Beat

BEAT @ Beacon Theater, New York City, 05/10/2024

Jorge Loura foi ver Adrian Belew, Tony Levin e Danny Carey a Nova Iorque, num concerto triunfal da BEAT Tour – digressão dedicada aos anos 80 dos King Crimson, com o beneplácito de Robert Fripp. Sem rodeios, afirma aquilo que muitos suspeitavam, que é a melhor coisa na música em 2024.

«New York City, it doesn’t get any better than this!», exclama Adrian Belew no final de “Heartbeat”, terceiro tema do alinhamento de um concerto que, até há alguns meses, poucos imaginavam que pudesse acontecer. De facto, não me lembro de largar um tão imediato «Take my fucking money!» como no momento em que, numa publicação no Instagram, Tony Levin revelou que a BEAT Tour ia ser uma realidade.

Absolutamente singular, esta digressão. A formação dos King Crimson do início dos anos 80 deixou apenas três álbuns. Todavia, “Discipline” de 1981, “Beat” de 1982 e “Three of a Perfect Pair” de 1984 foram suficientes para cimentar um estatuto mítico na história do rock deste colectivo que esteve para se denominar “Discipline”.

No dia 10 de Outubro de 2014, no histórico e deslumbrante Beacon Theater, no coração da Broadway, em Manhattan, os 2900 presentes numa plateia esgotada estavam efectivamente rendidos ainda antes de ser tocada a primeira nota, com uma estrondosa ovação no momento em que os quatro músicos da BEAT Tour entraram em palco. Primeiro Adrian Belew, seguido de Tony Levin. Não estão Robert Fripp, nem Bill Brufford. Quando Belew fez a proposta a Fripp, este já tinha o compromisso de uma digressão com o projecto desenvolvido com a sua esposa, a diva punk Toyah Willcox.

No entanto, Fripp (o cérebro e mentor dos King Crimson) abençoou o projecto e deu-lhe o nome, tendo inclusivamente sugerido que o seu lugar só poderia ser assumido por Steve Vai, um alumni de Frank Zappa tal como Belew. Brufford, reformado da profissão de baterista há largos anos, terá respondido a Belew que não pretendia «passar um ano num circo de bagagens». Para a tarefa à partida impossível de tomar o seu lugar na BEAT Tour foi convocado Danny Carey, baterista dos Tool e que já havia colaborado com Belew no passado, além de ser um declarado fanático de King Crimson.

Não existe King Crimson sem Robert Fripp, e como tal ninguém foi ao engano: no cartaz estava escrito “BEAT”. Não é King Crimson nem é uma banda de tributo, mas é um pouco das duas coisas e ainda algo mais.

Antes Pelo Contrário

A entrada da/dos BEAT foi assassina, com “Neurotica” tocada com o virtuosismo de músicos de excelência com largas décadas de carreira, mas com a agressividade de miúdos punk de 20 anos. Belew e Levin, nos seus setenta e muitos, tocam com uma atitude que em nada fica a dever aos seus dois “jovens colegas” de sessenta e poucos, Vai e Carey.

Depois do furacão de “Neurotica”, “Neal and Jack and Me” desfaz todas as dúvidas de que Danny Carey foi de facto a escolha certa. Toda a linguagem de Brufford está lá e quando acerta ocasionalmente com tal violência no floor tom que o teatro estremece, lembra-nos que também está ali o tipo dos Tool. Mas nesta noite os Tool não tocam numa grande arena como de costume, e Carey demonstra a cada batida que está ali para honrar a música que tanto o influenciou com uma humildade e alegria desarmantes.

Steve Vai aparece num papel a que não nos habituou. Longe da exuberância de quando se apresenta a solo ou até dos seus tempos de sideman de David Lee Roth, surge em pose discreta no lado esquerdo do palco, com um chapéu de aba larga e concentrado na sua quase sobre-humana função: tocar na perfeição as partes clássicas de Robert Fripp.

E quase sobre-humano não é hipérbole: até um tal de Steve Vai teve em algumas passagens de recorrer a hybrid-picking para conseguir reproduzir a técnica de alternate picking de Robert Fripp. Quanto ao tone, não é possível reproduzir com total fidelidade o som de Fripp, nem tal parece ter sido tentado, é Steve Vai a honrar King Crimson e a passar com distinção. Em “Sartori in Tangier” percebe-se que há também liberdade para alguma improvisação, e nesses momentos solta o seu lado mais shredder, mas sem nunca soar fora de contexto.

De facto ou, como disse o poético Gabriel Alves, antes pelo contrário, Danny Carey e Steve Vai não se limitam a copiar as partes originais, injectando em vários momentos o seu cunho pessoal. Tratam a música dos King Crimson como um organismo vivo e ajudam a que BEAT soe fresco e excitante e não a exercício de nostalgia.

Não há truques, há um grupo de músicos de elite a tocar ao melhor nível com um bónus de alegria e humor desarmantes.

Nesta altura, já se desfizeram todas as dúvidas de que estamos perante aquela que é, muito provavelmente, a melhor banda do mundo neste Ano da Graça de 2024. Adrian Belew é um guitarrista, cantor e performer monstruoso e singular, e isto é dizer pouco de alguém que além de King Crimson tem no currículo Frank Zappa, David Bowie, Talking Heads, Paul Simon ou Nine Inch Nails. Explora todos os sons imagináveis na guitarra e, aos 77 anos, a sua voz parece não sentir a passagem do tempo.

E o que dizer de Tony Levin? Com 78 anos mantém uma forma física invejável e continua a transbordar carisma, seja a tocar o impossível com o idiossincrático baixo Chapman Stick, seja a debitar grooves demolidores e inimitáveis com um Music Man Stingray. Entra em palco de máquina fotográfica na mão e regista todos os momentos possíveis. As fotos podem ser vistas no seu diário da tour em tonylevin.com.

Quando o quarteto ataca “Dig Me”, sobe ainda mais o nível de estupefacção na plateia, com a constatação de que aquela música abstracta e virtuosa é mesmo possível de ser tocada ao vivo. Não há truques, há um grupo de músicos de elite a tocar ao melhor nível com um bónus de alegria e humor desarmantes. Mais do que tudo, em alguns momentos facilmente nos esquecemos de que fomos ali para ouvir King Crimson e já estamos a desfrutar de uma banda bem oleada neste seu décimo nono concerto da BEAT Tour.

Segue-se uma sequência de quatro temas retirados de “Three of a Perfect Pair”, com o palco iluminado a amarelo (a cada tema a cor dominante era vermelho, amarelo ou azul, consoante a cor da capa de cada álbum). A sequência abre com a belíssima “Model Man” e, na sequência, “Man With an Open Heart” só peca pela frustração de não estarmos numa plateia em pé, a dançar do primeiro ao último compasso.

“Industry” é comandada por Levin e Carey, que naquele momento parecem uma secção rítmica formada por dois comparsas que tocam juntos desde miúdos. Por fim, eis a pesadíssima “Lark’s Tongues in Aspic Pt. 3”, antes de uma interrupção de 15 minutos para que a banda possa descansar um pouco depois daquela tempestade do primeiro set da BEAT Tour (e o público agradece!).

Uma Rápida Sucessão de Expectável Assombro

Regressamos aos lugares. Na frente do palco da BEAT Tour estão agora montados pads de percussão e sabemos perfeitamente o que aí vem: “Waiting Man” seguida da hipnótica “The Sheltering Sky”. “Sleepless”, um tema que poderia ter sido feito por Trent Reznor, se fosse 10 anos mais velho e tivesse conhecido David Byrne em 1982, arranca com o som colossal do Chapman Stick de Levin a dar gás a uma autêntica locomotiva techno.

Quando Belew e Vai introduzem “Frame by Frame”, com o desconcertante loop de guitarra a la Steve Reich, a plateia entra em erupção. Danny Carey dá um prego durante o segundo verso, e nós sorrimos e agradecemos por, finalmente, termos um sinal de que o palco está a ser pisado por seres humanos. “Matte Kudasai” é uma das mais belas canções alguma vez escritas e eu ouvi-a ser tocada à minha frente de forma magistral, e é tudo o que tenho a dizer sobre este momento da BEAT Tour.

“Elephant Talk” provoca no público a reacção esperada a um dos temas mais famosos da banda, com o seu groove contagiante e os sons animalescos gerados pela guitarra de Belew em conjugação com o velhíssimo Electro Harmonix Echoflanger, montado num suporte para que possa ser manipulado com as mãos. Vai toca o icónico solo sintetizado de Fripp, mas a banda estende a secção e ele segue para um solo mais shredder, ao seu melhor estilo.

Nesta altura do concerto já ninguém leva a mal. Steve Vai passou a noite a dar-nos o melhor Robert Fripp que alguém poderia dar e, que raio, quem é que se pode queixar de pagar um bilhete e ter como bónus um momento de Steve Vai a ser Steve Vai?

Coincidentemente ou não, o solo de Belew em “Elephant Talk” é talvez o mais Zappiano de todos os seus solos e, de certa forma, sentimos que nesta BEAT Tour presenciámos um momento de “regresso a casa” para ambos os músicos (Vai substituiu Belew na banda de Zappa no papel de “stunt guitarist”).

A seguir a “Three of a Perfect Pair”, Adrian Belew brilha ainda mais como mestre de cerimónias e líder da banda em “Indiscipline”, provocando gargalhadas com a sua gestão do timing de entrada em cada frase declamada, desaguando na pleonástica linha «I repeat myself when under stress!». Antes, Carey reproduz fiel e magistralmente o solo de Brufford na introdução. No final desta execução, a banda sai do palco e regressa para o muito exigido encore de BEAT.

¿EUROPA?

Adrian Belew dirige-se de novo ao público para apresentar a banda. Após apresentar Steve Vai e Danny Carey para os mais do que merecidos aplausos, refere que todas as canções que se ouviram ao longo da noite foram escritas por ele e Tony Levin, e nesse momento agradece aos dois colegas e co-autores em falta, Robert Fripp e Bill Brufford, por aqueles curtos, mas produtivos anos nos quais fizeram os álbuns e a música que são a razão para a BEAT Tour e aquela noite acontecer.

A ovação em pé a Beat ter-se-á ouvido em Brooklyn. Desculpa perfeita para tocar um tema do último álbum gravado pela última formação dos King Crimson com Fripp e Brufford, mas ainda sem Belew e Levin. Momento especial em que os quatro músicos estão em pé de igualdade a homenagear música na qual nenhum participou. A banda entra a matar em “Red” (do álbum “Red”, 1974) e a casa vem abaixo.

O alinhamento fecha com “Thela Hun Ginjeet” e já ninguém está sentado e tudo termina em festa e ovação. Tony Levin fotografa o público e à banda, Danny Carey atira baquetas às primeiras filas, Steve Vai e Adrian Belew sorriem com a sensação de dever cumprido. Uma última vénia e voltamos à vida real. As luzes acendem e imediatamente estamos a pensar no dia em que seja anunciado que a BEAT Tour vem à Europa, porque actualmente não há concerto que valha mais a pena ver do que este.

A setlist de Beat, no Beacon Theater, em Nova Iorque: Neurotica; Neal and Jack and Me; Heartbeat; Sartori in Tangier; Dig Me; Model Man; Man With an Open Heart; Industry; Larks’ Tongues in Aspic (Part III); Waiting Man; The Sheltering Sky; Sleepless; Frame by Frame; Matte Kudasai; Elephant Talk; Three of a Perfect Pair; Indiscipline; Red; Thela Hun Ginjeet.

As fotos são de Tony Levin. O texto é do Jorge Loura.

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