A meio de uma transmutação, os My Dying Bride lideram um cartaz internacional e nacional no Under The Doom 2025. O festival, cada vez mais um baluarte do género, tem lugar nos dias 26 e 27 de Setembro, no Music Station, em Lisboa.
Lisboa respira um ar mais denso neste fim de Setembro. O Under The Doom 2025 aproxima-se e, uma vez mais, promete transformar o Music Station num santuário de sombras sónicas e emoções extremas. Dois dias em que o peso do passado e a urgência do presente se encontram num mesmo espaço, e onde os My Dying Bride assumem naturalmente o papel de epicentro: a banda britânica, com décadas de exploração do death/doom, encarna a melancolia, a elegância sombria e o romantismo trágico que fazem do género algo tão visceral e perene.
Quando os My Dying Bride subirem ao palco, provavelmente o ar do Music Station vai tremer sob o peso da história. E quando as bandas emergentes e nacionais sucederem-se, ficará claro que o Under The Doom 2025 é será um laboratório de experiências sonoras, um lugar onde o doom se mantém vivo, em constante transformação, sem perder a densidade e a aura de mistério que o tornaram indispensável. Este é um festival que não se limita a celebrar o género: ele encarna o doom, e quem lá estiver sairá marcado pelo peso e pela beleza de cada segundo.
Colossos de Dor
A expectativa para ver os britânicos ao vivo no Under The Doom 2025 não se resume à nostalgia; sendo uma confirmação de relevância e maturidade. Cada riff pesado, cada linha de guitarra melancólica, cada violino entrelaçado com vocais guturais e limpos funciona como um testemunho de que o doom não é apenas um estilo musical, mas uma experiência emocional.
Ao longo de mais de três décadas, o grupo consolidou um catálogo onde cada álbum é uma tapeçaria de dor e beleza, combinando violinos, guitarras densas e vocais carismáticos. Enquanto se esperam clássicos extraídos às entranhas de discos como Turn Loose the Swans ou The Angel and the Dark River, também se aguarda a interpretação de temas mais recentes, que mostram a banda a evoluir sem perder a essência. E o trabalho mais recente é A Mortal Binding.
Este regresso a Lisboa transporta uma enorme novidade, depois do carismático e tão idiossincrático frontman Aaron Stainthorpe se ter retirado das digressões com a banda (com o objectivo de manter o seu protagonismo apenas em estúdio). No seu lugar tem actuado Mikko Kotamäki e, a avaliar pelas intenções da banda e, principalmente, do guitarrista fundador Andrew Craighan em gravar novas malhas com o finlandês, a intensidade do set no Under The Doom 2025 promete envolver o público num manto de dor e beleza, criando momentos de quase catarses compartilhadas.
Lamento Norte
Não admira que os finlandeses Swallow the Sun também se apresentem em Lisboa. A “primeira” banda de Kotamäki tem acompanhado os My Dying Bride em digressão e, ao Under The Doom 2025, traz consigo uma melancolia densa, feita de camadas de guitarras e passagens acústicas que parecem flutuar sobre o peso do death/doom. O mais recente Shining não se limita a manter a tradição da banda: explora contrastes, oscila entre a brutalidade e o lirismo, e faz do silêncio e da pausa tão poderoso quanto a parede sonora que constrói. O seu concerto em Lisboa promete ser uma jornada emocional, um contraponto equilibrado à teatralidade britânica.
Também da Escandinávia, os dinamarqueses Saturnus reforçam esta aura épica. Com longos intervalos entre álbuns — o mais recente The Storm Within surge em 2023, após uma década de espera —, a banda mantém-se como referência do doom gótico, oferecendo uma sonoridade grandiosa e introspectiva. A voz grave de Thomas A.G. Jensen e os arranjos densos das guitarras criam momentos que oscilam entre a intimidade quase confidencial e o peso de uma tempestade anunciada, encaixando-se perfeitamente no fio narrativo do Under The Doom 2025, que mistura introspecção e monumentalidade.
Os Antimatter, liderados por Mick Moss (há muito sem Duncan Patterson), introduzem uma pausa contemplativa no fluxo emocional, com rock gótico e dark-rock introspectivo, permitindo ao público respirar entre as camadas de melancolia extrema. Já os Clouds, projecto internacional com raízes na Roménia e no Reino Unido, ampliam ainda mais a paleta sonora: death/doom com texturas cinematográficas que elevam o suspense e a grande escala emocional.
Pranto Sul
Entre estes colossos do doom, há espaço para o extremo e o experimental. Forgotten Tomb, da Itália, continua a explorar as margens depressivas do blackened doom. Com Nightfloating, lançado em 2024, a banda reafirma a capacidade de transformar sofrimento, desespero e introspecção em música carregada de intensidade emocional. Também italianos, os Invernoir trazem um gothic doom/death moderno, respeitando a tradição britânica mas acrescentando nuances contemporâneas que dão frescor ao cartaz do Under The Doom 2025. TodoMal, de Espanha, oferecem uma fusão de doom atmosférico com space-rock, criando longos desenvolvimentos sonoros hipnóticos.
Lisboa não esquece a sua própria cena. Os elusivos Why Angels Fall combinam doom e death atmosférico com abordagens filosóficas e teológicas, mantendo-se como uma referência tão obscura como sólida no underground nacional. Os Earth Drive apresentam heavy psych/doom com riffs hipnóticos, voz feminina marcante e passagens quase ritualísticas, provando que Portugal tem talento capaz de dialogar com o que se ouve de mais pesado na Europa. Reforçando o cariz eclético do Under The Doom 2025, os Ethereal também se apresentam após o regresso com Downfall, reforçando a qualidade e diversidade da produção nacional dentro do doom atmosférico e gótico.
Info
Do ponto de vista prático, o Under The Doom 2025 que terá lugar nos próximos dias 26 e 27 de Setembro, na Music Station, em Lisboa, apresenta os seguintes preços: bilhete diário €50, passe de dois dias €95 e aquisição pode ser feita através da Unkind.pt.
O Music Station oferece um espaço intimista, que se adapta à densidade emocional do cartaz e permite uma proximidade que fortalece a experiência coletiva. O Under The Doom 2025 promete continuar a ser um espaço de encontro para fãs, veteranos ou recém-chegados, garantindo que cada presença é simultaneamente uma imersão e uma partilha.
Em última instância, o Under The Doom 2025 reafirma-se como um ponto de referência para o doom europeu, e especialmente para o português. Lisboa torna-se palco de uma experiência que vai além do som: é sobre atmosfera, emoção e intensidade. Cada riff, cada pausa, cada vocalizo transmite uma narrativa, criando momentos de comunhão e reflexão. É o tipo de festival em que a música não se ouve apenas com os ouvidos, mas com todo o corpo, toda a memória e toda a expectativa.



