A banda-sonora que Bear McCreary criou para “The Rings Of Power” é um dos aspectos mais aclamados e unânimes da série dedicada à Segunda Era da Terra Média. Partindo da elegância das composições de Howard Shore, através de um exaustivo e minucioso trabalho, oferece-nos enorme riqueza e originalidade admirável.
Há poucos livros tão globalmente amados como a saga de Frodo Baggins. A trilogia de Peter Jackson fez crescer o público e – mesmo com os muito criticados três filmes que adaptaram “O Hobbit” – a sua visualização ganhou honras de experiência recorrente em qualquer lar. Aliás, esse sucesso junto do público e devoção à mais célebre obra literária de fantasia terá sido aquilo que motivou a Amazon a investir como nunca se fez antes numa série televisiva. “The Rings Of Power”, a nova incursão cinematográfica na Terra Média, é a série televisiva mais cara de sempre, tendo estreado em Setembro de 2022.
A história de “The Rings Of Power” decorre na Segunda Era da Terra Média que existe muito antes dos acontecimentos da trilogia original dos romances (que tem lugar na Terceira Era da Europa mística de Tolkien). Contudo, tudo se complica porque J.D. Payne e Patrick McKay (dois produtores da série) apenas têm acesso aos romances principais como fonte de material oficial e não podem extrair directamente nada de outros trabalhos publicados de Tolkien.
«Temos os direitos apenas a ‘A Irmandade do Anel’, ‘As Duas Torres’, ‘O Regresso do Rei’, aos respectivos apêndices, e ‘O Hobbit’», revelou Payne. «E é isto”. Não temos os direitos a ‘The Silmarillion’, ‘Contos Inacabados’, ‘A História da Terra Média’, nem a nenhum desses outros livros».
No fundo, os livros editados e organizados por Christopher Tolkien (o terceiro filho de J.R.R. Tolkien) são inacessíveis. As óbvias liberdades tomadas pelos produtores e roteiristas têm sido alvo de algum gatekeeping, mas se há uma coisa em que todos parecem concordar é que, depois das sumptuosas bandas-sonoras de Howard Shore para os filmes de Jackson, o compositor Bear McCreary manteve a fasquia altíssima, aproveitando a amplitude geográfica da narrativa de “The Rings Of Power” para explorar ainda mais possibilidades musicais.
Na épica primeira temporada de “The Lord Of The Rings: The Rings Of Power”, o compositor Bear McCreary teceu uma tapeçaria de orquestra sinfónica, percussão bombástica e instrumentos folclóricos de toda a Europa e do Norte de África, combinados com vocalistas a solo e coros que cantam nas línguas mitológicas dos livros de J.R.R. Tolkien. Nesta arrebatadora segunda temporada, sobre essa base já estabelecida McCreary construiu novos temas e cores dinâmicas, incluindo um coro feminino búlgaro e a gadulka para as terras de Rhûn, um coro infantil para a cidade élfica de Eregion, o violino Hardanger para a nova personagem Estrid e sussurros mortais para os aterradores Barrow-wights, além do poder vocal que paira sobre as cerebrais composições dos Meshuggah.
A Sombra Alastra
Um dos desenvolvimentos mais significativos da segunda temporada é a evolução do tema de Galadriel. Enquanto o tema original enfatizava a sua determinação e idealismo, a versão da segunda temporada de “The Rings Of Power” introduz variações de tons menores e uma orquestração mais pesada, reflectindo a sua descida à ambiguidade moral e a sua crescente obsessão em derrotar Sauron. O tema torna-se mais fragmentado em momentos de dúvida, espelhando a sua luta interna e os desafios que enfrenta ao lidar com o peso das suas decisões.
A presença de Sauron, sugerida subtilmente na primeira temporada, torna-se um foco central nesta temporada de “The Rings Of Power”. O seu tema insidioso, caracterizado por cordas atonais, percussão profunda e vozes sussurradas, evoca uma sensação de pavor e inevitabilidade. A transformação das Terras do Sul em Mordor é acompanhada por uma mudança gradual na música, com sopros pastorais e melodias esperançosas dando lugar a motivos dissonantes e texturas opressivas, simbolizando a corrupção da região. O mesmo percurso é utilizado para Eregion e a sua progressiva ruína. A música liga subtilmente o tema esperançoso inicial do reino dos ferreiros élficos com a sua eventual queda, criando uma continuidade arrepiante.
E nenhumas canções de “The Rings Of Power” são tão evocativas de saudade e melancolia como “Golden Leaves”, a canção de Gil-Galad que foi inspirada no poema da Canção de Galadriel n’”A Irmandade do Anel” (Elven-kind long have we dwelt / upon this hither shore / Now fading crown I trade / to sail to Valinor), e “Candles On The Tide”, que é como o inverso da esperançosa “Valinor”.
A música para Númenor também sofre uma transformação na segunda temporada de “The Rings Of Power”, adoptando um carácter mais marcial à medida que o reino enfrenta conflitos internos e ameaças externas. As influências mediterrânicas mantêm-se, mas a adição de tempos mais rápidos e metais proeminentes realça a crescente militarização e as tensões políticas no seio da sociedade. Esta evolução sublinha a trajetória da ilha em direcção à sua fatídica profecia, com a música a captar tanto a sua glória como a sua tragédia iminente.
Luz & Desespero
A segunda temporada de “The Rings Of Power” apresenta vários temas novos, cada um criado para acompanhar o alargamento da a narrativa e aprofundar a ligação do público à história. Os Acólitos (ou Místicos) e o Feiticeiro Negro, figuras enigmáticas envoltas em mistério, são acompanhados por um tema minimalista e assombroso, com vocalizações sinistras e percussão esparsa. Nomeadamente, a assombrosa “Rhûn”, com o aclamado Coro Vocal Feminino da Televisão Estatal Búlgara (ou, mais simplesmente, O Mistério das Vozes Búlgaras), realça a sua presença sobrenatural e o seu papel como agentes do caos.
Outro assombro coral é o canto das anãs que sonda a montanha, o espantoso crescendo de “Stone Singers”. Também aqui num tom desesperado e lamentoso, um sentimento que se estabelece inevitavelmente ao longo deste arco narrativo de “The Rings Of Power”. Isso não sucede sem aviso, logo no início Raya Yarbrough canta-nos a lacrimosa “The Pyre”, que chora a morte de Bronwyn.
Chegados aqui é preciso exaltar “Old Tom Bombadil”, e o seu reprise feminino (“The River-Daughter”), que, apesar de brincalhona e alegre, serve como um lembrete pungente dos elementos caprichosos e profundos que o mundo de Tolkien engloba. Os ritmos alegres e a instrumentação caprichosa desta peça acrescentam uma camada de calor e nostalgia (imperdoável omiti-lo dos filmes, Peter Jackson), contrastando com os momentos mais sombrios e melancólicos desta temporada de “The Rings Of Power”.
Estas canções, mais aproximadas ao cancioneiro tradicional das ilhas britânicas, tal como “This Wandering Day”, são enriquecidas pelas suas falhas. Sendo os próprios actores que protagonizam os personagens a cantá-las, sem recurso a auto-tune, sentem-se mais reais e com a candura que se reconhece nos originais literários.
The Last Ballad Of Damrod
“The Last Ballad Of Damrod (Feat. Jens Kidman)” foi lançada como single pela Roadrunner Records no dia 8 de Agosto de 2024. É uma canção sobre um cruel Troll das Montanhas, personagem que surge no terceiro episódio da segunda temporada, trazida à vida aterrorizante e gritante por Jens Kidman, o vocalista da banda sueca de metal extremo Meshuggah. A malha (porque é uma malha) encerra o sétimo episódio desta temporada de “The Rings Of Power”, após uma cena de batalha que envolve Damrod e é absolutamente imperativa para qualquer fã de high fantasy que se preze.
Diz McCreary: «Quando vislumbrei pela primeira vez Damrod, soube imediatamente que tinha de telefonar ao Jens Kidman. E assim, o poderoso vocalista dos Meshuggah, Jens deixou uma marca abrasadora em “The Last Ballad Of Damrod” com a sua performance vocal empolgante».
«Estou entusiasmado por juntar-me à Roadrunner Records, casa de algumas das minhas bandas favoritas de todos os tempos, como os Gojira e os Slipknot, para trazer esta música ao mundo. A minha colaboração com o Jens, e com o virtuoso baterista Gene Hoglan, em ‘The Last Ballad Of Damrod’, serve como introdução à minha exploração dos recantos mais sombrios do lendário de J.R.R. Tolkien», conclui McCreary sobre a colaboração com o frontman dos Meshuggah.
Digno de Tolkien
A integração da música com a narrativa é perfeita em “The Rings Of Power”, com as composições de McCreary a aumentarem o drama e o peso emocional das cenas principais. A continuada transformação das Terras do Sul, em e ao redor Mordor, e a queda de Eregion são os momentos mais significativos da temporada, e a música reflecte esta transição com uma poderosa interacção de motivos.
Os metais e cordas heróicos são gradualmente ultrapassados pelos motivos sinistros de Sauron, simbolizando a perda de esperança e a ascensão das trevas. Da mesma forma, quer sucedeu na primeira temporada de “The Rings Of Power”, com o entrelaçamento dos temas de Galadriel e Halbrand a prenunciar subtilmente a verdadeira identidade deste último, criando uma corrente subjacente de tensão e ambiguidade que enriquece a dinâmica musical e narrativa.
Quando comparada com a primeira temporada, a banda sonora da segunda temporada de “The Rings Of Power” é mais ambiciosa e experimental, espelhando os temas mais sombrios da série e a narrativa mais complexa. Enquanto a primeira partitura estabelece as bases com temas ricos e culturalmente específicos, a segunda leva estes elementos mais longe, explorando novas profundidades emocionais e tonais. Os motivos recorrentes criam uma sensação de continuidade, enquanto a sua evolução permite que a música cresça a par da história.
As partituras de Bear McCreary para “The Rings Of Power” são obras de mestre que honram e expandem o legado musical da Terra Média. Juntas, estas bandas sonoras formam uma viagem auditiva coesa e emocionalmente ressonante que eleva a narrativa e mergulha os espectadores no mundo rico e multifacetado criado por Tolkien.

Um pensamento sobre “The Lord of the Rings: The Rings of Power (Partitura 2)”