Filho da tradição, mas mestre da revolução, Carlos Paredes não só transformou a guitarra portuguesa como a elevou a uma voz inconfundível de resistência, lirismo e genialidade. Entre perseguições políticas, inovação musical e uma relação quase mística com o seu instrumento, através de três composições, vemos como a sua obra continua a ecoar muito para além da sua morte, como um rio que nunca se detém.
Por estes dias, a internet encheu-se de tributos a Carlos Paredes. Jornalistas, influencers e páginas culturais despejaram frases mais ou menos feitas sobre o «mestre da guitarra portuguesa» e o ano do seu centenário. Mas quantos já se aventuraram para além de Verdes Anos e Movimento Perpétuo? Quantos olham Paredes além do músico virtuoso e vêem o revolucionário que arrancou o instrumento das garras do fado e o ergueu a um estatuto de arte-maior?
Estas são frases feitas, não há como fugir. Carlos Paredes não tocava guitarra portuguesa. Ele falava através dela. Moldava-a como um escultor de frequências e emoções. Paredes sabia que a beleza pode ser violenta, que a técnica não tem de ser exibicionismo e que a expressão, quando é verdadeira, não precisa de palavras. Mas a sua obra não se pode reduzir a isto. Se é para falar do filho, neto e bisneto dos famosos guitarristas Artur Paredes, Gonçalo Paredes e José Paredes, então que se procure ir um pouco além.
Carlos Paredes nasceu a 16 de Fevereiro de 1925, em Coimbra. Começou a estudar guitarra portuguesa aos quatro anos com o seu pai, por influência materna estudou também piano e violino. A sua relação com a guitarra portuguesa era quase inevitável, mas não lhe bastava herdar a tradição: ele queria transcendê-la. Desde cedo, desenvolveu um estilo próprio, afastando-se das convenções do fado e explorando um lirismo mais amplo, quase sinfónico.
Na fase final da sua vida, Carlos Paredes enfrentou uma doença neuromuscular degenerativa que lhe roubou a capacidade de tocar. Para um homem cuja identidade estava intrinsecamente ligada ao seu instrumento, essa foi a maior tragédia possível. A sua frase mais célebre, dita a amigos próximos, ecoa com um peso imenso: «Quando eu morrer, a guitarra morre também». Paredes faleceu a 23 de Julho de 2004, mas, ao contrário do que temia, a sua guitarra não morreu com ele. As suas composições continuam vivas, a desafiar o tempo, a desafiar a mediocridade, a desafiar aqueles que se contentam com homenagens vazias. A sua carreira foi marcada tanto pelo reconhecimento como pela repressão.
Antifascista
Apesar das adversidades, nunca deixou de compor e elevar o seu instrumento. Paredes não foi apenas um músico excepcional, foi também um resistente, um preso político, um homem acossado por um regime fascista que temia a liberdade que emanava da sua guitarra. Hoje, quando assistimos ao crescimento da extrema-direita na Europa e à normalização de discursos que branqueiam esse passado, recordar Paredes como um símbolo de luta é mais importante do que nunca.
Antifascista desde a sua juventude, foi preso em 1958 pela PIDE por fazer oposição a Salazar e acusado de pertencer ao Partido Comunista Português, do qual era de facto militante. Permaneceu um mês na cadeia do Aljube e foi enviado para Caxias. Diz-se que durante esse tempo andava de um lado para o outro da cela fingindo tocar música, o que levou os companheiros de prisão a pensar que estaria louco quando estava, de facto, a compor músicas mentalmente.

Julgado em Tribunal Plenário (1959), foi condenado a 20 meses de prisão e 3 anos de suspensão de direitos políticos, com pena suspensa durante 3 anos. Contudo, à data do julgamento e libertação, contava já com 15 meses de prisão. Foi afastado da função pública. Além de militante dos movimentos da Oposição Democrática, era uma presença regular nas iniciativas contra a Ditadura, onde tocava gratuitamente por solidariedade, contribuindo assim para a angariação de fundos quer para as famílias dos presos políticos, quer para a luta antifascista.
Quando os presos políticos foram libertados depois do 25 de Abril de 1974, eram vistos como heróis. No entanto, Carlos Paredes sempre recusou esse estatuto, então dado pelo povo. Sobre o tempo que esteve preso, nunca gostou muito de comentar. Dizia: «houve pessoas, que sofreram mais do que eu!»
A Guitarra Não Morreu Contigo
Foi em 1962, que o realizador Paulo Rocha o convidou para compor a banda sonora do filme “Os Verdes Anos”, uma das pérolas do Novo Cinema português. Sobre esse trabalho que o imortalizou, referiu: «Muitos jovens vinham de outras terras para tentarem a sorte em Lisboa. Isso tinha para mim um grande interesse humano e serviu de inspiração a muitas das minhas músicas. Eram jovens completamente marginalizados, empregadas domésticas, de lojas. Eram precisamente essas pessoas com que eu simpatizava profundamente, pela sua simplicidade».
Se Jimi Hendrix revolucionou a guitarra eléctrica, Carlos Paredes fez o mesmo pela guitarra portuguesa. Ambos pegaram em algo com uma história rica e deram-lhe uma nova voz. Hendrix desafiou as fronteiras do rock e do blues, levando o instrumento a territórios nunca explorados; Paredes fez o mesmo ao libertar a guitarra portuguesa das amarras do fado tradicional e transformá-la num meio de expressão emocional sem precedentes, tocando-a com uma intensidade e fluidez impossíveis de imitar.

Tocou com muitos artistas, incluindo Charlie Haden, Adriano Correia de Oliveira e Carlos do Carmo. Escreveu muitas músicas para filmes e em 1967 gravou o seu primeiro LP, “Guitarra Portuguesa”.
Divertimento
Além de “Movimento Perpétuo”, “Verdes Anos” é a sua peça mais emblemática e, quiçá, mais “portuguesa”. Foi também editada editado no seu primeiro álbum. Com um andamento fatalista, evocativo do estoicismo presente no fado e neste ser português, e uma melodia suave e forte como as teias do destino, a “Canção Verdes Anos” é um estandarte da música e da guitarra portuguesa.
Contudo, que se ouça, por exemplo, Divertimento (Guitarra Portuguesa, 1967). Aqui, Paredes desconstrói qualquer noção de que a guitarra portuguesa serve apenas para o lamento. A música não é submissa nem conformada – é uma corrente de energia, feita de tensão e alívio, melodia e dissonância, velocidade e pausa. Ele faz a guitarra respirar, correr, hesitar, duvidar, decidir. Como um monólogo interior tornado som.
Canção
E se Divertimento mostra um Carlos Paredes cinético, Canção revela o lado oposto: o lírico, o meditativo, o que cava fundo na alma. Aqui, o tempo parece suspenso. Cada nota carrega peso e significa algo. Paredes não tem pressa, não precisa de provar nada. Apenas se ouve a voz pura da guitarra, sem efeitos, sem artifícios. Quem escuta com atenção sente que não está apenas perante um instrumentista excepcional, mas diante de um compositor que sabia que a verdadeira música acontece tanto nos sons como no espaço entre eles.
Vale a pena citar a Wikipédia, que afirma oportunamente que ao segundo álbum, «Carlos Paredes provava que o primeiro não havia sido um acaso. Movimento Perpétuo era o som de um perfeccionista em controlo absoluto, capaz de construir delicadas filigranas de improvável sustentação, sem nunca perder de vista a economia».
Canto do Rio
Poderiámos eleger “Asas Sobre o Mundo”, mas elegemos outro momento revelador da força musical de Carlos Paredes, O Canto do Rio. Aqui, a sua guitarra torna-se uma paisagem sonora, evocando o fluir das águas, a serenidade e a inquietação de um rio que nunca se detém. É uma peça onde o poder harmónico da guitarra portuguesa atinge um dos seus pontos mais altos, provando a capacidade quase orquestral do instrumento nas mãos de Paredes. A composição capta a essência do movimento perpétuo que tanto fascinava o músico, uma viagem sem destino final.

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