Far From God

Far From God, Moonspell

Entre o erotismo vampírico de Stoker e a noite baudelariana, “Far From God” é a resposta triunfal dos Moonspell ao tempo: um tratado de maturidade, peso e escuridão sem tréguas.

Ao longo de trinta e cinco anos de uma viagem iniciática que colocou Portugal no Mappa Mundi da música pesada, cada álbum do colectivo funcionou como uma cicatriz exposta, uma escolha estética e um manifesto de sobrevivência. Contudo, o rescaldo de Hermitage (2021) e a aproximação das efemérides trintenárias de Wolfheart (1995) e Irreligious (1996) empurraram o grupo para uma crise existencial sem precedentes. Desgastados pelo peso do próprio legado e divididos quanto ao caminho a seguir, o espectro do fim deixou de ser um tabu para se tornar uma ameaça real. Esse foi um cenário que Fernando Ribeiro confessou nos primeiros dias de 2026.

O regresso com este décimo terceiro álbum de estúdio, editado no dia 3 de Julho de 2026 pela Napalm Records Julho, sob o título Far From God, mais que uma etapa na discografia dos lusitanos, é a proclamação solene de uma banda que reaprendeu a razão pela qual existe, resgatando o Metal Gótico da estagnação através da coragem e da sinceridade poética. Algo que alastra a escolhas concretas e físicas, à carne do disco.

Muito irão referir (ROMA INVERSA incluída) que Far From God aposta fortemente num estilo de gothic rock bastante directo e centrado na guitarra, que remete a eras clássicas como Irreligious ou Darkness & Hope, mas sem o excesso de teatralidade bombástica. Em vez de sucumbirem às tentações da produção moderna ultra-comprimida ou ao brilho artificial do consumo rápido, uma vez mais, os Moonspell entregaram as rédeas de produção a Jaime Gomez Arellano para procurar uma tridimensionalidade orgânica, cavernosa e luxuriante. Como a sede de um vampiro.

A magnífica pintura de capa assinada por Eliran Kantor — onde um beijo através da janela é ameaçado por uma lâmina suspensa — antecipa perfeitamente o território do LP: um espaço de fronteira onde a mortalidade, o erotismo e a culpa existencial se entrelaçam sob uma tensão sufocante.

Far From God, Victoriano & Pós Punk

A abertura do alinhamento faz-se com “Cross Your Heart”, uma declaração de intenções que surpreende o ouvinte ao fundir a urgência rítmica do blackgaze e do post-black metal com a elegância aristocrática dos The Mission, Sisters of Mercy e dos Fields of the Nephilim. Estruturas simples e directas, mas um cariz mais rocker ou apenas mais Irreligious, com um dedilhado de guitarra a impulsionar a propulsividade rítmica, tudo congregado subtilmente por linhas etéreas de teclados.

Contudo, sob a sua fachada antémica, a canção oculta um sentido road song amargo, inspirado nas flores e cruzes que pontilham as bermas do asfalto português. Como o próprio Fernando Ribeiro explica: «’Cross Your Heart’ é  uma canção de estrada, road song, directamente inspirada numa vida passada a viajar e a ver muita coisa a acontecer dia e noite, sem parar. Quando cruzamos Portugal e lá fora, vemos flores e cruzes nas bermas, sinais de que ali alguém morreu. Uma vida, muitas vidas, infelizmente jovens, tomados pela vertigem da velocidade, do álcool, da distração».

«Num país em que se morre tanto na estrada, esta canção é o pequeno alerta e a profunda homenagem a essa ‘guerra civil’ no asfalto onde nos tornamos a pior versão de nós mesmos. Musicalmente, continua a missão de pintar de gótico o nosso metal, com melodia e densidade», conclui o frontman dos Moonspell.

Seguida a esta homenagem trágica surge a faixa-título e primeiro single, o verdadeiro coração conceptual do álbum. «Faz alguns anos que perdi a minha fé nos vampiros de Hollywood, nos disfarces baratos das lojas de Halloween, os velhos e desonrados príncipes do Leste. Até que o realizador Robert Eggers nos trouxe ‘Nosferatu’ em 2024 e, de imediato, gravitei de volta para essa figura trágica e romântica que Bram Stoker imortalizou nas suas cartas de 1897», refere o primeiro de dois parágrafos epistolares, assinado por Fernando Ribeiro, no melhor estilo da obra literária mais reconhecida do autor irlandês.

«Escrevi “Far From God” de um só fôlego. Tornou-se a nossa primeira canção, em anos, a abordar a temática do amor vampírico que vence o tempo. Confesso que senti a necessidade de, juntamente com os MOONSPELL, resgatar a face do Gothic Metal, já que também nós estivemos na sua origem e temos uma palavra a dizer sobre a fusão destes estilos. Esta canção é a essência deste álbum: o seu título, o seu vídeo, a sua alma. E nela pode sentir-se o fogo da luz do dia a queimar a pele dos amantes proibido».

O single que nos introduziu o novo álbum e com o qual partilha o título remete-nos para trabalhos como Omega White (2012) ou Irreligious (1996), sem deixar de reconhecer a importância do anterior Hermitage (2021). Com uma estrutura descomplexadamente simples e orientada para o refrão, esta carta de amor vampírico deixa transparecer nostalgia pela new wave e pelo rock gótico da década de 80. A música ilustra precisamente essa pele a arder, declarando que é no momento de maior afastamento do divino que a intimidade humana atinge o seu auge.

O Covil (Dentro e Fora da Zona de Conforto)

A meio da jornada, o álbum desvela a sua faceta mais descarada e experimental. “Biblical” inicia com os teclados de Pedro Paixão a oferecerem texturas ricas e imersivas, em justaposição a uma linha de baixo de Aires, tão pegajosa e simples como massiva, dois componentes que progressivamente oferecem a frente de palco às guitarras e voz, até um refrão contagiante que evoca a ousadia de Sin/Pecado (1998), culminando nos primeiros e lancinantes guturais do álbum e nos solos melodiosamente sublimes de Ricardo Amorim.

Logo depois surge “The Great Wolf in the Sky”, quiçá a peça mais imponente e emocionalmente carregada do disco. Enriquecida pela participação especial da violinista espanhola Alicia Nurho, a canção é um requiem majestoso escrito em memória dos lobos (leia-se fãs) que acompanharam o percurso da banda e dedicado ao amigo Pedro Silva, que partiu antes de poder ouvir este álbum. Aqui, o contraste entre as orquestrações lúgubres e a força cataclísmica da secção rítmica cria um espaço de luto e nobreza.

“The Great Wolf in the Sky” é reveladora da maturidade musical dos Moonspell – muito para lá de questões de preferências pessoais. Nesta malha, os lobos que foram homens demonstram como dominam por completo a fusão entre o metal e o gótico que ajudaram a fundar no final dos anos 90. Uma canção lindíssima.

A segunda metade do LP aprofunda o diálogo com o romanticismo negro e a literatura europeia, tendo em Charles Baudelaire e nas suas Flores do Mal a principal bússola filosófica. “Your Promise of Light» resgata um temperamento de metal alternativo com arranjos de voz distorcidos e guitarras incisivas que remetem à recta final de Hermitage, servindo de preâmbulo para a obra-prima absoluta do disco: “For the Love of Mortals”.

Esta faixa, lenta e envolta em sintetizadores delicados que criam uma calidez desoladora, explora a dor de um amor impossível com uma intensidade dramática comparável aos melhores momentos de Extinct (2015). O poema lírico transforma-se numa meditação sobre o remorso e a finitude, onde o desejo e a morte dançam numa caminhada trágica.

A aproximação do desfecho devolve ao disco a sua agressividade primordial. “Our Freedom to Fall” arranca com uma dinâmica pulsante, desaguando num dos riffs mais pesados e graves de todo o álbum, sustentado por uma interpretação vocal cavernosa de Ribeiro.

Finalmente, “Reconquista” encerra Far From God com uma grandiosidade cinematográfica que abraça o metal contemporâneo e o doom, oferecendo o solo de guitarra mais virtuoso do LP e culminando no regresso abençoado à língua portuguesa. Ao entoar o mantra hipnótico «Under the moon, at the gates of heaven / Under the spell / Under the moon / Under the spell», a banda fecha o círculo da sua própria mitologia, evocando as sombras de Under the Moonspell trinta e dois anos depois.

Insinuante

Ao fim de oito malhas que recusam o ornamento inútil e o pompismo sinfónico, Far From God não é a caricatura de uma banda a tentar recuperar a juventude perdida; é a vitória da substância sobre o artifício. Num tempo em que o Metal Gótico se afundava na previsibilidade e no enfado baudelariano, os Moonspell ergueram um monumento de escuridão, erotismo e redenção. Adjectivos com manifestação física no corpo sónico do disco.

Pessoalmente, creio que a banda optou por imediatismo nos singles que escolheu para começar a revelar Far From God e que o álbum oculta composições muito mais insinuantes, crescendo a cada audição. Conquistando-nos aos poucos, como acontece no vampirismo e na sua fatal dentada. Quando as últimas notas de “Reconquista” se dissipam no silêncio, fica a certeza de que a alcateia lusa não só sobreviveu à sua noite mais escura, como voltou a esculpir o seu nome com fogo e sangue no altar da música pesada.

Disparem o álbum no player!

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