Antes das luzes, antes da plateia. A ROMA INVERSA estreia o vídeo que regista integralmente o último ensaio dos Why Angels Fall antes do regresso no festival Under The Doom.
Em 2025, os Why Angels Fall subiram ao palco do Under The Doom para o primeiro concerto em muitos anos. Para quem estava na plateia, aquilo começou quando as luzes se apagaram. Para a banda, começou muito antes. O que acontece antes de um concerto raramente chega ao público.
O palco, as luzes, o som, os músicos já posicionados: tudo isso é a superfície visível de um processo que começa muito antes, entre cabos, instrumentos, dúvidas, repetições e aquela estranha concentração que antecede os primeiros segundos de um espectáculo. No caso dos Why Angels Fall, esse instante tinha ainda uma dimensão particular. Não se tratava simplesmente de preparar um concerto; mas de um grupo de músicos a tentar descobrir como seria voltar a tocar juntos, anos depois.
O regresso tinha qualquer coisa de improvável. Durante anos, os Why Angels Fall foram uma banda que continuou a existir sobretudo na memória de quem os tinha ouvido, numa discografia curta, mas suficientemente singular para nunca se dissolver inteiramente no passado. Quando surgiu a oportunidade de regresso, não se sabia minimamente o que aquele reencontro significaria, apenas que as canções continuavam a existir e que, em algum momento, teria de se descobrir se ainda poderiam ser habitadas.
Será interessante regressar àquela noite, através do olhar de quem estava do outro lado do palco. O texto que se segue foi escrito por José Rodrigues, na reportagem para a LOUD!:
«O regresso dos WHY ANGELS FALL foi um dos momentos mais sentidos do festival e estiveram em palco como se o tempo tivesse finalmente alinhado as circunstâncias para lhes dar este espaço que mereciam. Durante anos, pairava no ar a ideia de que a banda era um nome esquecido, uma promessa interrompida; no UNDER THE DOOM, essa percepção ganhou outra forma. Aquilo que vimos foi um concerto carregado de emoção. Cada acorde parecia trazer consigo o peso dos silêncios prolongados, das ausências e da espera.
O Nero, vocalista, guitarrista e um dos timoneiros do grupo, atravessou recentemente uma fase pessoal difícil, e esse peso reflectiu-se em cada detalhe da sua presença. A voz vacilou nas primeiras notas, os olhos mantiveram-se muitas vezes fixos na plateia entre canções, e houve instantes em que precisou de respirar fundo antes de se lançar numa nova investida vocal — como se cada gesto fosse também um confronto íntimo. E sim, estava visivelmente emocionado, mas foi precisamente dessa fragilidade que nasceu a força do concerto.
Sempre ao seu lado, Paulo Basílio voltou a confirmar aquilo que alguns já sabiam há muito: é um dos músicos mais subvalorizados da cena nacional, dono de uma mestria essencial para a identidade da banda. O restante colectivo, reforçado por um novo elemento mais jovem — mas já surpreendentemente à altura do legado — mostrou-se bastante coeso e sólido, como se o tempo de ausência tivesse apenas consolidado a ligação entre todos.
Optando por um alinhamento que funcionou como uma espécie de viagem condensada pela primeira etapa criativa, os WHY ANGELS FALL revisitaram alguns dos temas mais marcantes do EP de estreia e do épico «The Unveiling». A actuação oscilou entre a lentidão densa e contemplativa que sempre marcou a sua estética e momentos mais luminosos e expansivos, criando um contraste que muito ajudou a este encontro. A voz e os instrumentos entrelaçavam-se, firmes, como quem transforma fragilidade em força.
Para quem acompanha a banda desde o início, foi como rever um velho amigo que regressa mudado, mas reconhecível. E para quem estava em palco, cada nota pareceu afirmar que este regresso não era circunstancial, mas inevitável — uma necessidade partilhada entre músicos e público. Para muitos, foi a confirmação de que os WHY ANGELS FALL continuam a ser uma peça importante do mosaico doom nacional.









Fotos de Joana Marçal Carriço.
Bastidores
Na ROMA INVERSA, voltamos ainda mais atrás. Ao momento em que o concerto ainda não existia, em que as canções eram apenas aquilo que sempre são antes de encontrarem uma plateia: música tocada por pessoas numa sala. O vídeo que publicamos agora é o registo integral do último ensaio antes dessa actuação no Under The Doom. Não é uma gravação de estúdio, nem pretende sê-lo. É precisamente o contrário: um documento daquele momento, com as suas imperfeições, a sua proximidade e a energia ainda por organizar. É a banda antes de se tornar concerto.
Sem edição ou reconstrução posterior: apenas a banda a tocar, naquele instante particularmente estranho em que ainda não sabe exactamente o que vai acontecer dali a algumas horas. Um ano depois, faz sentido regressar a esse lugar. Não apenas porque os Why Angels Fall voltaram a estar em palco, mas porque aquela noite acabou por confirmar algo que, durante demasiado tempo, existiu apenas como possibilidade: as canções ainda estavam ali. E a banda também.
Under The Doom 2026
Lisboa volta a abrir as portas ao peso e à contemplação quando o Under The Doom regressar ao LAV – Lisboa Ao Vivo nos dias 25 e 26 de Setembro de 2026. Mas desta vez há um detalhe que altera subtilmente o eixo de tudo: estamos perante a 10.ª edição. Se no primeiro anúncio, com os Evoken e Liv Kristine, já se intuía a dimensão do que estava a ser preparado, o segundo acto e o anúncio dos Sólstafir veio consolidar uma narrativa clara: o Under The Doom 2026 deixa de ser apenas um festival de nicho para se afirmar como um dos raros espaços onde o peso ainda é tratado com reverência e curadoria.
Os concertos do Under The Doom 2026 terão início às 19:00 na sexta-feira e às 18:00 no Sábado, mantendo o formato habitual do festival. Os bilhetes encontram-se disponíveis através da Unkind.pt e nos locais habituais, com o bilhete diário fixado nos €50 (dia 25) e €55 (dia 26) e o passe de dois dias a €100.

