Sónia André

Sónia André, Contratempo

Escudada por um grupo de instrumentistas de elevado calibre, Sónia André oferece-nos um vibrante conjunto de composições e sofisticação musical em “Contratempo”, o seu álbum de estreia a solo.

Sónia André começou a estudar guitarra clássica aos 10 anos e aos 15 pegou na guitarra eléctrica. Depois foi a vez do canto, na Escola de Jazz do Porto. Foi aluna de Eugénio Barreiros, Sofia Ribeiro e Kiko Pereira. Em 2011 fundou o ensemble vocal feminino Origo Ensemble. O grupo percorreu todos os grandes eventos medievais do país, nomeadamente Viagem Medieval em Santa Maria da Feira, e foi além-fronteiras no festival Wave Gotik Treffen, na Alemanha, e concertos de música antiga na França.

O grupo terminou a sua carreira com um ciclo de 14 concertos pela Rota do Românico, em Outubro de 2022, precisamente porque Sónia André decidiu explorar outras formas de fazer música e embrenhou-se na criação do seu primeiro álbum a solo, “Contratempo”.

«Este projecto foi concebido numa altura em que os tempos foram outros (pandemia) e o próprio tempo parou, desacelerou e permitiu uma reflexão mais aprofundada da condição humana. Sobre os obstáculos, contratempos, situações inesperadas e a nossa reação a estas. Assim escrevi 10 canções em português que falam sobre superação, persistência, resiliência. Peguei nos instrumentos que me são familiares, principalmente a guitarra e juntei gente que admiro profundamente para começar a gravar estas canções. Apresentei-me com um arranjo que fiz para a canção “Barco Negro”, quis transformá-la minha para terem uma ideia do que aí vinha, e porque o tema dessa letra é uma das superações mais difíceis, perder alguém que se ama», referiu Sónia André.

A sinopse no Bandcamp oficial diz-nos que este álbum é feito de música surrealista, uma fusão de vários estilos pop, rock, jazz, música tradicional portuguesa com elementos de modernidade como a electrónica. Esta cantautora e multi-instrumentista que com a produção, orquestrações e performance instrumental de Eduardo Moreira cria paisagens sonoras sofisticadas, audíveis sobretudo nas canções “Maré” e “O Sal da Língua”. Na sua concretização, “Contratempo” conta com músicos muito dotados e experientes, e cada um acrescenta a sua verdade, à verdade que é a voz escura e poderosa de Sónia André.

O seu carácter vocal acrescenta um sentido dramatúrgico à sofisticada fusão de jazz, música tradicional portuguesa e folktrónica que se escuta ao longo do disco. Mais suavizada e pop em momentos como “Origami”, mais labiríntica em outros como “12h Perdida”, Sónia André nunca abdica de desconstruir o óbvio, de intentar um elaborado jogo de contrastes dinâmicos – “Vida a Lápis” é exemplar neste particular – e, ao mesmo tempo, evitar uma hermética que encerrasse a sua interpretação ao grande público.

Além de “Barco Negro”, “Sobrenome” também nos aproxima desse novo fado liderado por Dulce Pontes, ao mesmo tempo que deixa bem claro uma sensação que se vai instalando progressivamente, de que se Eduardo Moreira tem uma prestação assinalável como multi-instrumentista, mas é simplesmente estelar nos pianos.

Além de Moreira, Bruno Rodrigues gravou os baixos em “Sobrenome”, “Origami”, “O Sal da Língua”, “Contratempo” e “Nada pra Depois”; João Barradas gravou o acordeão em “Vida a Lápis”; Nuno Santos gravou o trompete e o fliscorne em “00:00 Meia Noite”. Os convidados nas guitarras são Marcello Nolasco, que fez os solos de “Contratempo” e “Nada pra Depois”, e Carlos Sanches que gravou guitarra acústica em “O Sal da Língua”.

No final, há alguns momentos em que “Contratempo” é demasiado cirúrgico (principalmente nas guitarras eléctricas) e é estranho referir isto como algo negativo, mas faz a produção parecer algo gélida. E, talvez pelo aparentemente distendido espaço temporal das sessões de estúdio, o álbum não soa tão uniforme. Contudo, a sequência final de “00:00 Meia Noite” e “O Sal da Língua” reafirma o quão bem elaboradas são as composições e os arranjos neste disco de estreia de Sónia André.

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