Senhor de um amplo universo musical e cultural, André Fernandes revela como começou a tocar guitarra e quais os guitarristas que tiveram um papel determinante na sua paixão pelo instrumento e no desenvolvimento da sua linguagem musical.
André Fernandes é não só um grande guitarrista, como um grande músico, versátil e sem preconceitos. É apaixonado pela música e pelo jazz. «O meu pai tocava discos e levava-me aos concertos do Cascais Jazz quando era miúdo e adormecia nos concertos e tal… Mas o meu pai ouvia muito, ele tocava piano. Eu já ouvia, não estranhava a música, mas não ligava e ouvia o que os meus amigos ouviam. O clique deu-se não sei porquê, fui ver um concerto um dia e, de repente, gostei daquele concerto! Fui buscar um disco e depois outro. Entretanto, já tocava guitarra e, em vez de ir tirar o solo do Satriani, ia tirar o solo daquele disco porque agora estava gostar daquilo e comecei cada vez mais a ir por esse lado».
O rock é o outro lado da moeda, que tem vindo a explorar com os sPiLL, em discos como “What Would You Say?” (review abre no link) ou “Pretty Face” (review no link). O primeiro, por exemplo, é feito de espontaneidade jazz, verticalidade electrónica e agressividade rocker – foi o álbum em que André Fernandes reinventou a banda como uma besta de fusão, com a propulsividade de duas baterias e o carisma vocal de Sara Badalo. O segundo foi o brotar de um novo capítulo dentro da história dos SPiLL. Arrojada, irascível e energética, a sonoridade da banda afirma-se através de riffs urgentes, estâmina e personalidade, marcada pela voz intrépida de Sara Badalo, uma vez mais.
Ao lado da algarvia, e também de Alexandre Frazão, André Fernandes assumiu uma vertente ainda mais exploratória na sua música. No álbum de estreia de FUSHI, os três músicos esticam as fronteiras da voz humana através de exploração electrónica, mostram-se em freneticamente sincopados exercícios de múltiplas camadas sónicas e oferecem-nos etéreas sinestesias de, acreditem, “Blade Runner” ou “Ghost In The Shell”. Em entrevista, André Fernandes, o guitarrista «mais desinteressante do mundo em termos de material», revê o seu percurso que, além dos seus discos solo, contempla ainda o orfismo dos Centauri, projecto que conta já com três álbuns e cujo capítulo mais recente é decifrado na ROMA INVERSA pelo próprio André Fernandes.
Parece haver o preconceito de que estudar jazz acarreta uma exigência elevada e, à partida, um miúdo parece afastar-se dessa exigência, concordas?
Para se tocar bem, penso isso de qualquer tipo de música, implica muito trabalho. E há um percurso, até um certo ponto, que se pode fazer sem ter esse “muito trabalho” e depois, se queremos dar o salto para o outro lado dessa barreira. A música clássica é igual. O rock também. Se calhar não implica uma parte do estudo académico que o jazz implica, mas implica muito trabalho, quanto mais não seja, prático. Essa é a diferença entre os grandes músicos que acabam por ter uma voz muito pessoal e uma música própria e consistência. Acabam por ser os músicos que deram esse trabalho e essa dedicação à música. No jazz isso é um bocadinho mais óbvio, porque cá é mais raro os miúdos começarem a tocar jazz por si. Se o querem fazer, vão para uma escola e levam logo com esse lado todo muito académico, que pode ser um bocado deprimente [risos]. Isso desmotiva muitos, mas não todos. Mas é uma coisa universal. Todas as escolas de música, mesmo aquelas que conheço lá fora, a grande diferença é terem muito mais alunos, mas se formos ver a percentagem que sai dali a tocar e que dedica aquilo que é preciso dedicar, se calhar é tão pequena como no Hot ou nas outras escolas de música. Voltando ao início da pergunta, tocar bem jazz é difícil e implica muito esforço, mas as outras músicas também. Se calhar, não há é uma noção tão clara de que isso é preciso também para o rock e o pop e tudo o resto. Se calhar, não têm que estar a estudar as escalas etc., mas têm que fazer outras coisas: passar tempo a trabalhar o som, a ouvir, adquirir cultura musical, começar a ganhar sensibilidade para compreender as diferenças entre as texturas dos instrumentos e a coisa toda e isso leva tempo e dedicação, é preciso trabalhar… Muito!
Quais são as diferenças significativas as diferenças entre ser um guitarrista de jazz, de rock, de blues, etc., e onde fica o André Fernandes?
A linguagem. São linguagens diferentes. É tudo música, esse é o elemento comum e que faz com que uma pessoa que goste de música possa gostar do guitarrista de rock, do de blues, do de jazz da mesma maneira. Gosto tanto de guitarristas dessas áreas como da minha, tenho a mesma apreciação e o mesmo respeito por todos aqueles que gosto, independentemente do estilo. Mas, na prática, claro que a diferença é na linguagem. É como termos um amigo sueco que é extraordinário, mas fala sueco e nós falamos português. Temos essa diferença, provavelmente não podemos comunicar tão facilmente se cada um falar na sua língua materna, mas o conteúdo dele é tão interessante como o do outro que fala a minha língua.
É muito importante o fazer aquilo que se gosta, ouvir a música que se gosta e não se fechar em estilos. E é muito importante ser humilde na música, para consigo próprio.
André Fernandes
Se ouvirmos um tema de blues ou rock, estes parecem sempre mais orientados para aquilo que a guitarra está a oferecer do que aquilo que sucede no jazz…
Exacto. Isso também tem um bocadinho a ver com a história da música. Na sua essência, o rock cresceu com a guitarra e no jazz, quando a guitarra aparece, já a música existia e o instrumento foi-se integrando na música e crescendo paralelamente. Mas a verdade é que a guitarra no jazz, hoje em dia, é naturalmente muito influenciada pela guitarra no rock, porque é a área onde o instrumento foi mais desenvolvido. Embora no início os guitarristas de jazz quisessem imitar os saxofonistas e os pianistas, quando acompanhavam, etc., e acabavam por anular um bocadinho a personalidade do instrumento ou não aproveitar, se calhar, o seu som específico. Isso foi mudando, a partir dos anos 70 começaram a aparecer uma série de guitarristas, como o Metheny, que perderam a vergonha de assumir que aquilo é um instrumento em que podem ir buscar muita coisa aos outros guitarristas que o tocam há muito mais tempo e o desenvolvem há muito mais tempo. Portanto, começou a misturar-se as duas coisas e actualmente a linguagem é diferente, mas os recursos que os guitarristas usam no jazz já é muito mais próximo dos guitarristas de rock.
Enquanto guitarrista, quais são as referências do André Fernandes?
Epá, há muitos. Imensos e muitos que se calhar nem sei o nome, às vezes oiço coisas que adoro e não sei quem são, mas mais directamente na área do jazz há aqueles que são incontornáveis na minha geração, há uns mais antigos como o Jim Hall e o Wes Montgomery, mas depois os que influenciaram mais o meu estilo há o Pat Metheny, o Bill Frisel ou o John Scofield e depois muitos guitarristas de rock que eu adoro e ainda hoje em dia ouço muito. Adoro ouvir os primeiros discos de Van Halen, o “Van Halen II” acho altíssimo disco, não gosto tanto a partir dos anos 80. Gosto de guitarristas que não são solistas, como o Josh Homme. O Hendrix, claro, e o Jimmy Page. Todos esses guitarristas são grandes referências porque, de certa forma, todos eles acabaram por influenciar aquilo que é hoje o instrumento. Condicionaram a forma como hoje em dia se toca. Abriram portas. De repente, isto é possível fazer na guitarra.
Já tocaste com imensa gente, em imensos sítios. Quem foram os músicos que mais te marcaram e influenciaram?
Isso são as tais perguntas muito difíceis. Claro que há algumas referências que são incontornáveis, muito pela música, mas também pelo facto de nos apercebemos «como é que estou a tocar com esta pessoa que já toca há cinquenta ou sessenta anos». E isso tem esse valor quase emocional para além da música. Um deles foi o Lee Konitz, um saxofonista clássico do jazz, que grava desde os anos 40! Gravou discos do Miles Davis, gravou com toda a gente, percorreu todos os músicos da história do jazz, e tocar com ele durante dois anos, no grupo dele, musicalmente foi incrível. Olho de fora e penso porque raio ali estou. Como é que isto aconteceu? [risos] Musicalmente houve muitos, em fases diferentes. Há músicos que tiveram importâncias diferentes. No início, músicos com quem toquei foram muito importantes para conseguir consolidar certas coisas que precisava e para descobrir a minha voz. Mas ainda hoje em dia, cada experiência que tenho com um músico novo, é sempre uma experiência muito boa, que me dá sempre muito. Acabo sempre por absorver coisas que eles me dão e isso é a razão pela qual as pessoas tocam música, pelo menos eu.
Conselho para um miúdo que esteja agora a pegar numa guitarra?
Numa fase inicial, é muito importante o fazer aquilo que se gosta, ouvir a música que se gosta e não se fechar em estilos. E é muito importante ser humilde na música, para consigo próprio. Se estivermos a estudar, não nos vamos enganar a nós próprios e dizer já está, quando não está, ou quando tocamos ao vivo, sair e dizer que foi um grande concerto e não foi. Ser realista e objectivo nas coisas duma forma relaxada, ninguém tem que ser… Não é uma corrida, ninguém tem que tocar melhor do que o outro, só porque o amigo começou ao mesmo tempo e já toca uma coisa que ainda não tocas, isso não quer dizer absolutamente nada!
Esta entrevista ao André Fernandes é um excerto do artigo integrado na Arte Sonora #61. Para criar algo especial para uma edição que, em 2018, celebrou 10 anos de publicações, pediram-me algo que fosse inédito ou, no mínimo, incomum, na nossa imprensa musical. Então surgiu a ideia de reunir numa edição histórica dez grandes guitarristas portugueses. O Vasco Vaz foi um dos músicos escolhidos. Para a entrevista completa com o André Fernandes, podem adquirir um exemplar da revista na loja ou enviar-nos um mail.

Um pensamento sobre “André Fernandes, De Pat Metheny a Edward Van Halen”