White Zombie

White Zombie, Astro-Creep: 2000 – Songs of Love, Destruction and Other Synthetic Delusions of the Electric Head

O canto do cisne dos White Zombie, o alfa e ómega para o mito de Rob Zombie. “Astro-Creep: 2000 – Songs of Love, Destruction and Other Synthetic Delusions of the Electric Head” encapsula perfeição sónica, um caldeirão de conceitos que o seu criador nunca mais replicou com tamanha eficácia (nos seus discos ou filmes) e ainda definiu uma era e um novo trilho para o groove metal.

Lançado em 1995, Astro-Creep: 2000 – Songs of Love, Destruction and Other Synthetic Delusions of the Electric Head marcou o ponto mais alto — e a despedida artística — dos White Zombie. Um disco que funde groove metal, samples cinematográficos, imagética sci-fi, erotismo distorcido e crítica sociocultural num só bloco sónico. Mergulhamos no seu universo simbólico, sonoro e filosófico, para desmontar a máquina cyber-gótica de Rob Zombie & Co. como se fosse um altar profano aos deuses da decadência americana.

Há discos que não pertencem apenas a uma era — pertencem a uma era e também a um estado de espírito. Astro-Creep: 2000 é um delírio industrial dos White Zombie que paira entre o fim do milénio e o apocalipse interior. Gravado nos estúdios NRG, em North Hollywood, e produzido por Terry Date (conhecido pelo seu trabalho com Pantera, Deftones e Soundgarden), este álbum soa a ferro retorcido, silicone, carne e néon.

É simultaneamente humano e pós-humano. A máquina em êxtase. Uma bomba rítmica que pulsa com groove satânico e riffs maciços, envolvida em samples de filmes de terror, pornografia de série B e excertos de rádio como se fossem fragmentos da psique americana em ruínas.

Ciborgues, Profetas & Delírios

Rob Zombie, vocalista e mente visual e conceptual por trás do White Zombie, nunca quis ser apenas músico. Ele é curador de um universo — e Astro-Creep: 2000 é talvez o seu artefacto mais coeso. A estética do disco funde ficção científica retro, pornografia industrial, psicodelismo e esoterismo de feira itinerante. A capa, criada por Rob, parece saída de um laboratório de ressurreição de mitos: uma criatura de olhos ocos, inscrita com símbolos, meio xamã, meio ciborgue.

O título do álbum é já uma provocação: Astro-Creep mistura ficção científica (astro) com depravação humana (creep), e o subtítulo é quase uma dissertação sobre o estado do mundo — «canções de amor, destruição e outras alucinações sintéticas da cabeça eléctrica». Trata-se de um álbum sobre as intersecções do desejo e da distorção, da fé e da máquina, da obsessão americana com a transcendência tecnológica e o apocalipse sexual.

Parafraseando o nosso leitor Rui Salvador Gonçalves, devoto deste trabalho dos White Zombie, «Perhaps you had better start from the beginning» inicia em modo loop uma das melhores intros de sempre, esta frase é um sample de uma cena do histórico filme, “The Curse Of Frankenstein” (1957) e depois o hipnotismo de Karmen Rider Zo (1993) e assim inicia Astro-Creep: 2000, que tem referências ao cinema de terror, filmes B e sci-fi, já publicado ou meta ficcionado, em todos os temas.

Continua o Rui a explicar, “Super-Charger Heaven” invoca “To The Devil a Daughter” (1976) e “The Haunting” (1963). “The Omega Man” (1971) do Boris Sagal aparece com uma citação em “Creature Of The Wheel”. Já a segunda parte de “Electric Head (The Ecstasy)” é delicioso, «I just said up yours, baby». «Watch your mouth, man». «I’ll say any damn thing I want». «I’ll kill the motherfucker and come looking for you!», tudo tirado do “Shaft” (1971).

Depois aparece o mítico som sinistro do carrossel que abre “Grese Paint And Monkey Brains” que o Mr. Strange acabou por roubar a ideia na sua “My Plaything” em 2011, tal como a introdução de “I, Zombie” começa com o clássico “Ave Maria” (1859) de Charles Gounod.

Desde o primeiro tema, “Electric Head, Pt. 1 (The Agony)”, somos atirados para um túnel sónico de distorção e groove pelos White Zombie. O riff principal não é apenas pesado — é hipnótico, reptiliano, desenhado para desorientar tanto quanto seduzir. Jay Yuenger (guitarra) e John Tempesta (bateria) constroem um muro sónico que parece locomotiva e ritual tribal ao mesmo tempo. O baixo de Sean Yseult é o coração pulsante da máquina, carregado de swing obscuro e sensualidade mecânica.

Malhas como “More Human than Human” (referência óbvia a Blade Runner) capturam a essência do álbum: somos mais do que humanos quando nos tornamos fantasmas tecnológicos do desejo. Aqui, Rob Zombie canta através de distorções vocais, encarnando um profeta ciborgue, rodeado de samples e beats industriais. “Real Solution #9”, com o seu sample de Charles Manson, é uma provocação estética e política. A voz de Manson serve como aviso e fétiche, símbolo de uma América que se idolatra na sua própria loucura.

Os White Zombie não usam o sample como glorificação, mas como espelho distorcido — a insanidade americana como groove dançável.

O Pós-Humanismo Dançável: Entre o Horror e o Êxtase

Astro-Creep: 2000 é um disco profundamente pós-humano. As suas letras falam de carne e máquina, de desejo e dessacralização. “Super-Charger Heaven” invoca deuses pagãos, filmes de terror e a iconografia do apocalipse evangélico — tudo com uma batida dançável que poderia animar tanto uma pista gótica quanto um ritual de invocação.

Rob Zombie funciona como uma espécie de televangelista do grotesco, pregando a decadência através de imagens de morte, pornografia e combustão. Em vez de prometer salvação, ele oferece libertação através do ruído e da alienação. Há uma religiosidade invertida no álbum — como se o verdadeiro êxtase fosse encontrar beleza no feio, alma no artificial, transcendência no som brutalizado.

Mais alguém adorou Carnivàle, o dark fantasy da HBO ocorrido durante a Grande Depressão e a meio do Dust Bowl? A América vista do subsolo. Nesse drama televisivo e neste disco.

White Zombie são profundamente americanos — mas não da América triunfalista e higienizada. Eles vêm do subterrâneo cultural: do drive-in decadente, dos strip clubs abandonados, dos filmes VHS riscados, das teorias da conspiração e das religiões marginais. Astro-Creep: 2000 é uma carta de amor ao lixo cultural dos anos 70, 80 e 90. Um álbum que transforma os resíduos da cultura pop num manifesto estético.

A obsessão por tecnologia, por mutações e por estados alterados de consciência está espelhada em toda a estrutura deste 4.º álbum dos White Zombie. As repetições, os samples, a produção densa, tudo contribui para um sentimento de vertigem — como se estivéssemos constantemente a atravessar canais de televisão, todos sintonizados no fim do mundo.

O Fim… e o Princípio de Rob Zombie como Mito

Astro-Creep: 2000 foi o último álbum dos White Zombie. Depois da digressão, a banda separou-se — mas o disco já continha em si o germe da carreira a solo de Rob Zombie, que aprofundaria ainda mais estas obsessões em álbuns como Hellbilly Deluxe e nos seus filmes como House of 1000 Corpses.

O álbum é um ponto final (para os White Zombie) e uma promessa. Uma última ceia industrial antes de o profeta zombificado seguir sozinho pelo deserto norte-americano da cultura pop. Nada no metal industrial posterior — seja Marilyn Manson, Static-X ou Rammstein — escapa à sombra deste disco e dos White Zombie. Astro-Creep é a bíblia obscura da hibridização cultural entre o metal, o horror e a crítica à alienação moderna.

Em 2025, este álbum ainda soa como uma profecia. Num mundo saturado de inteligências artificiais, pornografias digitais, espiritualidades recicladas e redes sociais que se alimentam da ansiedade coletiva, Astro-Creep: 2000 não envelheceu — apenas se tornou mais nítido. O disco não é só um produto da sua época. É um espelho partido do nosso presente. Ainda hoje os White Zombie ensinam-nos que a música pode ser uma máquina de guerra simbólica, um delírio visionário, um delírio distorcido onde se dança entre os vivos e os mortos — e encontra sentido.

No final, talvez sejamos todos more human than human.

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