David Lee Roth deu-lhes a identidade original, mas foi com Sammy Hagar que os Van Halen se reinventaram e dominaram os anos 80 e 90. Recordamos a história, o sucesso e os discos marcantes da era Van Hagar.
A história dos Van Halen costuma ser contada a partir de David Lee Roth. É compreensível: o vocalista original ajudou a definir a personalidade de uma das bandas mais importantes do hard rock norte-americano, com uma presença em palco que transformava cada concerto numa combinação de espectáculo, provocação e humor.
Mas quando Roth abandonou o grupo, em 1985, os Van Halen não se limitaram a encontrar alguém que pudesse ocupar o seu lugar. Mudaram de direcção, descobriram novas possibilidades e iniciaram uma fase que, durante uma década, lhes garantiu um sucesso comercial extraordinário. A entrada de Sammy Hagar não foi um intervalo entre duas épocas de David Lee Roth. Foi uma segunda vida.
A substituição parecia, à partida, uma tarefa quase impossível. Roth era mais do que o cantor dos Van Halen: era uma parte essencial da identidade visual e performativa da banda. A sua relação com Eddie Van Halen assentava numa tensão criativa que tinha ajudado a produzir alguns dos discos mais influentes do hard rock dos anos 70 e 80. Hagar trazia outras características.
Tinha uma voz potente, uma experiência consolidada como artista a solo e uma abordagem mais convencional à melodia e à composição. Não precisava de imitar Roth porque, musicalmente, não vinha do mesmo lugar. O período comercial da banda foi na apelidade fase Van Hagar, mas nem tudo foi positivo, muito menos o final.
A recente polémica entre Alex Van Halen e Sammy Hagar reacendeu as antigas rivalidades da banda com trocas públicas de declarações duras. Durante uma acção der promoção do seu livro de memórias Brothers, o baterista Alex Van Halen voltou a focar a narrativa no período inicial com David Lee Roth, minimizando o impacto do colega e chegando a apelidar abertamente Sammy Hagar de «um completo idiota». A reacção do vocalista não se fez esperar: respondeu com ironia — afirmando ser «o idiota mais bem-sucedido do planeta» — e criticou Alex por tentar apagar uma era de dez anos marcada por quatro álbuns em primeiro lugar e cerca de 40 milhões de discos vendidos.








Para além da disputa sobre o legado artístico, Hagar especulou que a animosidade de Alex pode advir de ressentimentos pessoais e financeiros. Apontou o caso do negócio de tequila Cabo Wabo, que comprou na totalidade aos colegas após um fracasso inicial e mais tarde vendeu por centenas de milhões de dólares, bem como o facto de continuar em digressão a celebrar o catálogo do Van Halen com o baixista Michael Anthony.
Apesar da fricção e das críticas à forma como o baterista gere o acervo da banda, Hagar manteve uma postura aberta, afirmando que gostaria de entender as razões do conflito e que acolheria Alex com um abraço se ele decidisse fazer a pazes. Deste lado, esse cenário seria o ideal. Nesse sentido, deixamos uma pequena retrospectiva da era Van Hagar…
5150: Uma Banda que Não Precisava de Pedir Licença
Editado em 1986, 5150 foi o primeiro álbum dos Van Halen com Hagar e o primeiro da banda a chegar ao número um da Billboard 200. O resultado contrariou qualquer previsão de declínio imediato após a saída de Roth. Mais importante, o disco estabeleceu uma nova linguagem para o grupo, sem eliminar aquilo que tornava Eddie, Alex Van Halen e Michael Anthony tão reconhecíveis.
A mudança mais evidente estava nos teclados. Se os sintetizadores já tinham desempenhado um papel importante em 1984, em 5150 passaram a ocupar uma posição central. “Why Can’t This Be Love”, “Dreams” e “Love Walks In” mostram uma banda mais interessada na construção de refrões amplos e em melodias que podiam existir para lá do circuito tradicional do hard rock. A guitarra de Eddie continuava presente, mas deixava de ser necessariamente o elemento que comandava cada composição.
Isso não significa que Eddie tivesse perdido protagonismo. Pelo contrário, a sua capacidade de reorganizar a linguagem instrumental dos Van Halen foi determinante para o sucesso da nova formação. O desafio consistia em encontrar espaço para a guitarra num contexto em que os teclados, a voz de Hagar e uma produção mais polida tinham maior peso. O álbum não resolve todas essas tensões de forma igualmente convincente, mas demonstra que a banda conseguia transformar uma crise de identidade numa oportunidade para experimentar.
A própria escolha do título, retirado do nome do estúdio de Eddie, ajudava a sublinhar essa ideia de continuidade. Os Van Halen continuavam a ser uma unidade criativa, mas já não eram exactamente a banda que tinha gravado Fair Warning ou 1984.
OU812: A Confiança de Quem Já Não Tem Nada a Provar
Dois anos depois, OU812 confirmou que o êxito de 5150 não tinha sido uma excepção. O álbum chegou novamente ao primeiro lugar da Billboard 200 e aprofundou a combinação entre hard rock, teclados e composição melódica. “When It’s Love” tornou-se um dos grandes êxitos da fase Hagar, enquanto “Finish What Ya Started” explorava uma abordagem mais descontraída, construída em torno de um groove acústico e de uma interpretação vocal menos dependente da potência.
A diversidade do disco é importante porque desmonta a ideia de que os Van Halen tinham encontrado uma fórmula única e se limitavam a repeti-la. “Black and Blue” mantém uma relação mais directa com o peso da guitarra, ao passo que “Cabo Wabo” introduz uma dimensão rítmica e instrumental que reflecte o interesse crescente de Hagar por ambientes musicais diferentes. O álbum tem excessos e momentos em que a produção parece demasiado preocupada com a dimensão radiofónica das canções, mas essa ambição fazia parte da sua identidade.
A banda tinha encontrado um equilíbrio comercial que muitas formações não conseguem alcançar depois de uma mudança de vocalista. O público não estava apenas a aceitar Sammy Hagar: estava a comprar os discos em números que confirmavam a força do grupo. E, apesar das comparações inevitáveis com Roth, os Van Halen já não precisavam de justificar a sua nova configuração.
For Unlawful Carnal Knowledge: O Regresso à Guitarra
Em 1991, For Unlawful Carnal Knowledge representou uma mudança de abordagem. Depois de dois álbuns em que os teclados tinham sido fundamentais para a construção das canções, os Van Halen recuperaram uma sonoridade mais centrada na guitarra, no baixo e na bateria. A produção contou com Andy Johns e com Ted Templeman, que regressou ao trabalho com a banda pela primeira vez desde 1984.
O resultado foi um disco mais pesado e directo, sem abandonar a dimensão melódica que Hagar tinha ajudado a consolidar. “Poundcake” abre com o som de uma broca eléctrica, antes de Eddie lançar um riff musculado; “Judgement Day” explora uma tensão mais sombria; “Right Now” constrói a sua força através de uma progressão de teclados e de uma mensagem que encontrou uma vida própria, muito para lá do contexto do álbum. “Top of the World”, por sua vez, recupera um motivo de guitarra que já surgia no final de “Jump”, estabelecendo uma ligação subtil com a história anterior do grupo.
O álbum chegou ao número um da Billboard 200 e permaneceu nessa posição durante três semanas. Era o terceiro disco consecutivo dos Van Halen com Hagar a atingir o topo da tabela norte-americana. A mudança de vocalista já não era o assunto central. A banda tinha conseguido transformar uma solução de emergência numa formação capaz de sustentar uma carreira autónoma.
O Preço de Uma Estabilidade Aparente
O lançamento de Live: Right Here, Right Now, em 1993, registou essa fase de consolidação. O álbum duplo ao vivo reuniu material de diferentes momentos da carreira dos Van Halen, incluindo canções da era Roth e da fase Hagar. Funcionava como uma declaração de confiança de uma banda que conseguia apresentar o seu repertório como um todo, mesmo depois de uma mudança tão profunda na sua identidade.
Mas o período não foi isento de dificuldades. A morte do empresário Ed Leffler, em 1993, afectou profundamente o grupo e antecedeu uma fase de maior instabilidade. Em paralelo, as tensões criativas e pessoais continuaram a acumular-se. A eficácia comercial não significava que os quatro músicos estivessem sempre de acordo quanto ao futuro da banda.
Balance, editado em 1995, é talvez o disco que melhor permite perceber essas contradições. A capa sugeria uma relação complexa entre identidade individual e pertença colectiva. Musicalmente, o álbum combinava a força de “The Seventh Seal” e “Amsterdam” com a melancolia de “Not Enough” e “Can’t Stop Lovin’ You”. “Baluchitherium”, uma composição instrumental de Eddie, demonstrava que o guitarrista continuava interessado em explorar territórios que não dependiam da voz de Hagar nem da estrutura tradicional da canção.
Não é necessariamente o melhor álbum da fase, mas tem uma densidade que ganha significado quando escutado retrospectivamente. A banda continuava a produzir canções de grande alcance, embora o equilíbrio sugerido pelo título se revelasse mais frágil do que parecia. Balance chegou também ao primeiro lugar da Billboard 200, tornando-se o quarto álbum de estúdio consecutivo dos Van Halen com Hagar a alcançar esse resultado. Em 1996, o vocalista abandonaria o grupo, encerrando a fase que tinha começado uma década antes.
Uma História Que Não Precisa de Vencedores
A discussão sobre a melhor era dos Van Halen continuará provavelmente enquanto houver quem escute a banda. Mas essa comparação torna-se pouco produtiva quando serve para desvalorizar uma das duas fases. David Lee Roth ajudou a criar a identidade original do grupo; Sammy Hagar permitiu-lhe reinventar-se sem perder a capacidade de chegar a um público enorme. As diferenças entre ambos não são um problema que a história tenha de resolver. São precisamente aquilo que torna o percurso dos Van Halen tão singular.
A fase Van Hagar não reproduziu o humor, a irreverência e o espírito de risco dos primeiros discos. Em contrapartida, abriu espaço para uma escrita mais melódica, para uma utilização mais ampla dos teclados e para uma abordagem à guitarra que foi mudando ao longo de quatro álbuns. A banda tornou-se mais polida, mas também demonstrou que Eddie Van Halen não era apenas o arquitecto de uma fórmula que tinha atingido o seu auge em meados dos anos 80.
Talvez a maior injustiça feita a este período seja tratá-lo como uma pausa na história verdadeira dos Van Halen. Entre 5150 e Balance, o grupo editou quatro álbuns de estúdio que chegaram ao primeiro lugar nos Estados Unidos, explorou diferentes formas de combinar guitarra e teclados e construiu uma identidade que não dependia da presença de Roth. O facto de a formação ter acabado por se desintegrar não apaga esse percurso.
Os Van Halen de Sammy Hagar foram uma banda diferente. Não precisavam de ser outra coisa.
