Uma leitura da crucifixão, em diálogo com o Salmo 22, que Jesus evoca no momento extremo. Mais do que interpretar um versículo, é toda a trajectória do Filho que aqui se contempla: não como acidente histórico, nem como desespero existencial, mas como entrega lúcida, consciente, radical.
A entrada triunfal em Jerusalém é, na verdade, o início de um caminho sem retorno. Os ramos que se erguem em festa na abertura da Semana Santa transformar-se-ão, dentro de dias, nas sombras que cobrirão o Golgotha. E é nesse hiato — entre o júbilo e o silêncio, entre a aclamação e o abandono — que Jesus se revela com toda a profundidade do seu mistério. Um mistério que parece profetizado no Salmo 22. Em tempo de Ramos, em tempo de Paixão, eis o desafio: contemplar Jesus para lá dos padrões lógicos e certezas existenciais, com a inquietação da cruz.
Não podemos penetrar no pensamento de Jesus, mas não se pode negar que, eventualmente, morrer fosse algo que não desejasse, mas parece algo exagerada a afirmação,por exemplo, de Rudolf Bultmann, quando, radicalmente, diz que Jesus terá morrido em desespero devido a uma morte sem sentido e inesperada para si. Afinal, o autor defende que Jesus não teria em si uma consciência messiânica e ver-se-ia apenas como um mestre sem qualquer intenção em ter impacto político e, portanto, teria encarado o seu julgamento e execução como um gigantesco mal-entendido e um rotundo fracasso da sua mensagem.
A tentativa de alguns autores de dessacralizar a morte de Jesus ao ponto de a tornarem um acidente histórico, um desenlace mal interpretado, é por vezes mais especulativa do que os próprios evangelhos que se tenta “corrigir”. Não podemos negar que Jesus tenha vivido um real temor, angústia, até desejo de não morrer, mas recusar a ideia de que morreu sem consciência do que fazia parece não só teologicamente redutor, mas antropologicamente injusto — como se alguém tão atento ao mundo, aos símbolos, às palavras e às dores, pudesse ser ingénuo quanto ao peso das suas escolhas.
Se nos cingirmos aos evangelhos, é pouco provável que Jesus não esperasse de alguma forma o fim que acabou por ter (até pelo contexto histórico-social hebreu), pois a própria forma do seu ministério, mesmo as suas palavras, revelam essa possibilidade – exemplo claro disso são os textos Mc 2, 18-22 (YHWH é o único que chama Israel de noiva – a hora de Jesus é a da alegria escatológica, a presença do noivo – sendo isso que inicia a contestação e conduzirá à cruz) e Mc 12, 1-12 que demonstra a plena consciência de Jesus daquilo que lhe podia acontecer (na parábola dos vinhateiros homicidas, o noivo é manchado de sangue, a vinha torna-se motivo de escândalo), numa perspectiva da Paixão.
Pode argumentar-se obviamente que o texto evangélico foi escrito posteriormente a todos os factos, mas ainda assim o autor mostra uma certa consciência desperta de Jesus nas suas próprias acções. Se esse carácter da sua personalidade não fosse, por demasia, evidente não lhe teria sido atribuída tal importância.
Na interacção social, na pregação, nas parábolas, enfim na sua vida, está demarcada a própria leitura que ele mesmo faz de tudo isso; na sua íntima pessoalidade, no mais fundo de si, Jesus descobre-se em oração como Filho de Deus e que essa filiação pressupõe a livre submissão à vontade do Pai, ao caminho que conduz a Golgotha, pois é quando se entrega totalmente ao Pai, assume a Sua vontade, que se torna plenamente Filho. Não se trata de delírio messiânico, mas de fidelidade. O “cálice” não era surpresa. Era escândalo, dor e decisão.
Aliás, esse kerigma primitivo sempre foi o centro da fé dos discípulos e do próprio cristianismo – o aparente fracasso exterior na forma da cruz é fundamental, é assim que se inicia o cristianismo. Jesus podia ter negado o que havia dito e feito para se salvar, mas assim negar-se-ia a si mesmo e à verdade que sentia na sua intimidade profunda com o Pai.
Sem tal modelo, jamais teria sido fundada a igreja ou se teria tornado Jesus no Cristo que ilumina toda a história, toda a humanidade, pois se recusando o cálice que lhe fora dado a beber se tivesse salvo, toda a sua vida teria sido, aí, sim, sem sentido (tanto em si mesma, como para a humanidade).
É precisamente neste contexto que surge a narração da Paixão. Não é muito viável procurar isolar um determinado momento nesse acontecimento (com uma suposta pretensão de maior historicidade), como forma de interpretação, para esse fracasso na morte de Jesus, como algumas correntes procuram fazer com a exclamação «Eli, eli, lema sabachthani», pois a citação da primeira frase do Salmo 22 apenas demonstra um Jesus orante mesmo no final (aos judeus era comum saberem os salmos, o seu conteúdo, e dizerem a primeira frase para evocar o seu conteúdo e significado, da mesma forma que hoje qualquer um de nós evoca um poema).
Além disso, não faria grande sentido os autores evangélicos inventarem nos acontecimentos a exclamação «Elli, elli, lema sabachthani» (Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?), pois teria precisamente uma interpretação ambígua para quem não conhecesse o Salmo 22 e não descobrisse o sentido orante de Jesus que, ao evocar esse salmo, ilustra com toda a intensidade o sofrimento perante a morte e, ao mesmo tempo, uma plena confiança no poder de YHWH, mesmo sobre tal fatalidade.
A citação do Salmo 22 é muito mais do que um grito de desespero. É oração, é evocação, é tradição viva. Jesus, mestre das Escrituras, não escolheria palavras ao acaso — ainda mais as últimas. O eco do Salmo 22, no seu conjunto, não termina no abandono, mas na confiança. O abismo da morte não anula a luz da entrega. Pelo contrário, é nela que essa luz se acende com mais força.
O Salmo 22, para além de ser uma oração, é também uma narrativa de transfiguração – passa da dor à esperança, da ameaça à salvação. Essa estrutura espelha a própria Paixão e pode reforçar ainda mais o paralelismo entre o que Jesus viveu e o que recitou. Todas as co-incidências com o Salmo 22 condensam a interpretação fundamental da morte de Jesus, do seu carácter profético e messiânico, de que tudo estava anunciado desde o Antigo Testamento e que assim tinha de se realizar.

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