SPiLL, What Would You Say?

Espontaneidade jazz, verticalidade electrónica e agressividade rocker. “What Would You Say?” foi o álbum em que André Fernandes reinventou os SPill. Uma besta de fusão com a propulsividade de duas baterias e o carisma vocal de Sara Badalo.

Originalmente desenhado como uma expressão de fusão entre cores jazzísticas e experimentação electrónica, os SPiLL vieram a ganhar uma propulsão mais agressiva. Nas palavras de André Fernandes: «Há uns dez anos atrás havia outras influências. Andava a ouvir muita música electrónica e a banda era um escape para fazer isso».

Depois de um hiato e um período de actividade errática, o álbum “What Would You Say?” foi resultado da uma profunda reestruturação da banda e da formação com Sara Badalo (voz), André Fernandes (guitarra), Óscar Graça (teclas), Miguel Amado (baixo) e André Sousa Machado e Marcos Cavaleiro, os dois bateristas. André Fernandes referia que o disco «tem uma estética mais agressiva e directa, dentro de influências que me preenchem a cabeça. De bandas como Deerhoof ou Queens Of The Stone Age. Esse rock com guitarras e baterias à frente».

O disco chegou em Maio de 2017, pela algo absconsa label do Blitz/Sony Music, depois de ter circulado digitalmente em 2016 com o título provisório “Super Sexy Fight Songs” e é um ensaio despretensioso e orgânico dentro do cenário do rock português. Arranca com “Get Away”, tema com guitarras cheias de twang e um final demolidor de bateria. Todavia, logo aqui se prefigurava os efeitos da reinvenção do projecto, com o destaque todo na voz de Sara Badalo, carregada de poder eloquente, frenética e provocante, assumindo despudorada o protagonismo como a nova frontwoman da banda.

Segue-se o tema título. Canção experimental, cruzando estruturas rítmicas complexas e oscilações de intensidade. Essa esquizofrenia é também corporizada sonoramente na guitarra, numa convulsibilidade entre o peso do main riff, o slapback de delay nos acordes harmónicos, dedilhados limpos e os ringtones nos solos. André Fernandes, como vincado no intróito, não faz qualquer questão de negar Queens Of The Stone Age como uma referência nas composições do disco e em “Break Up Song”, ritmicamente, surgem as primeiras pistas óbvias disso. Contudo, as raízes jazz dos músicos acrescentam um factor de diferenciação e divergência aos sPiLL, a banda soa com sofisticação em vez de irascível. E se esta canção deixa intuir QOTSA, mais à frente, em “Homme” está tudo às claras (o título inclusive, obviamente). Um instrumental carregado de peso e propulsão, com o corpo sonoro da guitarra colado ao de “Songs For the Deaf”. A canção mais “roqueira”, mais directa e mais QOTSA do disco. Porrada!

Antes surge “White Lies”, com um corpo sonoro mais electrónico, onde a condução nos sintetizadores e a cadência do baixo tornam directo e dançável um tema de diálogo e exploração melódica entre a guitarra e a voz que, tendo disfarçado subtilmente um crescendo, subitamente, surgem com uma intensidade inesperada. A meio do álbum chega “Gone”, talvez a canção menos ilustrativa da sonoridade do disco. Ainda assim, a sua atmosfera, suavidade vocal e simplicidade envolvente da guitarra, transmite uma sensação de elegância Radiohead.

No sentido oposto, “All The Little Things” revela o cruzamento e congregação de todas as personalidades e correntes estéticas na base dos SPiLL e do disco. Espontaneidade jazz, verticalidade electrónica e agressividade rocker. A banda percorre cada um dos momentos com uma impressionante ligeireza dinâmica, passando por um arrasador solo de guitarra, até ao clímax eléctrico do último refrão. Malhão! Voltando a atmosferas borderline shoegaze, temos “Follow You”. Tema com incursões melódicas em torno de um riff “circular” de baixo, que aqui está com um tamanhão sonoro “daqueles”, e serve como uma âncora trip hop à abstracção instrumental.

O disco, extremamente injustiçado nas quantidades de aclamação mediática e crítica que merece realmente, encerra então com duas pequenas pérolas. Em “Super Sexy Fight Song”, uma vez mais, surgem riffs e pontes rítmicas até ao deserto californiano e aos QOTSA. É um dos momentos mais pomposos do álbum e aquele riff final poderia ser bem mais perpetuado. Um fait-divers: nesta canção, o timbre e dinâmica vocal de Sara Badalo aproxima-se de Róisin Murphy! No final, “Unclefucker” é um instrumental despretensioso em que somos surpreendidos com um ou dois pequenos pormenores que parecem acenar a Frank Zappa.

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