Das ruínas de um cisma à solidão criativa: Ricardo Dias dos Santos encerrou a saga de Papus em The Tarot of the Bohemians – Part II. O regresso dos Heavenwood num ensaio de resiliência, alquimia digital e a luta do homem contra a violência de existir.
Dez anos após a primeira incursão pelos mistérios herméticos de Gérard Encausse, os Heavenwood regressaram para fechar o ciclo dos Arcanos Maiores com The Tarot of the Bohemians – Part II. Contudo, o grande enigma deste registo não habita apenas nas cartas do ocultista francês, mas sim no parto doloroso que o rodeou.
Na sequência do gravíssimo acidente sofrido por Ricardo Dias dos Santos em 2022 e do subsequente colapso interno da banda — que culminou num amargo cisma institucional e no afastamento dos restantes membros —, o fundador tomou a decisão radical de conduzir o leme em absoluta solidão. Part II surge, assim, não apenas como o fecho de uma narrativa conceptual iniciada em 2016, mas como o testemunho dramático de um sobrevivente a erguer um templo sozinho sobre as ruínas de mais de três décadas de história.
Para compreender a magnitude do encerramento agora proposto, é imperativo regressar a 2016 e à arquitectura de The Tarot of the Bohemians – Part I. Editado pela Massacre Records, esse primeiro volume apresentou uns Heavenwood em pleno domínio da sua identidade gótico-sinfónica, traduzindo os primeiros onze Arcanos Maiores — de “The Jugler” a “The Hanged Man” — num metal atmosférico que reconciliava o peso do doom com arranjos de cordas opulentos.
Havia ali a pulsação orgânica de uma banda viva: as guitarras entrelaçadas de Ricardo Dias e Vítor Carvalho imprimiam uma dinâmica melódica rica, enquanto as participações especiais de nomes como Daniel Cardoso (Sirius, Anathema) na bateria conferiam uma flexibilidade e um atrito humano palpáveis à secção de ritmo. A colaboração pontual de Sandra Oliveira nas vozes femininas trazia o contraste lírico ideal para a visceralidade de Ricardo, fazendo de Part I não apenas um exercício de hermetismo literário, mas o retrato de um colectivo coeso a expandir a linguagem que inaugurara nos anos 90 com Diva e Swallow.





Foi precisamente esse alicerce orgânico que ruiu nos anos que se seguiram. Entre a paragem forçada pela pandemia, o grave acidente que quase custou a vida a Ricardo Dias dos Santos em 2022 e uma espiral de divergências irreconciliáveis com o management e os restantes elementos da banda, a sobrevivência dos Heavenwood transformou-se numa batalha legal e conceptual. As disputas pelo nome e pelo legado do grupo não apenas paralisaram a produção, como ditaram a debandada geral dos músicos que tinham dado corpo à primeira metade da obra.
Impassível perante a dissolução ao seu redor, Ricardo tomou para si a totalidade da empreitada, trancando-se em estúdio para dar continuidade aos Arcanos restantes. Uma decisão audaz e desesperada que redefiniu a natureza da Part II: a transição de uma criação colectiva para um monólogo obstinado.
No estúdio Lucky Cat, sob a supervisão solitária de Ricardo, e mais tarde na mistura e masterização de Niko HK Krauss nos Vamacara Studios, The Tarot of the Bohemians – Part II começou a ganhar a sua forma definitiva. A ambição de cobrir os restantes onze Arcanos Maiores — de “Death” a “The World” — exigia contudo um folhego orquestral e uma densidade sónica que um homem só, desprovido de um organismo vivo ao seu redor, dificilmente conseguiria articular pelos meios tradicionais.
É nesta génese claustrofóbica que a escuta atenta da Part II revela a sua primeira grande contradição: a transição de um Heavy Metal de carne e osso para uma obra de laboratório, onde a arquitectura sinfónica e a secção de ritmo deixam de responder ao atrito do ensaio para passarem a obedecer à precisão cirúrgica do silício.
Esta metamorfose processual não anula a força intrínseca da escrita. Malhas como “Death”, “Temperance” ou a fulgurante “The Lightning-Struck Tower”, tão ilustrativa de tudo o que aqui nos trouxe, provam que a inspiração de Ricardo Dias dos Santos permanece afiada, ostentando riffs de corte nobre e ganchos melódicos que honram o DNA dos Heavenwood. As composições são indiscutivelmente boas — há um sentido de dramatismo e uma construção harmónica que revelam a maturidade de um compositor veterano, que domina perfeitamente o género e o legado da sua banda, construindo com as suas mãos.
O que se sente neste The Tarot of the Bohemians – Part II é antes uma mudança de temperatura: a substituição do calor orgânico da sala de ensaio por uma produção altamente estilizada, quase cirúrgica. Ao abdicar do atrito e da imprevisibilidade da dinâmica de grupo, o som ganha em solenidade e polimento o que perde em rugosidade. Antes adquire uma simetria estanque, onde a precisão das linhas e o polimento dos arranjos sugerem a intervenção de uma alquimia digital moderna.
Ricardo constrói um ambiente denso e contemplativo, onde a grandiosidade sinfónica assume um carácter quase estático — a obra de um artesão que, na penumbra do estúdio, teve de moldar sozinho cada camada deste monumento sónico através de um ecossistema virtual convocado para preencher os vazios deixados pela ausência dos seus pares.
No balanço final de uma discografia iniciada há três décadas com o histórico Diva, The Tarot of the Bohemians – Part II ocupa um lugar tão fascinante quanto complexo. Ao completar o ciclo dos 22 Arcanos Maiores, Ricardo Dias dos Santos não entrega o álbum mais orgânico dos Heavenwood, mas assina aquele que é indiscutivelmente o seu acto de maior coragem.
Entre a catarse hermética de “The Judgement” e o encerramento em “The World”, este disco permanece como o testemunho de uma vontade inabalável de criar perante a adversidade e revela trunfos inesperados, como a descoberta da expressividade vocal de Ricardo, assumida nos bangers rockers como”The Stars” e “The Moon”. E, mantendo-nos nos corpos celestiais e na riqueza da prestação vocal de Ricardo Dias dos Santos, “The Sun” é o sumptuoso ex-libris de The Tarot of the Bohemians – Part II. Uma daquelas malhas cuja escuta se repete, uma e outra vez.
Mais do que uma simples sequela, a Part II é o retrato dramático de um artista que recusou a estagnação e o silêncio, preferindo erguer o seu próprio monumento sónico — ainda que para isso tenha tido de habitar a solidão do estúdio e aceitar os contornos frios do simulacro moderno.
