Um dos mais importantes compositores do nosso tempo. Arvo Pärt criou, literalmente, uma forma de composição que responde às mais profundas necessidades de introspecção de cada ser humano. Eis o peso e a densidade da tintinnabuli em “Te Deum”.
A música sacra foi durante um largo período de tempo, e continua a ser ainda hoje, o grande veículo da exposição musical derivada da contemplação do mistério cristão. Do poder tremendo de Bach ao peso e densidade de Arvo Pärt. Precisamente, o compositor estónio é talvez o mais importante compositor de música sacra vivo. Adepto do minimalismo e com muitas influências no canto gregoriano desenvolveu o seu próprio estilo de composição, a tintinnabuli – estética que é caracterizada por uma voz que harmoniza em arpégio a tríade tónica e uma segunda que se move em intervalos diatónicos.
Um som que acaba por evocar uma tremenda densidade, drones que convidam o ouvinte à introspecção e cujos lentos e sólidos crescendos permite plena absorção interpretativa. Na verdade, arriscando soar leviano, aproxima-se bastante daquilo que as bandas mais pesadas dentro do espectro do doom metal fazem. Não porque Pärt faça música pesada no sentido físico do termo, evidentemente, mas porque trabalha com uma concepção do tempo que lhe é surpreendentemente próxima.
O peso não está na quantidade de som, mas na forma como cada som ocupa o espaço que lhe é concedido. As notas parecem permanecer no ar depois de serem tocadas, os silêncios tornam-se parte da composição e a repetição deixa de ser um mecanismo para fazer a música avançar para se transformar numa forma de permanência.
Talvez porque, como sucede em muita da música criada dentro desse género, a tintinnabuli seja bastante simples ritmicamente e não tenha alterações no tempo. No doom, essa percepção do tempo é igualmente fundamental. O riff arrastado, a repetição obstinada de uma figura, a harmonia que parece recusar a resolução e a insistência sobre determinadas frequências produzem uma sensação física de duração. O ouvinte não é conduzido rapidamente de um ponto para outro; é colocado dentro de um espaço sonoro e convidado — ou condenado — a permanecer ali.
Em Pärt acontece algo semelhante, embora através de meios radicalmente diferentes. Onde uma banda como os Sunn O))) pode utilizar a distorção, o volume e a massa das frequências graves para criar essa sensação de suspensão, Pärt consegue fazê-lo com vozes, cordas, órgãos e silêncio. Arvo Pärt é um dos compositores mais celebrados da era moderna, se assim o podemos dizer, e no final dos seus anos de octogenário continua a ver as suas obras entre as mais executadas em todo o mundo.
Será raro o melómano que nunca tenha escutado “Spiegel im Spiegel” ou “Für Alina”, a sua simplicidade e suavidade emocionantes. Pat Metheny editou um álbum inteiramente dedicado à guitarra clássica e nele apresenta uma interpretação de “Für Allina”, arranjada para 42 cordas de guitarra e executada pelo próprio músico, absolutamente assombrosa…


Mas são as obras religiosas que revelam toda a profundidade e avassaladora densidade da música de Arvo Pärt, obras como a “Berliner Messe”, a “St. John Passion” ou o seu “Te Deum”. A sua música religiosa pode ser muito poderosa para quem não partilha necessariamente da fé que lhe deu origem. A liturgia fornece o contexto, os textos fornecem a palavra, mas a música não depende inteiramente deles para produzir o seu efeito.
Existe uma dimensão quase arquitectónica na forma como Pärt constrói o espaço: poucas notas, cuidadosamente colocadas, começam a adquirir uma importância desproporcionada. Uma alteração harmónica mínima pode parecer enorme porque tudo aquilo que a rodeia foi reduzido ao essencial.
No “Te Deum”, essa estratégia atinge uma escala particularmente impressionante. A obra não procura o monumental através da acumulação permanente, mas através da relação entre contenção e expansão. O coro e a orquestra vão construindo uma massa sonora que parece crescer a partir do silêncio, e quando finalmente se atinge uma maior densidade, a sensação não é a de uma explosão, mas a de algo que estava ali desde o princípio e que lentamente se tornou audível.
Talvez seja esta uma das razões pelas quais Pärt continua a encontrar ouvintes muito para além dos circuitos da música erudita e religiosa. A sua música exige atenção, mas não exige necessariamente conhecimento. Pode ser escutada como oração, como contemplação, como arquitectura sonora ou simplesmente como uma experiência de tempo. O “Te Deum” Este será a composição que, melodicamente, mais imediata é de apreender pelo ouvinte. Por isso sugerimos a sua audição.
Há imensas performances diferentes desta composição de Arvo Pärt. No player, podem disparar a performance do Coro da Rádio da Baviera, com a Orquestra da Rádio de Munique, dirigida pelo Maestro Peter Dijkstra. Nesta versão destacam-se, precisamente, o peso musical e o tempo, quiçá a interpretação mais arrastada que conhecemos.
Podem descobrir mais sobre a sua impressionante obra em https://www.arvopart.ee/

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