A história de uma das guitarras mais icónicas de sempre, a lendária Black Strat de David Gilmour: dos specs originais, através das imensas modificações técnicas nos anos 70 e 80, ao leilão recorde.
Se há coisas consensuais na música, a reverência ao som de guitarra de David Gilmour é uma delas. Há quem acuse esse mesmo som de ter iniciado a descaracterização dos Pink Floyd e a fragmentação progressiva da banda mas, mesmo que isso seja verdade (que Gilmour se tenha sobreposto a Waters), não há como negar a beleza dos fraseados do guitarrista, a sua pujança melódica, e aquele som meloso de guitarra que é um dos mais distintos de sempre. Para gravar o seu álbum a solo de 2015, Rattle That Lock, Gilmour “ressuscitou” uma das mais lendárias guitarras de sempre: «A minha velha Stratocaster preta, foi a que utilizei mais».
Para começar a traçar a história dessa guitarra, a Black Strat é um modelo de ’69. Como é próprio acontecer naquilo que se transforma em mitologia, houve intervenção das moiras. Em 1970, Gilmour comprou, na Manny’s Music, em Nova Iorque, um modelo igual, que acabou por ser roubado. Assim, regressando o guitarrista ao mesmo local para nova compra, algumas semanas depois, impôs-se o destino. Como era padrão na Fender, o corpo é de alder e o braço em maple, com o headstock grande da época CBS.
Aliás, todos os specs da guitarra obedeciam ao cânone de produção em série dos modelos: pickups single coil Fender, do final dos anos 60; afinadores tipo “F”, switch de três posições; ponte sincronizada com a barra de tremolo. O acabamento Sunburst, com pickguard branco. Sim, Sunburst, mas já lá vamos.
70s
Gilmour usou a guitarra, ao vivo, pela primeira vez no Bath Festival, em Junho de 1970. Os Pink Floyd surgiram em palco, pelas três da madrugada, acompanhados por uma banda filarmónica e um coro de 12 elementos. Tocaram “Green Is The Colour”, “Careful With That Axe, Eugene”, “A Saucerful Of Secrets”, “Set The Controls For The Heart Of The Sun” e, pela primeira vez, tocaram a versão completa de “The Amazing Pudding” – o título provisório de “Atom Heart Mother”.
Em Outubro de 1971, ainda com o pickguard original branco, mas com o acabamento completamente preto (pintado na Manny’s), David Gilmour usou a guitarra no memorável filme “Live At Pompeii” (abre link). O potenciómetro de volume original também surgia trocado por um de Telecaster, com a acção suavizada por uma tira de borracha, para facilitar os seus icónicos “volume swells” (o efeito de violoncelo).
Em 1972, Gilmour perfurou a Black Strat com o intuito de instalar uma entrada XLR, de modo a atenuar o ruído do Fuzz Face, mas o resultado ficou aquém do esperado e o músico não tardou a preencher o buraco com madeira e a pintá-lo. As experiências no circuito também se intensificaram, ao ser instalado um mini switch de pickup, similar ao actual, que permitia ligar o pickup do braço em conjunto com o da ponte, conferindo-lhe um timbre aproximado ao de uma Telecaster e acabou por ser removido poucos meses depois, para tornar a ser instalado.
Gilmour trocou os afinadores de fábrica por uns Kluson, mas mais tarde acabaria mesmo por trocar o braço à guitarra. O braço original, em maple, deu lugar a um com escala em rosewood, de ’63, que estava instalado numa Strat ’59, que David possuía e que acabou por acolher o braço removido da Black Strat. Esse braço permaneceu e é com ele que a guitarra gravou The Dark Side Of The Moon (1973), Wish You Were Here (1975) e Animals (1977).
Nesta década, as alterações ao circuito eram constantes. Em ’73 foi instalado um humbucker Gibson PAF entre o pickup da ponte e o do meio, obrigando a escavar o corpo. Nesse processo, o pickguard original, das duas uma: ou foi modificado para acolher o novo pickup ou removido. O mini switch passou a servir como on/off ao humbucker. Ainda nesse ano, foi instalado todo o sistema de ponte de uma Bullet Strat de ’71. Então, em ’74, pickguard foi finalmente substituído pelo modelo de acrílico negro de folha única biselada, que se tornou a imagem de marca da guitarra e que permanece na guitarra até aos nossos dias. A “osmobiose” da Black Strat estava próxima do seu zénite.

A segunda metade da década de setenta viu menos alterações. Em ’76 foi instalado um DiMarzio FS-1 como pickup de ponte. Já em ’78, o braço com escala em rosewood foi substituído por um braço custom Jackson/Charvel, em maple, que estava personalizado com o logótipo da Fender. Essa foi a configuração que gravaria The Wall (1980), por exemplo. Depois das sessões de gravação desse tremendo álbum, o DiMarzio foi trocado por um Seymour Duncan SSL1C – foi esse pickup que fez a digressão promocional do disco, em 1980, e permanece na guitarra até hoje.
80’s
A década de 80 é fascinante porque é o período em que a Black Strat quase “desaparece” de cena para dar lugar às Fender Stratocaster 1957 Reissue (com pickups EMG) que definiram o som da era A Momentary Lapse of Reason (1987). Uma década de vida “curta” para a Black Strat, mas bem significativa.
A configuração herdada da digressão de “The Wall” ainda gravou o álbum The Final Cut (abre link). Aliás, esse foi o último álbum de Pink Floyd que a guitarra gravou, excluindo alguns overdubs aos outtakes de The Division Bell (1994) que acabaram por constituir aquilo que é The Endless River (abre link).
Logo após as sessões de estúdio do álbum, o braço da Black Strat foi trocado por um novo braço Charvel em maple, com 22 trastes, o logo Fender e afinadores Kluson. E depois, em ’83, foi a vez do sistema tremolo original da guitarra dar o seu lugar à sua modificação mais radical um sistema Kahler, com locking tuners. Isto implicou um tratamento severo. O novo sistema, devido às dimensões consideravelmente maiores que o original, obrigou a que um pedaço do corpo fosse removido para poder ser instalado.
Em ’84/’85 Gilmour passou a usar alavancas de tremolo com cerca de 4.25” e foi nessa altura que decidiu trocar as réstias do modelo de ’69 original. O switch de 3 posições deu lugar a um de 5. Pouco depois, a Black Strat foi doada ao Hard Rock Cafe e foi colocada no restaurante da cadeia em Dallas. Permaneceu aí durante uma década!
Quando David Gilmour a pediu de volta em 1997, a Black Strat vinha em péssimas condições, com bastantes marcas de desgaste e sem algum do seu hardware. Sob a supervisão do técnico Phil Taylor, o luthier Charlie Chandler reabilitou-a, instalando de novo o sistema tremolo original e preenchendo o pedaço que havia sido removido ao corpo para a instalação do sistema Kahler. O braço Charvel deu também lugar a um reissue de um Fender ’57 em maple.
Coming Back To Life
A configuração da recuperação da Black Strat feita por Charlie Chandler surgiu pela primeira vez em 2003. Foi assim que se apresentou no documentário da BBC sobre The Dark Side Of The Moon e como seguiu para a exibição parisiense sobre os Pink Floyd, onde permaneceu até ao início de 2004.
Quando, em 2005, se deu a reunião dos Pink Floyd no Live 8, a ideia inicial de Gilmour era usar a sua Strat vermelha, com os pickups EMG. Phil Taylor convenceu-o a experimentar a Black Strat nos ensaios; no momento em que a ligou, o som clássico dos Floyd ressurgiu e a decisão foi imediata.
A configuração de ’97 permanecia intacta e foi nesta altura que a Fender decidiu introduzir os modelos de assinatura de Gilmour (abre link), inspirados na lendária guitarra. Mas logo após o concerto de reunião, o braço tornou a ser trocado por um maple de curvatura “C”. A última alteração conhecida da Black Strat. E foi assim que Gilmour surpreendeu Roger Waters, surgindo na O2 Arena de Londres para tocar “Confortably Numb” com o antigo companheiro, fez os overdubs para “The Endless River” e gravou “Rattle That Lock”.
Como acto final nas mãos de David Gilmour, a guitarra foi leiloada na Christie’s em 2019. Estimava-se que chegasse aos 150 mil dólares, mas atingiu os 3,975 milhões, tornando-se, naquela data, a guitarra mais cara da história. Todo o valor arrecadado pela Black Strat foi doado por Gilmour à ClientEarth, transformando este ícone da música numa ferramenta de luta pela preservação do planeta. Já no dia 13 de Março de 2026, a Black Strat foi outra vez a leilão, na Christie’s, e tornou-se novamente a mais cara da história ao ser arrematada pela bagatela de 14,55 milhões de dólares.



Um pensamento sobre “A Black Strat de David Gilmour (1969 – 2019)”