Carlos Magno

Carlos Magno e os Pilares da Europa: A Cruz, Excalibur & Durindana

Os paralelismos entre as lendas arturianas e as canções de gesta de Carlos Magno. O catolicismo, a cavalaria e a formação das fronteiras e dos ideais europeus.

A história da Europa medieval está profundamente entrelaçada com os ideais de cavalaria, contos de heroísmo e a construção de narrativas lendárias que moldaram as fronteiras políticas e culturais actuais. Entre as lendas mais duradouras contam-se as do Rei Artur e de Carlos Magno, cujas histórias simbolizam o ethos da liderança, da justiça e do direito divino de governar.

São antecedidos por um cisma que veio do oriente e cuja resolução delineou a grande força transcendentalmente ética e estética. Tanto a lenda arturiana como as narrativas históricas que se fundem com o mito de Carlos Magno são ricas em simbolismo e temas que reflectem o conceito medieval de cavalaria – um código que moldou não só a conduta individual, mas também a paisagem geopolítica da Europa.

Procuremos então explorar os paralelos entre estas duas figuras imponentes, examinando a forma como os ideais de cavalaria que lhes estão associados influenciaram a formação das fronteiras europeias e o papel da consolidação religiosa sob Clóvis na preparação do terreno para o legado de Carlos Magno.

Niceia (325 d.C.)

De uma forma muito resumida, o cisma entre o arianismo e o catolicismo no início do cristianismo teve origem em divergências teológicas sobre a natureza de Cristo e a sua relação com Deus Pai. O arianismo, uma doutrina iniciada pelo sacerdote alexandrino Ário no início do século IV, defendia que Jesus Cristo não era coeterno com Deus Pai, mas sim um ser criado, subordinado ao Pai. Isto contradizia directamente a visão trinitária defendida pelo que se tornou o catolicismo ortodoxo, que ensinava que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são coeternos e consubstanciais (da mesma essência).

O conflito chegou ao auge no Primeiro Concílio de Niceia, convocado pelo imperador Constantino I em 325 d.C.. Este concílio ecuménico centrou-se principalmente na resolução da controvérsia ariana. O concílio rejeitou o arianismo, afirmando a doutrina da plena divindade de Cristo no Credo Niceno, que declara que Jesus é «gerado, não feito, consubstancial ao Pai». Ário e os seus seguidores foram anatematizados e a visão trinitária tornou-se a base da doutrina católica. No entanto, o arianismo manteve um apoio significativo em partes do Império Romano e, no geografia que mais importa a este texto, fez uma migração do arianismo para a Europa franca.

O arianismo encontrou refúgio entre as tribos germânicas, particularmente os godos, os vândalos e os lombardos, em grande parte devido ao trabalho missionário de Ulfilas, um bispo que converteu muitas tribos góticas ao cristianismo ariano. Quando estas tribos entraram nos territórios romanos, trouxeram frequentemente consigo o arianismo, levando a uma divisão religiosa entre as elites germânicas arianas e as populações católicas romanas.

Os grupos arianos mais proeminentes na Europa foram os visigodos em Espanha e na Gália, os ostrogodos em Itália e os vândalos no Norte de África. Com o passar do tempo, porém, o arianismo começou a desaparecer à medida que estes reinos se convertiam ao catolicismo. Hoiuve três momentos determinantes para esse efeito:

1) A Conversão de Clóvis I (496 d.C.): O rei franco Clóvis I converteu-se ao cristianismo católico, alinhando os francos com a Igreja Católica Romana. Este acontecimento marcou um golpe significativo na influência do arianismo na Europa Ocidental.

2) O Terceiro Concílio de Toledo (589 d.C.): O rei visigótico Reccardo I renunciou ao arianismo e converteu-se ao catolicismo, levando o seu povo a fazer o mesmo. Este acontecimento foi fundamental para a extinção do arianismo na Península Ibérica.

3) O Declínio dos Ostrogodos e dos Vândalos: Os reinos Ostrogótico e Vândalo, ambos arianos, foram conquistados pelo Império Bizantino, sob o comando de Justiniano I, no século VI, o que levou à supressão das práticas arianas em favor do catolicismo.

No século VII, o arianismo tinha basicamente desaparecido como um movimento distinto. A sua integração nas culturas germânicas e a eventual assimilação destas tribos pela Igreja Católica não deixaram uma presença institucional duradoura. O catolicismo, tal como definido pelo Credo Niceno e pelos concílios posteriores, emergiu como a tradição cristã dominante na Europa Ocidental e em grande parte da Europa Oriental.

O Rei Que Foi e Um dia Será

As lendas arturianas centram-se no Rei Artur, o mítico governante de Camelot, cuja corte era o lar dos cavaleiros da Távola Redonda. Embora as suas origens antecedam Carlos Magno, estando profundamente enraizadas em contos galeses e bretões, a lenda arturiana floresceu numa tradição literária medieval posterior, através de obras como Historia Regum Britanniae de Geoffrey de Monmouth, no final da Idade Média, e Le Morte d’Arthur de Sir Thomas Malory, já na Idade Moderna. Os elementos centrais da lenda – a espada de Artur, Excalibur, o seu ministro mago/druída Merlin, a sua rainha Guinevere e a busca do Santo Graal – personificam os valores do heroísmo, da lealdade e da pureza espiritual.

Como R. S. Loomis salienta em The Development of Arthurian Romance, o mito arturiano surgiu numa época em que a Europa estava dividida em territórios feudais, cada um deles a lutar pelo domínio. As histórias serviram de cola cultural, proporcionando um ideal partilhado de governação e moralidade. A corte de Artur era representada como um círculo igualitário onde os cavaleiros defendiam a justiça e protegiam os fracos – um reflexo direto do código de cavalaria.

Carlos Magno: O Imperador Histórico & Lendário

Carlos Magno (742-814), também conhecido como Carlos, o Grande, foi um rei franco que expandiu o seu reino para incluir grande parte da Europa Ocidental e Central, lançando as bases para o Sacro Império Romano-Germânico. Carlos Magno foi uma figura histórica cuja vida foi relatada em textos como “Vita Karoli Magni”, de Einhard. No entanto, com o tempo, a imagem de Carlos Magno transformou-se em lenda, misturando factos históricos com narrativas romantizadas, como as que se encontram na “Chanson de Roland” e noutras canções de gesta.

O reinado de Carlos Magno simbolizou a união do poder secular com a autoridade divina. As suas conquistas foram justificadas como uma missão para espalhar o cristianismo e a sua corte tornou-se um centro de renascimento cultural e intelectual conhecido como o Renascimento Carolíngio. Estudiosos como Rosamond McKitterick, na sua obra seminal “Charlemagne: The Formation of a European Identity”, salientam a forma como Carlos Magno utilizou a religião e a cultura para cimentar o seu domínio e unificar o seu império.

Uma base fundamental para o governo de Carlos Magno, como já se salientou, foi estabelecida pelo seu antepassado, o rei Clóvis I (466-511). A conversão de Clóvis ao catolicismo, em 496 d.C., marcou um momento decisivo na história da Europa. Numa altura em que grande parte da aristocracia germânica aderiu ao cristianismo ariano – uma doutrina considerada herética pela Igreja Católica – a adesão de Clóvis ao catolicismo alinhou o reino franco com a Igreja Católica Apostólica Romana.

Esta aliança não só legitimou o governo de Clóvis, como também estabeleceu um precedente para a estreita relação entre os governantes francos e o papado. Na época de Carlos Magno, esta parceria tinha-se solidificado, permitindo à dinastia carolíngia posicionar-se como defensora da ortodoxia contra ameaças internas e externas. Como observa o historiador Peter Brown em “The Rise of Western Christendom”, a consolidação católica sob Clóvis reformulou o mapa religioso e político da Europa, abrindo caminho para os esforços posteriores de Carlos Magno para, primeiro, estancar a invasão muçulmana da Europa através da Península Ibérica e, depois, unificar o continente sob uma bandeira cristã.

O Código da Cavalaria

Tanto o mito arturiano como a lenda de Carlos Magno são sustentados pelo Código da Cavalaria, um conjunto de directrizes éticas que ditavam o comportamento de cavaleiros e governantes. Os princípios fundamentais da cavalaria incluíam a Lealdade) a lealdade ao seu senhor ou soberano era fundamental, algo eprsonificado em Percival; a Coragem) tanto os cavaleiros de Artur, como Lancelot, como os guerreiros de Carlos Magno, como Rolando, eram exemplos de bravura em combate.

A seu lado observava-se o princípio da Justiça. A legitimidade de um governante assentava na sua capacidade de fazer justiça. A Távola Redonda de Artur simbolizava a igualdade e a justiça, enquanto as reformas legais de Carlos Magno procuraram criar um código de leis unificado.

Por fim, o Código da Cavalaria estava profundamente ligado aos valores cristãos da Piedade e da Caridade (Proteger os fracos). A busca do Santo Graal por Artur e as campanhas de Carlos Magno contra tribos pagãs reflectiam uma missão divina. E esperava-se que os cavaleiros defendessem os indefesos, um tema predominante em ambas as tradições.

Estes ideais partilhados não só deram forma às histórias de Artur e Carlos Magno, como também tiveram efeitos tangíveis na sociedade europeia medieval e nas suas fronteiras políticas.

Os Mosteiros na Formação dos Ideais Cavalheirescos

A formação do Código da Cavalaria foi profundamente influenciada pelo clero e pelas comunidades monásticas. Os mosteiros não eram apenas centros espirituais, mas também repositórios de conhecimento durante a chamada “Idade das Trevas”. Preservavam textos clássicos, copiavam manuscritos e serviam de centros educativos para a nobreza. Estes esforços asseguraram a transmissão da ética e dos valores cristãos, que se tornaram fundamentais para o código de cavalaria.

O clero desempenhou um papel activo na definição das dimensões morais e espirituais da cavalaria. Os conselhos eclesiásticos procuravam frequentemente regular o comportamento dos cavaleiros, promovendo os ideais de piedade, justiça e proteção dos mais fracos. Por exemplo, os movimentos “Paz de Deus” e “Trégua de Deus”, iniciados pela Igreja, tinham como objectivo reduzir a violência entre a classe guerreira, sublinhando o seu dever de defender os inocentes e de manter os princípios cristãos.

As ordens monásticas, como os beneditinos e, mais tarde, os cistercienses, foram fundamentais na formação do ethos da cavalaria. Os seus ensinamentos enfatizavam a humildade, o serviço e a devoção a Deus, qualidades que foram integradas no ideal do cavaleiro cristão. A influência dos valores monásticos é evidente na busca arturiana do Santo Graal, um símbolo de pureza espiritual, e nas campanhas de Carlos Magno, que eram frequentemente retratadas como missões sancionadas por Deus.

O Renascimento Carolíngio, liderado por Carlos Magno, realça ainda mais a relação simbiótica entre a Igreja e o ideal cavalheiresco. Ao promover um renascimento da aprendizagem e da cultura centrado nos ensinamentos cristãos, a corte de Carlos Magno tornou-se um modelo de integração da fé e da governação. O papel do clero nesta renovação intelectual e espiritual sublinha a sua contribuição para o desenvolvimento de um quadro moral que definia a cavalaria e a governação.

A influência dos ideais cavalheirescos estendeu-se para além da literatura, moldando a paisagem política e cultural da Europa medieval. As narrativas paralelas de Artur e Carlos Magno forneceram um quadro para a unificação e divisão de territórios, uma vez que os governantes procuraram imitar estas figuras lendárias.

Unificação: Do Feudalismo às Cruzadas

As lendas de Artur e Carlos Magno serviram como forças unificadoras numa Europa fragmentada. Os contos arturianos, com a sua ênfase no igualitarismo da Távola Redonda, ofereciam uma visão de unidade entre senhores rivais. Do mesmo modo, o papel de Carlos Magno como protector da Cristandade e arquitecto do Império Carolíngio constituiu um modelo de governação centralizada. O império de Carlos Magno foi um precursor da ideia de uma Europa unida.

A sua coroação como Sacro Imperador Romano-Germânico, em 800 d.C., pelo Papa Leão III, simbolizou a fusão da autoridade temporal e espiritual. Este acto estabeleceu um precedente para o direito divino dos reis, um conceito que influenciou as reivindicações territoriais e a governação das monarquias medievais.

A cavalaria e o feudalismo estavam profundamente interligados e ambos desempenharam um papel fundamental na delimitação das fronteiras. O sistema feudal, com a sua hierarquia de senhores e vassalos, reflectia o ideal cavalheiresco de lealdade. A descentralização inerente ao feudalismo levou frequentemente a conflitos sobre limites territoriais, mas também criou redes de alianças que estabilizaram as regiões.

A lenda arturiana reflecte esta estrutura feudal. Os cavaleiros da Távola Redonda estavam ligados por juramentos ao seu rei, tal como os vassalos aos seus senhores. Do mesmo modo, o império de Carlos Magno assentava numa rede de condes e duques que governavam em seu nome, reforçando a ideia de uma sociedade hierárquica mas cooperativa.

O ideal cavalheiresco foi também fundamental para as Cruzadas, uma série de campanhas militares que expandiram a influência europeia para além das suas fronteiras tradicionais. Tanto as narrativas arturianas como as de Carlos Magno glorificavam a defesa da cristandade, inspirando os cavaleiros a tomarem a cruz.

As campanhas de Carlos Magno contra os saxões e os mouros foram muitas vezes retratadas como precursoras das Cruzadas e da Reconquista, enfatizando os objectivos duplos da expansão territorial e da conversão religiosa. Os contos arturianos, como a Demanda do Graal, deram às Cruzadas um sentido de objectivo espiritual. A expansão das fronteiras europeias durante este período foi assim justificada pelo ethos cavalheiresco.

Divergências & Legado

Embora os mitos artuianos e carolíngios partilhem muitas semelhanças, também divergem de forma significativa. A história de Artur é, em última análise, trágica, marcada pela traição e pela queda de Camelot. Isto reflecte a fragilidade da unidade idealista face às falhas humanas. Em contrapartida, a narrativa de Carlos Magno é uma narrativa de triunfo e de legado duradouro, simbolizando a resiliência da construção de um império.

O foco geográfico também difere, obviamente. A lenda arturiana está enraizada na Grã-Bretanha e na sua paisagem mítica, enquanto a influência de Carlos Magno se estende a um vasto território europeu. Estas diferenças sublinham os contextos culturais e históricos distintos em que estas lendas se desenvolveram.

Todavia, os ideais de cavalaria, tal como encarnados por Artur e Carlos Magno, continuaram a moldar a identidade europeia muito depois do período medieval. Durante o Renascimento, o renascimento do interesse pelos textos clássicos e medievais revigorou as tradições arturianas e carolíngias. O movimento romântico do século XIX elevou ainda mais estas lendas a símbolos de orgulho nacional e de património cultural.

Nos tempos modernos, as lendas de Artur e Carlos Magno continuam a ser metáforas poderosas de liderança, justiça e unidade. Recordam-nos o poder duradouro das histórias para moldar não só os ideais individuais mas também as fronteiras das nações.

Os paralelismos entre ambos revelam uma base cultural comum que ajudou a definir os ideais da Europa medieval. Estas narrativas forneceram um modelo de governação, inspiraram a formação de alianças e justificaram a expansão territorial. Os ideais de cavalaria – lealdade, coragem, justiça, piedade e proteção dos mais fracos – não só moldaram as histórias destas figuras lendárias, como também influenciaram a paisagem geopolítica e jurídica da Europa, a própria democracia.

Bardos & Heavy Metal

Além dos mosteiros, estas lendas percorreram mais rapidamente as cortes europeis e o imaginário do povo através da música. Desde as épicas narrativas nas canções de gestas, como a famosíssima La Chanson de Roland, que celebram os feitos heróicos da cavalaria.

Eram, acima de tudo, poemas de carácter secular e os trovadores acrescentavam-lhe uma natureza romântica e não houve heróis mais adorados como Tristão e Isolda neste particular. Aliás, é no perído medieval tardio e já na música da Renascença que os temas arturianos foram revisitados com maior vigor, através de uma profunda visão romatizada de Camelot.

Entre intérpretes modernos, destacamos a Ensemble Ligeriana, dirigida por Katia Caré, a interpretar a Carmina Carlingiana, uma colecção de obras poéticas dos séculos IX e X que evocam acontecimentos ligados ao Império Carolíngio: o lamento pela morte do Rei, a batalha de Fontenay-en-Puisaye, o saque da abadia de São Florento e a paixão do Imperador pelos poetas da antiguidade romana, Boécio, Horácio, Virgílio…

Restam poucos e preciosos vestígios deste repertório que testemunha o gosto das cortes imperiais pela poesia e pelas artes. As peças registadas nesta antologia são das poucas que conservaram a sua notação musical, um mero conjunto de neumas escritas por cima das palavras.

A partir do século XVII, estes temas foram ciclicamente revisitados nas grandes óperas europeias e nos nossos dias, o heavy metal e o power metal, tradicionalmente, também tornam as fronteiras entre o real e o imaginário bastante difusas e sempre extrairam muito do seu conteúdo aos manuais de história nos seus momentos mais impactantes e ao universo literário fantástico.

Até pela herança de muitas bandas do género se situar no prog rock dos anos 70, cujos temas líricos acompanhavam uma transcendência que a sonoridade impunha ao mundo racional do ouvinte. É nessa idade quase lendária do rock que surgiram os álbuns conceptuais e as óperas rock.

A partir dessas influências várias bandas fizeram a sua discografia em crescendo de maturação e descoberta de fusão entre uma atmosfera medieval, mágica e elementos épicos, com enormes e complexas camadas de orquestração e registos vocais. Talvez nenhuma banda o faça tão bem como os Blind Guardian. Os mitos arturianos assumem um papel central no álbum “Imaginations From The Other Side”.