Veto

Veto, Heaven Shall Burn

Entre riffs esmagadores, bateria implacável e vociferações rasgadas, “Veto” é um dos mais intensos manifestos de fúria e técnica dos Heaven Shall Burn.

Há discos que não se ouvem: assaltam-nos. Veto, dos Heaven Shall Burn, cai sobre o ouvinte como um vendaval de aço temperado, uma tempestade ética, uma liturgia barulhenta para almas que recusam ajoelhar. Há bandas que fazem música; estes alemães fazem declarações. E cada álbum deles é um manifesto, um punho fechado, um corte transversal na carne do mundo. Não são só guitarras, nem só política, nem só fúria: é tudo isto ao mesmo tempo, destilado num calor tão brutal que faz derreter qualquer fronteira entre géneros.

Demasiados pesados para serem metalcore, mas não tão pesados para os considerarmos death metal. No entanto, se existe algo como teologia do metal, os Heaven Shall Burn são uma das suas seitas principais — e Veto é um dos seus evangelhos. Um disco que testa os limites do que ainda pode ser dito com guitarras e baixo (de Alexander Dietz e Maik Weicher e Eric Bischoff, respectivamente), não em afinações barítono, mas descidas até ao centro da Terra, a bateria de Matthias Voigt em permanente estado de combustão e a voz de Marcus Bischoff como cicatriz aberta.

Quando “Godiva” começa, não é apenas uma malha: é a sensação de que alguém te agarrou pela gola, antes que o conseguisses impedir, esmurrou-te, e obrigou-te a olhar para dentro do abismo. O riff entra como um cavalo desbocado a atravessar muralhas, a voz de Marcus Bischoff corta o ar como metal a rasgar tecido e a conjurar promessas de guerra, e cada ataque da bateria de Matthias Voigt é uma martelada contra a complacência. É uma abertura que não pede passagem: invade. Se há coisa que a banda faz melhor do que quase todos os outros, é transformar ira em arquitectura musical. “Godiva” é a muralha.

Segue-se “Land of the Upright Ones”, um dos temas mais rápidos e incisivos de Veto, que traz de volta o espírito mais directo do metalcore europeu, mas com uma profundidade melódica que se aproxima do death metal melódico sueco. A banda brinca com contrastes: estrofes que atropelam tudo à frente e refrões que, sem nunca se tornarem “limpos”, criam um eixo melódico memorável, capaz de sobreviver ao caos circundante. E, no entanto, por baixo da velocidade, há algo mais: uma sensação de urgência moral.

“Die Stürme rufen Dich” muda ligeiramente o andamento de Veto. É mais densa, mais atmosférica, traz aquele lado quase cinematográfico que a banda já tinha explorado, mas aqui refina de forma magistral. Não é calmaria — é tensão prestes a rebentar. Aquele silêncio antes do colapso ou a sensação de estar no centro de um tornado e a prova de que breakdowns podem ser brutais sem serem fáceis, sem serem gimmicks. Este tema, em particular, deixa tudo em fricção constante: melodia contra violência, velocidade contra peso, caos contra precisão.

Em “Fallen” a banda abre a pele para mostrar o músculo emocional. Há qualquer coisa de elegíaco, como se os Heaven Shall Burn quisessem recordar que o seu combate não é apenas contra sistemas externos, mas também contra fragilidades internas. Ainda assim, mesmo nos momentos mais vulneráveis, eles nunca largam o punho fechado. E é neste contexto que chega “Hunters Will Be Hunted” — meu Deus, que malha. É o coração negro de Veto, o seu centro gravitacional. Expande o som, usa atmosferas, texturas, faíscas melódicas que parecem cintilar por entre a devastação.

É onde percebemos melhor o génio silencioso de Heaven Shall Burn: a capacidade para criar espaço dentro da brutalidade. A composição respira, mas respira como alguém que corre pela vida. É música para sobreviver, não para decorar.

“You Will Be Godless” retoma a agressividade sem compromissos, com ritmo cadenciado e riffs que quase esmagam o ouvinte. É uma malha que exemplifica perfeitamente a filosofia da banda: um statement contra a religião organizada; cada verso é um soco, cada breakdown uma afirmação. A precisão da secção rítmica e a interacção das guitarras evidenciam uma maturidade técnica que se mantém constante ao longo de Veto. É Maik Weicher que o diz: «É quase uma tradição que a música mais pesada do álbum seja um acerto de contas com a religião organizada, especialmente a Igreja Católica. A sua desumanidade e a torre de marfim em que vive são repugnantes. ‘Segue-os e tornar-te-ás sem Deus’».

E o que dizer de “Valhalla”? Funciona como homenagem a Blind Guardian sem se tornar um eco decorativo. A voz de Hansi Kürsch surge em pontos estratégicos, enquanto a banda reinterpreta o tema com a sua brutalidade característica, vestem-lhe carne crua, tiram-lhe a pompa e deixam só o nervo, criando um equilíbrio perfeito entre reverência e identidade própria.

“Antagonized” é curta e esmagadora. Menos de quatro minutos de pura agressão, riffs afiados e bateria incisiva. É uma explosão condensada, um lembrete de que não é preciso prolongar a violência para que ela seja eficaz. “Like Gods Among Mortals” abre novamente o campo melódico, trazendo tonalidades mais épicas, com um sabor quase mitológico. Parece uma elevação momentânea, uma pausa para olhar o horizonte incendiado antes da última investida.

E então: “53 Nations”. Uma malha feita para correr, para partir dentes, para atirar pessoas contra paredes de som. É rápida, urgente, quase militar no andamento, e funciona como antecâmara para o final grandioso. “Beyond Redemption” encerra Veto com uma descarga final. Rápida, agressiva e técnica, serve como ponto de clímax: a última rajada de intensidade antes de a cortina cair. Cada instrumento cumpre o seu papel com precisão cirúrgica, deixando-nos com a sensação de exaustão — mas catártica.

Veto não é apenas um bom álbum. Veto é um álbum necessário. É a prova de que o metal extremo pode ser político sem ser panfletário, emocional sem ser lamechas, brutal sem cair na gratuitidade. Alterna entre brutalidade e melodia, velocidade e tensão, política e introspecção, sempre com uma narrativa coerente e uma energia impossível de ignorar. Veto é agressivo, mas refinado, intenso, mas calculado, e acima de tudo, é fiel àquilo que a banda representa há décadas: um ataque sonoro carregado de convicção e integridade.

Leave a Reply