WROC

WROC, Paul Gilbert

O primeiro álbum de Paul Gilbert pós-Mr. Big, une virtuosismo, civismo e humor. WROC transforma o manual de etiqueta de George Washington em rock puro e faz prova o génio musical do shredder.

«What happens when one of rock’s most inventive guitarists finds inspiration in 18th-century etiquette? Paul Gilbert’s new album WROC turns George Washington’s “Rules Of Civility” into electrifying rock anthems — blending humor, history, and blazing guitar work. With grooves that smile and melodies that soar, Gilbert transforms old-world manners into modern musical fire. It’s virtuosic, witty, and unmistakably Paul Gilbert».

No panteão dos guitarristas virtuosos, existe uma categoria reservada a Paul Gilbert. Enquanto muitos dos seus contemporâneos se perdem em explorações metafísicas ou na repetição de fórmulas técnicas, Gilbert sempre preferiu o caminho do entusiasmo lúdico e da curiosidade intelectual. O seu mais recente trabalho, WROC, é o testemunho definitivo dessa postura.

Ao transformar as The Rules Of Civility & Decent Behaviour in Company and Conversation (abre link) de George Washington em hinos de rock vibrantes, Gilbert não só nos entrega o seu primeiro álbum vocal desde 2016, como assina o seu manifesto de independência após o encerramento do capítulo Mr. Big.

Em 2024 e 2025, o mundo assistiu à “The BIG Finish”, a digressão de despedida definitiva dos Mr. Big. Após décadas de uma carreira que definiu o hard rock técnico — marcada pela química inimitável entre Gilbert, Billy Sheehan e o saudoso Pat Torpey (e mais recentemente Nick D’Virgilio) — a banda decidiu fechar as portas com dignidade.

WROC é, portanto, o primeiro registo de Gilbert num mundo onde os Mr. Big já não existem como entidade activa. Se em discos a solo anteriores Paul parecia estar a descomprimir entre compromissos de banda, aqui sentimos uma urgência diferente. Não há a sombra de “Addicted to That Rush” ou “Green Tinted Sixties Mind” (abre link) a pairar sobre as composições, ao mesmo tempo que o seu carácter melódico se tornou, paradoxalmente, omnipresente.

Como referido, o conceito de WROC assenta sobre esse fascinante documento histórico que é Rules of Civility & Decent Behaviour in Company and Conversation. Mas o que leva um herói da guitarra a ler manuais de etiqueta do século XVIII? Contrariamente à crença popular, George Washington não foi o autor original destas regras. Aos 14 anos, cerca de 1744, o futuro primeiro presidente dos Estados Unidos copiou 110 preceitos de um manual francês de 1595, compilado por jesuítas.

Naquela época, o jovem Washington utilizou o exercício tanto para praticar a caligrafia como para aprender a navegar na complexa hierarquia social da Virgínia colonial. As regras variam entre o mundano e o moralmente profundo. Eis alguns exemplos: Regra 1) Cada gesto feito em companhia deve ser feito com algum sinal de respeito por quem está presente; Regra 56) Ao caminhar, não deves balançar os braços de forma desordenada; Regra 110) Esforça-te por manter viva no teu peito aquela centelha de fogo celestial chamada consciência.

Paul Gilbert terá percebido o que muitos de nós sentimos: vivemos numa era de “descivilização” digital. O anonimato da internet e a polarização política corroeram o tecido básico da convivência. Ao musicar estas regras, Paul faz um comentário social ácido e humorado. Se George Washington precisava destas regras para não parecer um rústico perante a elite, nós precisamos delas para não nos tornarmos bárbaros perante um ecrã.

Transformar o “não cuspir no fogo” ou o “respeitar o espaço alheio” em riffs de guitarra é o tipo de ironia genial que só Gilbert consegue executar com um sorriso. Contando com a ajuda de Nick D’Virgilio na bateria, Doug Rappoport na guitarra e Timmer Blakely no baixo, Gilbert gravou uma autêntica masterclass de rock.

OBI PAUL KENOBI

Musicalmente, WROC é uma folia alegre e barulhenta, trabalhada por alguém que está em excelente forma. É um álbum vocal (o primeiro desde I Can Destroy, em 2016), mas a voz de Obi Paul Kenobi é apenas maisum dos instrumentos. Não interpretem mal, Gilbert é um excelente cantor e super cativante nas suas melodias tão marcadas pela música dos Beatles, mas a sua guitarra continua a ser o que incendeia tudo à sua volta, mantendo sempre uma elegância que parece sem esforço.

Nos vídeos promocionais, vemos Gilbert com roupas de época e a banda em ação exactamente como estavam durante a gravação do disco. WROC foi gravado ao vivo ao longo de quatro dias, e as canções têm definitivamente aquela sensação espontânea que se esperaria de temas captados nestas condições. Musicalmente, o álbum está repleto de tudo o que desejarias de um disco de Paul Gilbert e muito mais. Do hard rock ao classic rock, passando pelo punk, blues e pop, Gilbert delicia-se com um banquete de géneros ao longo das 13 malhas.

Viajando entre influências como Satriani e Steve Vai, o som ultra melódico que desenvolveu em Mr. Big (a tal omnipresença de “Green Tinted Sixties Mind”), ou o rock clássico dos anos 70, WROC mantém uma coesão rítmica invejável, mas há algumas malhas que se destcam imediatamente.

Caso de “Keep Your Feet Firm and Even”. O tema de abertura funciona como um preâmbulo que parece imitar a pressa dos nossos dias, contrastando com a letra que pede calma e decoro. “Conscience is the Most Certain Judge” é a âncora emocional do álbum. E ainda “Go Not Thither” que é Gilbert a divertir-se, lembrando-nos que o rock não tem de ser sempre sombrio ou pretensioso para ser de alta qualidade. A produção é orgânica. Ouve-se a dinâmica da banda, o ar entre as notas e aquela cobertura açucarada de efeitos que Paul usa para dar cor aos seus apontamentos, sem excessos.

The Terminal Point of This Endeavor

No geral, WROC é tão divertido e agradável como seria de esperar de um álbum do músico. A música é de primeira linha e cantar estas letras ridículas é uma diversão. Paul Gilbert é um dos poucos shredders que conseguiu envelhecer sem se tornar uma caricatura de si mesmo. WROC é a prova de que ele continua a reinventar-se de formas maravilhosas. Não está a tentar competir com os miúdos do Instagram que tocam a 300 bpm; ele está a seguur o seu próprio ethos.

WROC um disco que sorri. Num mundo onde a música pesada muitas vezes se leva demasiado a sério ou se perde em niilismo, Gilbert oferece-nos uma lição de etiqueta com o amplificador no máximo.

Um pensamento sobre “WROC, Paul Gilbert”

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