelmente”Take it Back”; Gretsch 6121 Chet Atkins; Gibson Les Paul Goldtop de 1955 com P-90 em “Great Day for Freedom” (Division Bell); e a acústica principal de Gilmour em 1993, uma Gibson J-200 Celebrity.
Gilmour utilizou um vasto arsenal de efeitos diferentes para as sessões, composto por uma combinação de várias pedaleiras de efeitos Pete Cornish e pedais independentes. Não há registos sobre como estes foram ligados e combinados, mas isso deu a David a oportunidade de experimentar e explorar diferentes timbres e abordagens durante todas as fases da composição e gravação de Division Bell e, posteriormente, de The Endless River.
Pete Cornish 1987-88 pedalboard | MXR Dynacomp; Pete Cornish SS-2; EHX Big Muff; EHX Electric Mistress; BOSS CE-2; BOSS DD-2; BOSS GE-7; 3x Send Returns; 2x Amp Feeds: A pedalboard foi originalmente concebida como reserva para a digressão Momentary Lapse of Reason de 1987-88, mas nunca chegou a ser utilizada. Parece ter sido a pedaleira principal de David durante as sessões de gravação de Division Bell e Endless River, constituindo a peça central da sua elaborada configuração de efeitos. Não há registos que indiquem se foi modificada antes das sessões, embora se possa observar, pelo menos, o acréscimo de um equalizador BOSS GE7.
Mini-rack setup & efeitos adicionais para amps | MXR Digital Delay; Alesis Quadraverb; 2x BOSS CE-2; Conn Strobo Tuner; MXR DynaComp e Digitech Whammy WH1.


A configuração dos amplificadores de Gilmour parece ter sido bastante consistente durante todas as sessões nos estúdios Britannia Row, Astoria e, posteriormente, Olympic. Mais uma vez, trata-se de um regresso aos sons típicos dos anos 70, combinando amplificadores limpos e colunas rotativas para obter um som exuberante e espaçoso.
A configuração incluía duas stacks idênticas compostas por uma combinação de reissues Fender Bassmans (1959 Bassman 50W combo – altifalantes 4×10″ Eminence Blue Alnico e válvulas 2x6L6, 3x12AX7 e 5AR4 Rectifier), para um som limpo e cristalino, e Hiwatt SA212 (1970s SA212 50W combo – altifalantes 2×12″ Fane Crescendo e válvulas 2xEL34 e 4x12AX7), para presença e médios.
Um ou mais dos amplificadores eram ligados a um altifalante rotativo Maestro Rover e foram utilizados os dois pedais de chorus BOSS CE-2, listados acima, para realçar a amplitude stero. Os amplificadores acima estão listados com as especificações de fábrica. Não está documentado se os amplificadores de David foram modificados de alguma forma.
Richard Wright
Um dos factores mais decisivos para a estética de The Division Bell foi o regresso de Richard Wright como membro oficial da banda. Após ter sido despedido durante as sessões de The Wall e regressado apenas como músico contratado na digressão de 1980–81, Wright tinha voltado a colaborar com a banda em A Momentary Lapse of Reason, mas ainda com um papel relativamente limitado.
Em The Division Bell, a situação mudou. Wright participou activamente nas sessões desde o início, contribuindo com ideias, progressões harmónicas e texturas sonoras. A sua presença é particularmente evidente em faixas como “Cluster One”, “Wearing the Inside Out” e “Marooned”. “Wearing the Inside Out”, co-escrita por Wright, representa um momento particularmente significativo. É uma das poucas canções dos Pink Floyd onde Wright assume protagonismo vocal, e a sua atmosfera introspectiva encaixa perfeitamente na estética contemplativa do álbum.




Historicamente, Wright sempre desempenhou um papel fundamental na construção das paisagens sonoras dos Pink Floyd. O seu regresso pleno ajudou a reintroduzir uma dimensão atmosférica que muitos fãs associam ao período clássico da banda. E isso torna-se evidente ao longo de todo o disco e mais ainda na riqueza de outtakes que redundou em The Endless River (abre link).
Outro aspecto importante das sessões foi a participação de músicos adicionais. Guy Pratt, Jon Carin, Tim Renwick e Dick Parry contribuíram para o desenvolvimento das músicas, reforçando a abordagem colaborativa. Este processo colectivo contrastava com a dinâmica mais hierárquica de fases anteriores da banda. Em The Division Bell, a música nasce do diálogo entre os músicos, não da imposição de uma visão única.
O Som do Rio
Embora frequentemente descrito como um álbum sobre comunicação, The Division Bell não é um disco conceptual no sentido tradicional. Em vez disso, apresenta uma série de reflexões sobre relações humanas, distância e reconciliação. Polly Samson, colaboradora lírica fundamental do álbum, contribuiu para essa abordagem mais introspectiva. As letras evitam o tom político ou conceptual de trabalhos anteriores, privilegiando uma perspectiva mais pessoal. O resultado é um álbum que soa maduro e contemplativo, sem a urgência conceptual de discos anteriores.
O título The Division Bell foi sugerido por Douglas Adams, amigo de David Gilmour e autor de The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy. O termo refere-se ao sino que, no parlamento britânico, convoca os membros para uma votação — um momento que conduz inevitavelmente à divisão. A metáfora encaixa perfeitamente no espírito do álbum. The Division Bell é um disco que nasce após anos de separação, tensões e mudanças. Não procura resolver o passado, mas reflecti-lo com serenidade.
The Division Bell é um álbum onde o espaço desempenha um papel central. As músicas desenvolvem-se lentamente, muitas vezes partindo de atmosferas e texturas. Essa estética não é apenas uma escolha musical. É o reflexo directo do processo de gravação. Gravado num barco, longe da pressão dos estúdios tradicionais, The Division Bell tornou-se um disco de respiração lenta, contemplação e maturidade.
