“The Mastodon in the Room” expõe o luto, a genialidade e a tragédia de Brent Hinds. Uma análise ao documentário que confronta as sombras do passado e abre portas a “Marrow Deep”, o primeiro álbum dos Mastodon sem o guitarrista fundador.
Há perdas que não se encerram com a leitura de um comunicado de imprensa ou com a publicação de uma fotografia antiga nas redes sociais. Quando Brent Hinds faleceu tragicamente a 20 de Agosto de 2025, vítima de um acidente de motociclo — escassos meses após a sua saída da banda que ajudara a fundar —, a comunidade do metal e do rock progressivo ficou suspensa num sentimento amargo de choque e incompletude.
Em Julho de 2026, os três membros sobreviventes dos Mastodon — Brann Dailor, Troy Sanders e Bill Kelliher — quebraram o silêncio de forma monumental com a estreia de The Mastodon in the Room, uma curta-metragem e mini-documentário de 35 minutos que confronta, sem floreados nem revisionismo histórico, o fantasma, a genialidade e a tragédia do seu eterno companheiro de armas.
Rodado no mítico Plaza Theatre, em Atlanta, o filme coloca o trio de músicos no centro de uma sala de cinema escura. Em frente ao ecrã gigante, Dailor, Sanders e Kelliher assistem e reagem a vinte e cinco anos de imagens de arquivo raras, resgatadas das profundezas das primeiras digressões em carrinhas caindo aos bocadhos até à consagração mundial nos grandes palcos de festivais. O resultado é um exercício de luto público doloroso, mas profundamente humanizador.
O documentário abre com uma das sequências mais emotivas da história recente do rock: as imagens do concerto da banda na Alaska State Fair, realizado no dia imediatamente a seguir à notícia da morte de Hinds. Ver o baterista e vocalista Brann Dailor tentar processar a dor ao vivo, agarrado ao microfone perante uma multidão atónita, estabelece de imediato a fasquia emocional do filme. Não há aqui lugar para a frieza do distanciamento temporal; a ferida ainda sangra em cada fotograma.
Em vez de pintar uma hagiografia higienizada da vida do guitarrista, The Mastodon in the Room distingue-se pela coragem de abordar a dualidade de Brent Hinds. Por um lado, celebra-se o virtuosismo selvagem do músico cuja linguagem de guitarra — uma fusão improvável e electrizante de shredding, dedilhados de country-picking e riffs sludgy avassaladores — moldou a identidade de discos fraturantes como Leviathan e Blood Mountain. Por outro, o documentário expõe sem pudor a convivência sufocante com os seus comportamentos autodestrutivos e as espirais de adição que pontuaram a vida do grupo.
Um dos momentos de maior tensão retrospectiva relembra o grave incidente de 2007 em Las Vegas, onde uma altercação física deixou Hinds em coma com uma hemorragia cerebral grave. Esse episódio, revelam os músicos, embora tenha servido de catalisador para a criação da obra-prima conceptual Crack the Skye, marcou também o início de uma fissura invisível na dinâmica interna da banda que nunca voltaria a cicatrizar totalmente.
O Abismo da Ruptura e a Redenção do Futuro
A secção mais devastadora da curta-metragem debruça-se sobre os meses que antecederam o trágico acidente e a inevitável saída de Hinds no início de 2025. Numa das confissões mais cruas do filme, o baixista Troy Sanders recorda a última reunião formal do grupo. Sanders descreve como começou a ler uma lista de preocupações e condições para a continuidade do colectivo; a meio da leitura, Hinds levantou-se em silêncio, atravessou a porta e nunca mais voltou a ser visto vivo por nenhum dos seus companheiros.
A impossibilidade de fazer as pazes ou de fechar o ciclo com um “irmão” de longa data paira sobre o documentário como um peso sufocante. Contudo, The Mastodon in the Room não se afunda no desespero. O filme serve simultaneamente como um altar de despedida e como a ponte necessária para o novo capítulo dos Mastodon. A introdução do guitarrista Nick Johnston na formação e a apresentação do single tributo “Your Ghost Again” — que antecede o noveno álbum de estúdio, Marrow Deep — surgem não como uma substituição, mas como um acto de sobrevivência artística.
Ao fim de 35 minutos, quando as luzes do Plaza Theatre se acendem e as imagens de arquivo se calam, The Mastodon in the Room afirma-se como um dos documentos mais honestos alguma vez produzidos sobre a dor, o luto e a fraternidade no seio de uma banda de rock. Brent Hinds poderá ter deixado o palco prematuramente, mas o seu eco permanece intocável: uma força da natureza que recusou ser enquadrada e cuja sombra continuará a guiar os Mastodon em tudo o que vier a seguir.
Marrow Deep
Longe de ser apenas um olhar nostálgico ou um closure melancólico, The Mastodon in the Room cumpre o papel vital de preparar o terreno para a próxima metamorfose do grupo. Os Mastodon vão regressar aos discos a 28 de Agosto de 2026 com Marrow Deep, o seu nono álbum de estúdio e o primeiro em cinco anos. O longa duração assinala também um novo capítulo na história da banda, sendo o primeiro desde a morte do guitarrista e vocalista fundador Brent Hinds.
Marrow Deep adivinha-se como um registo denso e catártico na discografia da banda de Atlanta, onde a memória de Brent Hinds não é apagada, mas sim entalhada na própria medula do som dos Mastodon — a prova de que a única forma honesta de honrar um fantasma é continuar a tocar com a mesma urgência visceral que ele sempre exigiu. Tal como se pode perceber em The Mastodon in the Room.
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