O segundo dia do Under The Doom 2026 trouxe mais público, regressos, estreias e nomes históricos, entre Exhausted, Atone, Liv Kristine, Evoken e Draconian.
Lisboa voltou a abrir as portas ao peso e à contemplação quando o Under The Doom regressou ao LAV – Lisboa Ao Vivo nos dias 25 e 26 de Setembro de 2026. Mas desta vez havia um detalhe que alterava subtilmente o eixo de tudo: estávamos perante a 10.ª edição. Um número redondo que não pedia celebração — exigia afirmação. Assim se definiu um cartaz que a promotora NotreDame Productions assumiu como um dos mais fortes da sua história.
Se o primeiro dia do Under The Doom 2026 tinha começado por construir lentamente a sua intensidade, o segundo encontrou desde cedo uma sala mais cheia e uma massa humana significativamente maior no LAV – Lisboa Ao Vivo. As varandas, que no dia anterior tinham permanecido parcialmente inacessíveis, estavam agora totalmente abertas, e essa diferença não se sentiu apenas na quantidade de público. Também o som pareceu beneficiar da maior densidade da sala: mais espesso, com graves mais sólidos e uma capacidade de atravessar o espaço com maior impacto, chegando às zonas superiores e mais recuadas com uma consistência que nem sempre tinha existido na véspera.
Havia, além disso, uma espécie de equilíbrio curioso entre passado e futuro. O segundo dia do Under The Doom 2026 juntava o regresso dos Exhausted às lides, depois de uma longa ausência, à estreia dos Atone nos palcos e, sobretudo, ao primeiro concerto de sempre dos Evoken em território português. Pelo caminho, sentiu-se ainda a pungente nostalgia de voltar a ouvir “A Hamlet for a Slothful Vassal” do Theatre Of Tragedy na voz de Liv Kristine, vinte e tantos anos depois de a canção ter ajudado a definir uma determinada ideia de metal gótico e teatral. Era, portanto, um dia feito tanto de memórias como de primeiras vezes.
A assistência foi crescendo ao longo da tarde, até atingir o seu pico durante o concerto de Liv Kristine e, sobretudo, dos Evoken, antes de voltar a ganhar uma dimensão muito considerável para os Draconian. O próprio desenho do cartaz ajudava a explicar essa flutuação: havia bandas com uma relação muito forte com a história do metal extremo e gótico, outras que representavam uma geração mais recente da cena nacional e, finalmente, uma estreia há muito aguardada por uma parcela mais específica do público.
O Under The Doom 2026 conseguia, assim, fazer caber no mesmo dia diferentes formas de relação com o passado — da memória afectiva à reverência — sem deixar de abrir espaço para aquilo que ainda estava a começar.
Depois de um primeiro dia marcado por Thrownness, Thragedium, ANZV, Ereb Altor, Schammasch e Process Of Guilt, o sábado apresentava um cartaz igualmente denso, mas com uma dinâmica diferente. E se a véspera tinha encontrado parte da sua força na construção progressiva dos concertos, este segundo dia haveria de mostrar que o festival também sabia trabalhar com a expectativa, a nostalgia e a estreia. No espaço de algumas horas, haveria bandas a regressar, outras a estrear-se e uma actuação que, por si só, já justificaria a viagem de quem esperava há décadas por ela. Concretamente, desde 1994 e da ominosa demo Shades Of Night Descending…
EXHAUSTED
O segundo dia do Under The Doom 2026 começou com um regresso dentro do regresso. Depois de quase três décadas afastados dos palcos, os Exhausted voltaram finalmente à actividade com The End Of The Sun Season (abre a review da ROMA INVERSA), um trabalho que recupera a linguagem death/doom que a banda explorava nos anos 90, mas que também revela algumas mudanças importantes relativamente à demo Frozen Embrace. E essas mudanças ficaram particularmente claras logo na abertura do concerto.
“Overflowing Forest” surgiu numa versão reduzida e electrificada, sem os didjeridoos, flautas e pianos da composição original. Aquilo que na demo ajudava a aproximar os Exhausted de territórios mais exóticos, entre o death/doom do Triunvirato da Peaceville e referências como Dead Can Dance, desapareceu para dar lugar a uma introdução mais directa e pesada. Foi quase uma declaração de intenções: o regresso dos Exhausted parece ter deixado alguns desses elementos para trás para se concentrar naquilo que sempre constituiu o seu núcleo. “Falling Sparrow”, “The White Winter”, “Silent State” e “Final Chapter” percorreram depois o alinhamento de The End Of The Sun Season, revelando uma banda surpreendentemente solta para quem estava a regressar aos palcos depois de tanto tempo.
Houve um percalço logo nas primeiras notas, quando o noise gate de Hugo Marques decidiu não colaborar, mas o nervosismo desapareceu rapidamente. Os quatro músicos estavam muito bem ligados e deram aos temas um swing mais descontraído do que aquele que encontramos na gravação, tornando-os mais fluidos sem lhes retirar peso. Essa fluidez foi particularmente evidente nas harmonizações entre as duas guitarras e o baixo, mas o verdadeiro eixo da prestação estava na bateria de Ricardo Silva. A sua interpretação foi soberba, dando movimento a uma música que poderia facilmente cair numa rigidez excessiva.
Em “The White Winter”, por exemplo, as linhas de guitarra cruzavam-se com uma naturalidade que tornava evidente a solidez da banda, enquanto “Silent State” recuperava aquela combinação de melancolia, lentidão e peso que coloca os Exhausted directamente na linhagem do death/doom clássico. “Final Chapter”, por sua vez, fechou o percurso pelo novo disco em crescendo, funcionando tão bem como clímax como qualquer um dos temas mais pesados. O alinhamento ainda reservava uma surpresa: um tema novo que fará parte do próximo álbum, novamente gravado por Paulo Basílio, nos Buzzroom Studios.






Foi uma boa forma de terminar, porque impediu que o concerto ficasse reduzido a uma operação de arqueologia. Os Exhausted não estavam ali apenas para recuperar uma história interrompida; estavam já a preparar o capítulo seguinte. E foi precisamente essa a melhor impressão que deixaram. Apesar da ausência prolongada dos palcos e da responsabilidade de abrir o segundo dia, tocaram com a segurança de uma banda que sabe exactamente onde quer chegar. Finalmente, o Under The Doom 2026 trazia ao palco o death/doom na sua forma mais clássica e celebrada — não como peça de museu, mas como uma linguagem que os Exhausted parecem ter recuperado com surpreendente naturalidade.
ATONE
Os Atone estavam a estrear-se ao vivo no Under The Doom 2026, e fizeram-no com uma precisão quase desconcertante. Uma introdução, “Asylum For The Unmoored”, “Eidolon’s Remnant” e “Rebirth In Despair” compuseram um alinhamento retirado do álbum Rebirth In Despair (abre link para escuta do disco), e a banda executou-o de forma irrepreensível. O problema — ou talvez a característica mais deliberada da proposta — esteve precisamente nessa perfeição.
Muito próximos do funeral doom na forma como trabalham a lentidão, o peso e os espaços entre os sons, os Atone apresentaram uma actuação fortemente ancorada em backing tracks e metrónomo. Tudo parecia acontecer exactamente no lugar previsto, sem uma aresta fora do sítio, sem uma oscilação que ameaçasse a estrutura. As passagens melódicas, mesmo nos momentos mais deslumbrantes (e há imensos), nunca serviram para libertar a música da sua contenção. Pelo contrário: foram absorvidas pela mesma disciplina quase espartana que dominou o resto da actuação. Essa ausência de picos de intensidade ou de verdadeira descarga emocional acabou por tornar o concerto algo rectilíneo, pelo menos na sua dimensão mais imediata.
A sala estava atenta, a música tinha peso e os Atone demonstravam um domínio absoluto daquilo que estavam a fazer, mas faltava a sensação de urgência ou de transformação que faz com que uma actuação deixe de ser apenas a reprodução rigorosa de uma visão de estúdio.E talvez seja precisamente aí que a proposta comece a fazer sentido. Rebirth In Despair parte da ideia de uma humanidade presa num ciclo de criação, ilusão, decadência e renascimento, construindo a própria prisão enquanto procura escapar-lhe.
Se a música dos Atone é igualmente incapaz de se libertar da sua própria arquitectura, essa contenção pode ser mais do que uma opção estética: pode ser a própria experiência que querem provocar. A emoção não é negada, mas mantida à distância, comprimida até se transformar numa espécie de claustrofobia interna. Como primeira experiência de palco, foi uma demonstração impressionante de controlo. Os Atone mostraram que conseguem transportar para o palco a visão hermética de Rebirth In Despair com uma precisão absoluta.
MARCHE FUNÈBRE
Formados em Mechelen, na Bélgica, em 2008, os Marche Funèbre construíram ao longo dos anos uma discografia profundamente enraizada no death/doom dos primeiros anos da década de 90, mas suficientemente aberta para incorporar elementos góticos, black metal, melodias mais tradicionais e uma utilização muito variada das vozes. No Under The Doom 2026, atravessaram um alinhamento que percorreu diferentes momentos da sua carreira.
“In A Haze” e “Enter Emptiness” vieram de After The Storm, de 2024, enquanto “When All Is Said” pertence a Einderlicht, de 2020, e “The Dark Corner” recuou até To Drown, o primeiro longa-duração da banda, editado em 2011. O fecho com “Einderlicht” completou esse percurso pela evolução dos belgas, mostrando uma linguagem que manteve as fundações no death/doom mas foi ganhando espaço para melodias, contrastes vocais e diferentes formas de trabalhar a dinâmica. “When All Is Said”, com mais de onze minutos, é particularmente representativa dessa abordagem: começa na contenção e na melancolia, abre espaço para as melodias e vozes limpas e vai acumulando tensão até regressar ao peso.
“In A Haze” e “Enter Emptiness” mostraram a formulação mais recente dos Marche Funèbre. O primeiro abre After The Storm com uma combinação de peso, melodia e diferentes níveis de intensidade, enquanto “Enter Emptiness” mergulha numa atmosfera mais desolada, trabalhando o cansaço e a perda como matéria emocional. “The Dark Corner”, por seu lado, recordou que esta relação entre peso e melodismo está presente desde os primeiros tempos da banda. Com mais de dez minutos, o tema transforma uma imagem de isolamento numa composição que não abdica de um sentido melódico bastante forte.














Mas havia um elemento visual que contrariava deliciosamente a própria natureza da música. Os Marche Funèbre estavam super sorridentes. Não se tratava apenas daqueles sorrisos protocolares entre temas: havia uma disposição genuinamente descontraída, quase contagiante, que contrastava com uma música construída tantas vezes à volta de perda, isolamento, sofrimento e morte. Quem disse que temos de estar de testa franzida num concerto de doom? O contraste não retirou peso à actuação; pelo contrário, tornou-a mais humana.
E “Einderlicht” foi uma excelente forma de fechar o concerto. O tema, que dá título ao álbum de 2020 e foi a primeira composição dos Marche Funèbre cantada em neerlandês, reúne boa parte dos elementos que definem a banda: melodismo, teatralidade, contrastes vocais e uma progressão que conduz a música da contenção até uma intensidade mais expansiva. Depois de atravessar mais de uma década de repertório, foi também uma forma natural de terminar uma actuação que mostrou como o death/doom pode permanecer profundamente ligado às suas raízes sem se transformar numa peça de museu.
LIV KRISTINE
Liv Kristine foi a encarnação de outra dimensão do Under The Doom 2026: a do gótico e atmosférico, aquela em que o peso também pode existir na delicadeza, na melodia e numa voz capaz de transformar uma sala inteira. A norueguesa regressava a Lisboa acompanhada por uma nova banda e por Amor Vincit Omnia, mas trazia consigo uma história que atravessa mais de três décadas, desde os Theatre of Tragedy até aos Leaves’ Eyes e à carreira a solo. A antecipação ao festival já a apresentava como uma das vozes mais marcantes do metal gótico e sinfónico europeu, e o alinhamento acabaria por justificar plenamente essa dimensão histórica.
“Amor Vincit Omnia” abriu o concerto, seguida por “Machine”, antes de “Hold It With Your Life”, “River Of Diamonds” e “Into Your Light” conduzirem a actuação por diferentes capítulos da carreira de Kristine. Havia, desde logo, uma divisão interessante entre presente e memória: cinco temas associados ao seu percurso mais recente e cinco ligados ao repertório dos Theatre of Tragedy e Leaves’ Eyes. A setlist de Lisboa confirma essa construção, com “Machine”, “On Whom The Moon Doth Shine”, “Der Tanz Der Schatten” e “A Hamlet For A Slothful Vassal” a ocuparem precisamente a parte mais nostálgica do concerto.
No início, porém, a voz parecia ainda procurar o seu espaço dentro da sala. Foi sensivelmente a partir de “Ode To Life Pristine” que tudo se fundiu. O som encaixou finalmente no LAV, abriu-se uma atmosfera mais etérea e onírica e, de repente, a voz de Liv encontrou o enquadramento perfeito para existir acima da instrumentação. Tornou-se tudo mais quente, mais próximo, mais emocional. Liv Kristine transformou-se, naquele momento, em Liv Pristine — e não há muito mais que seja necessário dizer sobre a forma como aquela canção funcionou ao vivo, com os bombos e tarolas pejados de reverb a ressoarem languidamente sobre os synths.










É particularmente significativo que tenha sido precisamente “Ode To Life Pristine” a produzir essa mudança. No álbum, é uma das composições mais contidas e vulneráveis de Amor Vincit Omnia, construída com espaço suficiente para que a voz permaneça no centro. Um dos momentos em que a cantora expõe a sua faceta mais vulnerável, em destaque pela forma como as harmonias vocais e a progressão lenta lhe conferem uma intensidade emocional sem necessidade de recorrer a um grande aparato. A própria Liv explicou que vê a canção como uma espécie de ode à vida tal como ela é: por vezes quebrada, por vezes bela, mas sempre feita dessa coexistência.
Foi também nesse momento que O Under The Doom 2026 percebeu aquilo que continua a tornar a voz de Kristine tão singular, com a sua extensão de três oitavas e o seu registo que permanece simultaneamente delicado, doce e dramático, sem depender de uma exibição permanente de virtuosismo. Ao vivo, isso tornou-se ainda mais evidente: a voz continua intacta, mas não parece interessada em provar que continua intacta. Há uma segurança diferente, uma maturidade na forma como administra o instrumento e, sobretudo, uma capacidade de fazer com que a fragilidade aparente seja precisamente uma das suas maiores forças.
Essa dimensão estava já inscrita na história que a trouxe até aqui. Quando Liv Kristine surgiu nos Theatre of Tragedy, o contraste entre a sua voz soprano e os growls de Raymond Rohonyi ajudou a estabelecer a fórmula que viria a ser conhecida como beauty and the beast vocals, posteriormente apropriada por uma enorme quantidade de bandas de gothic, doom e symphonic metal.
O primeiro álbum dos Theatre of Tragedy, de 1995, tornou-se uma peça fundamental dessa transformação, colocando lado a lado riffs pesados, atmosferas sombrias, vocalizações extremas e uma voz que parecia pertencer a outro universo. Liv não era simplesmente o soprano colocado sobre o peso; era o elemento que transformava a tensão entre os dois mundos numa linguagem própria.
É por isso que “Machine” teve um efeito tão imediato, ainda que fugaz. A canção pertence a uma fase diferente dos Theatre of Tragedy, quando a banda já se afastava da brutalidade dos primeiros trabalhos e começava a incorporar electrónica, ambientes industriais e uma abordagem muito mais experimental. “Into Your Light”, dos Leaves’ Eyes, acrescentou uma segunda camada a essa retrospectiva. A canção pertence a uma fase posterior da carreira, quando a música de Kristine se aproximava mais do metal sinfónico e folk, e funcionou como uma ponte entre o passado dos Theatre of Tragedy e a carreira que viria a desenvolver depois.
Já “River Of Diamonds”, do álbum de 2023 com o mesmo nome, representava uma etapa muito mais recente: o regresso a uma escrita pessoal e a uma sonoridade em que a melancolia e a voz voltam a ocupar o centro da composição.









Mas foi com os Theatre of Tragedy que a sala pareceu perder definitivamente a noção do tempo. “On Whom The Moon Doth Shine”, “Der Tanz Der Schatten” e, finalmente, “A Hamlet For A Slothful Vassal” sucederam-se com uma eficácia quase cruel. O concerto, que até então parecia ter ainda muito tempo pela frente, começou de repente a desaparecer. É impressionante o poder da nostalgia: bastam os primeiros acordes de uma canção para que vinte ou trinta anos deixem de ser uma distância cronológica e passem a ser uma sensação física.
“A Hamlet For A Slothful Vassal” foi particularmente forte nesse sentido. Encerrou a actuação e deixou no ar uma sensação estranha de insuficiência: não porque o concerto tivesse sido pobre ou o alinhamento escasso, mas precisamente porque, naquele ponto, parecia ter acabado demasiado depressa. Dez canções tinham atravessado várias décadas de carreira, mas a sucessão final dos clássicos fez com que o relógio deixasse de funcionar como medida útil. O público não estava apenas a ouvir canções antigas; estava a reencontrar versões anteriores de si próprio.
E talvez seja essa a força particular de Liv Kristine. A voz continua etérea, cristalina, doce e poderosa, mas não é apenas a voz que permanece. Permanece aquilo que ela significou quando apareceu num género ainda em transformação: a possibilidade de colocar beleza dentro da escuridão sem que uma anulasse a outra. Trinta anos depois, essa tensão continua intacta. A experiência de Liv Kristine em 2026, é necessário frisar, distancia-se de uma simples operação de nostalgia.
O passado está obviamente presente — e seria absurdo fingir o contrário —, mas a cantora não parece viver exclusivamente dele e o concerto no Under The Doom 2026 mostrou uma artista que continua a procurar novas formas de trabalhar a sua voz e a sua sensibilidade Liv Kristine, Liv Pristine.
EVOKEN
Se os Evoken são donos de uma sonoridade algo transcendental, em Lisboa foram também a sua manifestação mais brutalmente física. Há bandas capazes de construir atmosfera, outras capazes de produzir peso, outras ainda capazes de criar aquela espécie de suspensão temporal que o doom exige. Os Evoken fizeram tudo isso ao mesmo tempo, mas acrescentaram uma coisa que poucas conseguiram durante os dois dias do Under The Doom 2026: uma sensação quase palpável de abismo.
O concerto abriu com “Matins” do novo álbum (e “Compline” seria o outro tema de Mendacium), antes de mergulhar no repertório que construiu a reputação dos norte-americanos ao longo de três décadas. Malhões como “In Pestilence, Burning”, de Quietus, e “The Unechoing Dread”, de Atra Mors, fizeram parte do alinhamento, num percurso que atravessou diferentes momentos da discografia sem nunca deixar de parecer uma única massa sonora. Não me recordo com segurança de todo o alinhamento — e prefiro não preencher as lacunas à força —, mas recordo-me perfeitamente da sensação produzida pela sequência das canções.
O som foi avassalador. Não apenas pesado: avassalador em volume, atmosfera e poder bruto. Os Evoken não pareceram interessados em criar uma parede de som no sentido habitual da expressão; parecia antes que estavam a escavar uma qualquer cavidade subterrânea dentro do LAV e a obrigar a sala inteira a entrar lá dentro. A tradição do funeral doom depende muito dessa capacidade para transformar lentidão em escala, para fazer com que cada riff pareça possuir uma massa física desproporcionada relativamente ao número de músicos que o executam. No Under The Doom 2026, essa relação entre tempo, volume e espaço funcionou de forma quase perfeita.
É uma característica que está no centro da própria linguagem dos Evoken desde Quietus, de 2001. “In Pestilence, Burning”, com os seus longos desenvolvimentos, riffs rastejantes e os growls cavernosos de John Paradiso, é uma boa demonstração de como a banda sempre soube transformar estruturas extensas em matéria opressiva. As composições daquele período já ultrapassavam regularmente os oito ou dez minutos, utilizando linhas melódicas desoladas e uma instrumentação que parece avançar a uma velocidade geológica.
Com Antithesis of Light, de 2005 (Lisboa ouviu o tema-título), essa linguagem atingiu uma das suas formas mais extremas. O álbum foi descrito repetidamente como um exercício de claustrofobia, escuridão e peso quase intransponíveis, com composições que se aproximam ou ultrapassam os dez minutos e que transformam a lentidão numa espécie de espaço físico. É precisamente aí que a comparação com um abismo deixa de ser apenas uma imagem bonita.
A música dos Evoken não descreve a escuridão: constrói-a. “The Unechoing Dread”, de Atra Mors, levou essa capacidade para outra dimensão. A canção vive numa zona intermédia entre ambientes espectrais, massas sonoras monumentais, construções quase blackened e momentos em que a música parece retirar o chão debaixo dos pés. O efeito é cumulativo: a música vai retirando ar à sala até que aquilo que inicialmente parecia simplesmente alto se transforma numa experiência corporal.
John Paradiso teve ainda de lidar com um problema que poderia ter comprometido seriamente uma actuação desta natureza: a sua pedalboard ficou, aparentemente, retida no aeroporto. Isso trouxe, acima de tudo, problemas de afinação que foram particularmente perceptíveis nas guitarras, mas a resposta de Paradiso foi quase tão impressionante quanto a própria música. Em vez de deixar que o problema interrompesse o fluxo do concerto, foi ajustando a execução em tempo real, percorrendo repetidamente o fretboard à procura da entoação correcta e encontrando dentro da própria execução a forma de compensar aquilo que o equipamento não estava a permitir fazer.
Num concerto normal, seria uma contingência técnica. Nos Evoken, acabou por se tornar quase parte da matéria da actuação. Havia qualquer coisa de brutalmente humana em ver Paradiso a lutar com a afinação enquanto a banda continuava a construir aquela massa sonora colossal. A perfeição mecânica teria sido, aliás, quase contraditória com uma música que parece tão interessada na erosão, na decomposição e na sensação de que tudo pode começar a desmoronar a qualquer momento. Até porque as dissonâncias que a banda promove intencionalmente tornaram-se ainda mais extremas.
Do outro lado do palco, Randy Cavanaugh tinha um som esplendoroso. Particularmente nos dedilhados limpos e cristalinos, que funcionavam como pequenas superfícies de luz no interior daquela massa de distorção. E havia também o instrumento: uma Telecaster Custom de corpo preto, quase uma San Dimas Style 2 (Charvel), equipada com Floyd Rose e um braço de Stratocaster em roasted maple com headstock invertido. Cavanaugh usou os momentos limpos não como simples intervalos entre as partes pesadas; mas como precisamente aquilo que permitia medir a dimensão do peso quando este regressava.






É uma das grandes qualidades dos Evoken. Mesmo quando parecem estar a tocar apenas para esmagar, existe uma enorme atenção à textura. A música não é uma sucessão indiferenciada de riffs lentos. Há espaço, há silêncio relativo, há guitarras limpas, há teclados e há pequenas alterações de densidade que fazem com que o peso nunca seja uma coisa estática.
Em Antithesis of Light, por exemplo, as passagens minimalistas e os momentos em que as guitarras recuam para deixar outras camadas emergir são fundamentais para que os regressos à massa total tenham o impacto que têm. Isso tornou estranha a relação da sala com o concerto. Durante uma parte considerável da actuação, o público permaneceu imóvel, absorvido por uma música que não oferece exactamente entretenimento no sentido convencional da palavra.
E foi então que a imagem de Nietzsche se tornou inevitável. Olhar para o abismo e perceber que ele olha de volta é uma das metáforas mais persistentes da modernidade, mas os Evoken conseguem transformá-la em som sem precisarem de a explicar. O que estava diante de nós parecia um poço sem fundo de niilismo, não como pose ou como simples celebração da negatividade, mas como ausência de qualquer superfície onde agarrar. E havia qualquer coisa de Lovecraftiano nessa escala: não propriamente monstros ou referências literais aos Elder Ones, mas a sensação de contemplar uma coisa demasiado antiga, demasiado vasta e demasiado indiferente para caber na experiência humana.
Os Evoken fizeram tudo isso no Under The Doom 2026. E fizeram-no com uma autoridade que parecia pertencer a outro tempo. Não havia revivalismo, não havia necessidade de provar a importância histórica da banda, nem sequer uma tentativa de transformar cada clássico num momento de celebração. Havia simplesmente uma formação veterana a tocar funeral doom com uma convicção quase assustadora, fazendo com que uma sala cheia de pessoas ficasse parada diante de uma massa de som que parecia não ter fim. Foi o melhor concerto do Under The Doom 2026.
DRACONIAN
Os Draconian encerravam o Under The Doom 2026 perante uma sala novamente muito composta, e era particularmente evidente que uma parte significativa do público tinha ido ao festival para os ver. A assistência tinha crescido ao longo do segundo dia, atingindo a sua maior dimensão durante os concertos de Liv Kristine e, sobretudo, dos Evoken, mas mantinha-se muito expressiva no momento em que os suecos subiram ao palco. Havia, portanto, uma expectativa específica em torno do headliner que não dependia apenas da lotação acumulada ao longo do dia: os Draconian tinham ali um público que os esperava.
E foi com os Draconian que o Under The Doom 2026 chegou ao seu ponto de maior ebulição. Afinal, não se tratava apenas do regresso de uma banda com um lugar consolidado no universo do gothic doom: era também o reencontro com Lisa Johansson, de volta à formação depois de uma ausência prolongada, e a apresentação de In Somnolent Ruin, o oitavo álbum de estúdio dos Draconian, editado em Maio deste ano.
A banda entrou em palco com “I Welcome Thy Arrow”, precisamente o tema de abertura de In Somnolent Ruin, e a resposta do público foi imediata. O novo álbum ocupou uma parte importante do alinhamento, com “The Face of God”, “Cold Heavens” e “Misanthrope River” a juntarem-se ao tema inicial, mas os Draconian não fizeram propriamente um concerto de apresentação de disco. Pelo contrário, o alinhamento foi construído como uma espécie de panorama da sua carreira, atravessando Sovran, A Rose for the Apocalypse e Arcane Rain Fell, além do material mais recente.
É uma escolha que faz sentido para uma banda com uma relação tão forte com a memória do público. “The Wretched Tide” e “Heavy Lies the Crown”, de Sovran, trouxeram para o palco uma das fases mais reconhecíveis da discografia, enquanto “The Last Hour of Ancient Sunlight”, “A Scenery of Loss” e “Heaven Laid in Tears (Angels’ Lament)” recuaram até diferentes momentos da primeira década da banda. O resultado foi um concerto em que a novidade e a familiaridade se foram alternando sem que nenhuma delas precisasse de dominar completamente a outra.










E, apesar de a música dos Draconian assentar numa fórmula bastante definida — o contraste entre o peso do doom, as melodias de forte inclinação gótica e o diálogo entre as vozes de Anders Jacobsson e Lisa Johansson —, há uma razão para essa fórmula continuar a funcionar tão bem para quem se reconhece nela. Não é uma banda interessada em reinventar permanentemente a sua linguagem. A força está precisamente na capacidade de aprofundar um universo estético que se tornou identificável desde os primeiros discos, mantendo os elementos essenciais enquanto os vai reorganizando ao longo das diferentes formações e fases da carreira.
Lisa Johansson é naturalmente uma parte central dessa identidade. O seu regresso aos Draconian, anunciado depois de mais de uma década afastada da banda, alterou de forma evidente a relação com o repertório clássico. O alinhamento ajudou bastante. “Cold Heavens”, uma das faixas de In Somnolent Ruin, encontrou o seu espaço ao lado de temas muito mais antigos sem parecer deslocada, enquanto “A Scenery of Loss” e “Heaven Laid in Tears (Angels’ Lament)” recuperaram material de Arcane Rain Fell, de 2005.
“The Sethian”, por seu lado, trouxe novamente Under a Godless Veil para o centro do concerto. E quando chegou “Daylight Misery”, no encore, já não havia propriamente necessidade de acrescentar muito mais: a relação entre banda e público estava perfeitamente estabelecida.
Para quem está emocionalmente ligado aos Draconian, terá sido certamente um daqueles concertos em que o repertório parece funcionar como uma espécie de mapa pessoal. Para mim, a relação com essa música é mais distante. Há momentos em que a sua fórmula me parece excessivamente previsível e a alternância entre peso, melodismo e vocalizações contrastantes demasiado familiar para produzir surpresa. Mas isso não impede reconhecer o que aconteceu naquela noite: os Draconian sabem exactamente que banda são, sabem o que o seu público procura e, no Under The Doom 2026, entregaram-no com uma segurança que deixou pouca margem para dúvidas.













Todas as fotos do Under The Doom 2026 do Jorge Botas, @mountainking.
