A igreja pré-constantiniana, a mais antiga já escavada, e o impressionante mosaico com a inscrição «Deus Jesus Cristo», considerados a maior descoberta da arqueologia bíblica desde os Manuscritos do Mar Morto.
Recentemente ocupou o espaço mediático a descoberta de um antiquíssimo mosaico com a inscrição «Deus Jesus Cristo», a mais antiga referência à natureza divina de Cristo e uma evidência de que esse dogma cristão precede debates tão notáveis como o que foi o centro do Concílio de Niceia. Acontece que, apesar de só agora terem incidido os holofotes dos mass media sobre a descoberta, esta já tem alguns anos e é envolvida por uma história absolutamente notável.
Vassilios Tzaferis (falecido em 2015) foi um monge ortodoxo grego que escreveu extensivamente sobre monges e mosteiros do período bizantino. Escavou numerosos sítios em Israel, incluindo Beth Shean, Cafarnaum, Tel Dan e Jerusalém. Membro do Conselho Supremo de Arqueologia de Israel, foi Director de Escavações e Levantamentos da Autoridade de Antiguidades de Israel de 1991 a 2001. O artigo que se segue é uma tradução e adaptação do texto original que o académico publicou na Biblical Archaelogy Society.
No final da década de 1990, as autoridades de uma prisão próxima a Tel Megiddo, no norte de Israel, decidiram que precisavam de mais espaço. Contudo, assim que as obras de ampliação iniciaram não demorou muito para que os trabalhadores encontrassem restos arqueológicos. As obras foram naturalmente interrompidas e a Autoridade de Antiguidades de Israel foi notificada.
Foi organizada uma escavação de resgate sob a direcção do arqueólogo Yotam Tepper, auxiliada pelos prisioneiros; aliás, Tepper dedicou o seu panfleto público sobre a escavação «aos reclusos das prisões de Megiddo e Zalmon, cujas circunstâncias pessoais reuniram-nos na escavação e sem cujo labor e dedicação não teríamos exposto as descobertas no local».
O que Tepper e os prisioneiros desenterraram é provavelmente a igreja mais antiga já descoberta na Terra Santa (os escavadores datam-na da primeira metade do século III, por volta de 230 d.C.) e uma das pouquíssimas igrejas desse período inicial em qualquer lugar do mundo — de um tempo anterior à cristianização do Império Romano, que ocorreu no início do século IV, durante o reinado de Constantino, o Grande.
Maximianopolis
Pesquisas arqueológicas anteriores na área haviam identificado o sítio de uma antiga aldeia judaica, bem como a sede de duas legiões romanas e, posteriormente, a cidade bizantina de Maximianopolis, adjacente à aldeia judaica. A aldeia, Kfar Othnay, é mencionada em fontes judaicas (Mishnah Gittin 7:7) e nos escritos de Ptolomeu, além de figurar no famoso mapa de Peutinger (originalmente desenhado no século II d.C.), onde é chamada pelo seu nome latino, Caporcotani.
Escavações revelaram vários miqva’ot (banhos rituais judaicos), mas é possível terem sido usados por samaritanos em vez dos judeus, pois as fontes também indicam que Othnay era lar de samaritanos. Nos séculos II e III, os romanos construíram um acampamento militar próximo à aldeia judaica, onde pelo menos duas das suas legiões, a Segunda Traiana e a Sexta Ferrata, foram estacionadas. Toda a região passou a ser conhecida como Legio. O nome árabe moderno do local, El Lajjun, preserva a memória do acampamento militar romano Legio. As escavações revelaram dezenas de telhas com os carimbos das referidas legiões e uma estatueta de bronze do deus doméstico romano Lar.
No final do período romano e durante o período bizantino, a aldeia judaica e o acampamento romano Legio tornaram-se parte de uma cidade chamada Maximianopolis, em homenagem ao imperador ocidental Maximiano (286–305). Um bispo da urbe participou do influente Concílio de Niceia em 325, revelando a sua importância como comunidade cristã mesmo depois da retirada das legiões romanas. Após a conquista árabe no século VII, Maximianopolis tornou-se a capital fortificada do distrito da Palestina Secunda.
O edifício onde a estatueta de bronze foi encontrada era uma grande estrutura de pelo menos 20 por 30 metros na extremidade da aldeia judaica. Essa estrutura (rectangular) apresentava um pátio central aberto, cercado por pequenos cómodos e salões, com várias funcionalidades.
No canto sudoeste localizava-se um espaço que servia uma função religiosa tanto para os cristãos do exército como para a comunidade cristã local. No extremo sudoeste do edifício encontra-se o que os escavadores chamam de uma sala de oração cristã, medindo cerca de 5 por 10 metros. Pilastras monolíticas projectadas das paredes sustentariam um arco que se erguia acima e sob o qual estavam duas pedras rectangulares encaixadas no pavimento da sala. Essas pedras quase certamente serviam de suporte para uma espécie de mesa destinada à Eucaristia (trapeza).
Mosaico
A descoberta mais espectacular da escavação, no entanto, foi um belíssimo piso de mosaico, que indica claramente a função da sala. Em cada um dos quatro lados dos restos da mesa da Eucaristia (a base da qual os escavadores chamam podium) encontram-se painéis individuais de mosaico, delimitados por linhas rectas de tésseras pretas. Nos dois painéis laterais, o mosaico consiste apenas em padrões geométricos.
Nos lados frontal e traseiro (norte e sul), os painéis são mais elaborados. O painel do lado sul contém duas inscrições que se confrontam. O do lado norte contém não apenas uma inscrição informativa, mas também um rectângulo elaborado que contém oito rectângulos e losangos mais pequenos, formando um octógono interno. Dentro do octógono, as tésseras decorativas transformam o octógono num círculo ou medalhão. No centro do medalhão estão dois peixes voltados em direcções opostas – um símbolo indubitavelmente cristão.
A palavra grega para peixe é ichthys, que se diz ter sido adoptada como símbolo cristão porque contém as letras iniciais do título “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador” em grego (I[esous] Ch[ristos] Th[eou] Y[ios] S[oter]; Ι[ησοῦς] Χ[ριστός] Θ[εοῦ] Υ[ἱός] Σ[ωτήρ]). Além disso, os peixes são mencionados nos Evangelhos, em episódios como a multiplicação dos pães e dos peixes (Mateus 14:16–21; 15:32–38; Marcos 6:38–44; Lucas 9:12–17), a pesca miraculosa de Simão Pedro no Mar da Galileia (Lucas 5:4–7) e o milagre em que Pedro encontra uma moeda no peixe para pagar o imposto de meio siclo em Cafarnaum (Mateus 17:24–27). Nessa época, aliás, a cruz ainda não tinha sido adoptada como o principal símbolo cristão.
As três inscrições gregas nos mosaicos, publicadas pela principal epigrafista grega de Israel, Leah di Segni, estão em molduras rectangulares dentro dos maiores painéis rectangulares. A inscrição no lado norte da base da mesa é uma inscrição memorial típica, com os nomes de quatro mulheres: Primilla, Cyriaca, Dorothea e Chreste; alargando o debate sobre o lugar das mulheres na igreja primitiva. Uma segunda inscrição, no lado direito a norte, homenageia o homem que financiou o mosaico e o artesão que o criou:
Gaianus, também chamado Porphyrius, centurião, nosso irmão, fez o pavimento às suas próprias custas como um acto de generosidade. Brutius executou o trabalho.
Isto é uma indicação clara de que os cristãos que oravam nesta sala de oração eram soldados romanos. O doador da sala de oração foi um oficial romano, um centurião. Que havia uma comunidade de congregantes é indicado pelo uso do termo «nosso irmão».
A terceira e última inscrição deixa claro, sem sombra de dúvida, que este lugar foi destinado a atender às necessidades religiosas da comunidade cristã organizada no acampamento militar romano. Ela também elimina qualquer dúvida de que uma mesa existiu no centro da sala – financiada por uma mulher chamada Akeptous:
A devota Akeptous ofereceu a mesa ao Deus Jesus Cristo como memorial.
As palavras “Deus Jesus Cristo” na penúltima linha estão abreviadas numa contracção, consistindo nas primeiras e últimas letras das duas palavras. Acima das duas palavras sagradas há uma linha recta. Embora estas abreviaturas e a linha acima que indica palavras sagradas fossem uma prática comum mais tarde, esta é a sua primeira atestação. E esta é a inscrição mais antiga já encontrada em Israel, e talvez em qualquer parte, que menciona Jesus Cristo (mais ainda, afirmando-O como Deus)!
A palavra “oferecer” é de especial interesse. O termo grego prosferein (“oferecer”) remete para a linguagem dos Evangelhos; por exemplo, os Magos, seguindo a estrela do Oriente, “oferecem” ao menino Jesus presentes de ouro, incenso e mirra (Mateus 2:11). A palavra para memorial, mnemosynon, tem a sua própria história. Em Actos 10:4, onde Cornélio, o centurião, se torna o primeiro gentio convertido ao Cristianismo, um anjo diz-lhe que as suas orações e esmolas subiram como um memorial (mnemosynon).




A mais antiga inscrição de que ‘Jesus é Deus’ foi revelada sob o chão de uma prisão israelita. O mosaico com 1800 anos, descoberto por um recluso da prisão de Megiddo, possui 581 metros quadrados e decorou a mais antiga sala de oração cristã já descoberta, confirmando que os cristãos acreditam que Jesus é o filho de Deus desde o início.
O pavimento esteve oculto debaixo da prisão até ao início das obras e posteriores trabalhos arqueológicos, descoberto em 2005. Foi agora emprestado a um museu em Washington, DC, até Julho de 2025. Carlos Campo, director do museu, saudou o mosaico como «a maior descoberta desde os Manuscritos do Mar Morto», enquanto colegas académicos observaram que se trata da «mais importante descoberta arqueológica para compreender a igreja cristã primitiva».
Datação
As salas adjacentes à sala de oração nesta ala do edifício serviam as múltiplas necessidades religiosas e sociais da comunidade cristã de soldados romanos: sacristias, baptistérios, confessionários, entre outras. Como podemos datar este complexo de edifícios? Há várias indicações: cerâmica, moedas e a paleografia das inscrições gregas. Os escavadores datam os cacos de cerâmica encontrados por baixo e por cima dos pisos do edifício ao século III. Alguns cacos numa das salas apresentam uma faixa cronológica maior, desde o início do século III até ao início do século IV.
As evidências numismáticas apontam para as mesmas datas — ou seja, para os séculos II, III e IV. A epigrafista Leah di Segni também considera plausível uma datação ao século III com base na paleografia e nas formas comparativas nas inscrições. O escavador data, de forma provisória, a construção do edifício para o primeiro terço do século III: um período que sugere ter sido tranquilo para os cristãos. Essa calma seria interrompida por Maximino, que se tornou imperador em 235 e é conhecido pela sua perseguição ao clero cristão.
Na opinião do ilustre Vassilios Tzaferis, baseada num contexto histórico diferente, a construção deve ser datada para a segunda metade do século III. Embora muitos cristãos tenham servido nas legiões romanas durante os séculos II e III, a conversão em massa de legionários ao Cristianismo ocorreu apenas na segunda metade do século III e no início do século IV. O edifício parece ter sido abandonado no final do século IV. Os arqueólogos não encontraram qualquer sinal de incêndio, dano ou destruição. Pelo contrário, parece que, antes de partirem, os ocupantes do edifício tomaram medidas para proteger o mosaico com uma espessa camada de reboco e cacos de cerâmica. É por isso que ele se encontra agora em tão bom estado de conservação.
O escavador sugere que o edifício foi abandonado em algum momento durante o reinado do imperador oriental Diocleciano (284–305), que realizou uma grande reorganização do exército romano. Todas as 28 moedas encontradas no edifício datam do século III ou anterior. A razão para o abandono do edifício de Legio pode ter sido a transferência do quartel-general da Sexta Legião Ferrata.
A estrutura cristã mais próxima a esta é um edifício quase contemporâneo descoberto na década de 1930 pela Universidade de Yale em Dura Europos, na Síria. Era uma habitação comum de dois andares convertida num santuário cristão. O bem preservado piso inferior continha um pátio central aberto rodeado, em três lados, por salas de vários tamanhos e, no quarto lado, por um pórtico.
Embora não haja evidências claras que indiquem se o edifício foi planeado desde o início como uma estrutura religiosa ou se era uma habitação comum posteriormente convertida numa igreja, a segunda hipótese parece mais provável, especialmente porque três salas sofreram alterações destinadas a adaptá-las a funções religiosas. Uma parede foi removida para criar uma sala de oração de 5 por 13 metros. Contra a parede oriental estava uma plataforma elevada, onde provavelmente se encontrava a mesa da Eucaristia ou o assento do bispo. Uma pequena sala adjacente era provavelmente a sacristia. Outra tornou-se o baptistério.
Todo o baptistério em Dura Europos foi decorado com pinturas murais que retratavam várias cenas cristãs: o Bom Pastor, Adão e Eva no Paraíso, procissões de mulheres em oração, vários milagres de Cristo, entre outros. Curiosamente, fragmentos de frescos que outrora cobriram as paredes da estrutura de Megiddo, onde estava a sala de oração, foram encontrados no chão. Padrões geométricos foram pintados em azul, branco, rosa e amarelo.
A estrutura cristã em Dura Europos está claramente datada para a primeira metade do século III. Um membro prudente da comunidade gravou no reboco fresco uma data para a alteração de uma parede na sala de oração (equivalente ao ano 231 d.C.). O edifício foi demolido em 257 para permitir a construção de uma nova muralha da cidade.
Domus Ecclesia
Outras igrejas pré-constantinianas instaladas em casas comuns são conhecidas na Grécia e em Roma. Uma foi encontrada na ilha de Delos e outra em Dión, no sul da Macedónia. Outras quatro igrejas domésticas foram descobertas em Roma, instaladas em habitações privadas cujos proprietários detinham título legal dos edifícios.
Os primeiros cristãos começaram a utilizar igrejas domésticas no século II. A domus ecclesia (igreja doméstica) substituiu a “sala de congregação” usada durante o período apostólico e nas últimas décadas do século I. As igrejas domésticas do século II ainda não eram permanentemente dedicadas como locais de culto no sentido de uma igreja (ecclesia). As assembleias cristãs mudavam-se de uma habitação para outra, em casas que pertenciam a membros da comunidade.
No entanto, no final do século II e durante o século III, quando as comunidades cristãs adquiriram uma organização social interna mais desenvolvida, a provisória igreja doméstica foi abandonada em favor de um local mais permanente, dedicado não apenas ao culto, mas também às várias outras necessidades da comunidade cristã. Anteriormente, o culto cristão baseava-se em orações, sermões e refeições comunitárias.
No século III, rituais oficiados por clérigos ordenados foram introduzidos. Para isso, eram necessários espaços diferentes, como baptistérios, sacristias, confessionários, salas de catequese e aposentos especiais para o clero. Além disso, mobília como a Mesa da Eucaristia (trapeza eucharistion) ou a Mesa da Oferta (trapeza prosforon) tornaram-se uma parte integrante do ritual cristão, fixados permanentemente na sala de oração.
Durante o século III, os Padres da Igreja referiam-se a estas igrejas domésticas por diferentes nomes, como ecclesi, dominicium e domus Dei (Casa de Deus). O padre apologeta Marco Minúcio Félix (c. 200 d.C.) chamou-lhes sacraria (santuários). Ele diz que estão presentes «em todo o mundo» (per universum orbem). Orígenes (185–254) diz que estas igrejas domésticas são «o local permanente para o culto de Deus».
As igrejas domésticas do século III tornaram-se semelhantes às sinagogas judaicas: eram centros comunitários que atendiam a todas as necessidades religiosas e sociais dos membros da comunidade. Estas igrejas domésticas estabeleceram o alicerce para a futura igreja cristã.
Contexto
Durante a segunda metade do século III (até à Grande Perseguição de Diocleciano entre 303 e 313), os cristãos desfrutaram de um período de relativa paz. Os imperadores romanos estavam envolvidos em guerras civis. Nessa época, os cristãos conseguiram ampliar casas de culto existentes e construir novas. O historiador da Igreja Eusébio (260–430) descreve «essas assembleias cheias de homens incontáveis, e as multidões que se reuniam em todas as cidades, e as famosas concentrações nos locais de oração; por causa disso, já não estavam satisfeitos com os edifícios antigos e construíam igrejas de dimensões espaçosas em todas as cidades».
A segunda metade do século III foi também um tempo formativo no desenvolvimento da forma de culto. As simples reuniões para oração evoluíram para a Divina Liturgia. O rito da Eucaristia tornou-se um dos mais importantes sacramentos cristãos. Como tal, era realizado no lugar mais proeminente da igreja, no bema (estrado) localizado na extremidade oriental da sala de oração.
Finalmente, tudo isto culminou numa espécie de estrutura eclesiástica aceite por todos os cristãos. No início do século IV, durante o reinado de Constantino, o Cristianismo tornou-se a religião do Império Romano. Várias igrejas monumentais (como as basílicas construídas sobre o túmulo de Jesus Cristo em Jerusalém e sobre o seu local de nascimento em Belém) foram erguidas em meados do século IV como expressão do triunfo do Cristianismo.
Com essas excepções, contudo, as igrejas foram construídas segundo tradições estabelecidas durante as últimas décadas do século III. Respondendo a essas novas tradições, o plano arquitectónico universal para a igreja cristã era a basílica, inspirada na arquitectura grega e romana.
Uma dessas primeiras basílicas, datada da primeira metade do século IV, foi recentemente escavada em Áqaba (antiga Aila), no Mar Vermelho, mesmo na fronteira entre Israel e a Jordânia. Outras duas igrejas basilicais do início do século IV foram escavadas: uma em Salona, na costa dálmata da Grécia, e outra em Aquileia, Itália, na costa norte do Adriático. Neste breve panorama da história da arquitectura eclesiástica, devemos incluir a igreja no complexo prisional de Megiddo.
