Cristina Branco

Cristina Branco, A Mãe & Abril

No seguimento de “Mãe”, álbum onde homenageia o Fado Tradicional (e sobre o qual lançamos uma retrospectiva), Cristina Branco regressa ao aclamado álbum “Abril”, numa digressão curta e cheia de significado para celebrar as canções do Zeca em ano de comemoração dos 50 anos do 25 de Abril.

Somando 26 anos de carreira, 17 álbuns editados e inúmeros concertos em todo o mundo, Cristina Branco é uma incontornável embaixadora da cultura portuguesa. A sua obra é um enorme contributo para a divulgação e defesa da música, da língua e dos autores portugueses. Nos seus discos, Cristina dá voz a diferentes gerações de autores como António Lobo Antunes, Maria do Rosário Pedreira, José Afonso, Manuela de Freitas, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Pedro da Silva Martins, Mário Laginha, Teresinha Landeiro, Jorge Cruz, Francisca Cortesão, entre muitos outros. 

Em 2022, Cristina Branco percorreu a Europa em mais de 50 concertos e lançou o ‘documento’ (como carinhosamente gosta de lhe chamar) “Amoras numa Tarde de Outono”, fruto da sua longa colaboração com o pianista João Paulo Esteves da Silva. Então, no final do Verão de 2023, chegou o seu aguardado 18.º álbum de originais, intitulado “Mãe” e no qual, com essa paixão incomparável pelo fado tradicional, Cristina Branco presta uma sentida homenagem a este género musical tão emblemático da cultura portuguesa.

“Mãe” é uma criação musical única, na qual Cristina Branco empresta a sua voz singular e expressiva a uma variedade de autores, como tem sido a sua tradição artística. Este novo álbum oferece ao público um repertório original que nos transporta numa envolvente viagem de redescoberta e reinvenção do fado, explorando as suas profundezas emocionais e as suas nuances.

Na construção de “Mãe”, Cristina Branco contou com a colaboração do talentoso trio com quem tem partilhado os discos e os palcos ao longo dos anos. Bernardo Couto na guitarra portuguesa, Luís Figueiredo no piano e Bernardo Moreira no contrabaixo são os parceiros musicais que deram vida a este trabalho, contribuindo para a sua sonoridade rica e envolvente.

«Ser mãe é como um caminho de volta a casa, é como recomeçar uma civilização. Neste disco, quis enfrentar a minha própria batalha ao debruçar-me sobre o que me foi dado viver através da música, de como ela me acolheu, de como ela derrubou todos os obstáculos que me impediam de sair da minha ilha. Ao ter esta mãe como companheira de muitos anos aprendi a ser apenas eu, abrindo espaço para criar músicas, um fado fora do fado tradicional e dentro dele», explica Cristina Branco sobre este trabalho.

“Mãe” é o caminho de volta a casa. A verdade é que nunca me debrucei tão profundamente sobre o fado tradicional como aqui. Se é ‘o’ fado ou o meu fado, não sei, mas é no processo de aprendizagem e descoberta do caminho, que o disco se construiu.

Cristina Branco

E sobre o Fado Tradicional como ponto de partida e de homenagem, Cristina Branco confessa: «O fado é quase magia, é um processo pelo qual se tem de passar – de viver, de aprender, de respeitar. Fui olhando sempre para o fado com imenso respeito mas também com medo. De há uns anos a esta parte, voltei a cantar mais fados, como processo de aprendizagem, e fui ganhando uma paixão imensa pelo fado. Muito mais do que tinha no início. Hoje, faz mesmo parte de mim e era muito importante fazer um disco apenas de fado».

É de fado, e de Fado Tradicional, que se fala em “Mãe”, do Fado Cravo ao Fado Rosita, do Fado Santa Lúzia ao Fado Carriche. «Quando se começa, e se vem com a frescura da juventude, pensa-se ‘eu sou do fado, vou fazer fado’, mas, à medida que o tempo foi passando, fui-me distanciando dessa linguagem e começando a perceber que o fado era muito mais do que aquilo que eu lhe estava a dar. Precisei de aprender e respeitar, com humildade, o género para o poder abordar», conclui Cristina Branco.

“Mãe” movimenta-se na solenidade que envolve o fado, na magia que se encontra quando se mergulha na música, mas também na emoção que as palavras traduzem, nas respirações das suas vírgulas, na intensidade dos seus silêncios. O arranque, assinalado com aquela que foi a primeira amostra do disco, “Senhora do Mar Redondo”, é disto exemplo perfeito, um diálogo a quatro vozes, onde as palavras de Lídia Jorge (e a música de Alfredo Marceneiro) são interpretadas como se de um manto de libertação se tratassem.

É a própria quem afirma nunca se ter debruçado «tão profundamente sobre o fado tradicional como neste disco. Se é ‘o’ fado ou o meu fado, não sei, mas foi no processo de aprendizagem e descoberta do caminho, que o disco se construiu» – e seria difícil encontrar melhor cartão de visita. 

“Senhora do Mar Redondo” é suave mas também arrebatador, apaixonado e apaixonante: desde o primeiro instante, quando à delicadeza do dedilhar da guitarra portuguesa de Bernardo Couto se une a voz de Cristina Branco, cristalina e próxima. A este diálogo num manto de silêncio, com tanto de abraço quanto de oração, juntam-se, então, o contrabaixo profundo de Bernardo Moreira e o piano imponente de Luís Figueiredo, que trazem ao single uma carga dramática impossível de ignorar.

«Estende a tua mão velada, para o que o mar seja casa», canta Cristina Branco em “Senhora do Mar Redondo” – estenda-se de volta a mão porque o embalo único da sua voz singular é muito mais do que música. É, realmente, uma verdadeira casa.

Para a escolha dos poemas de “Mãe”, Cristina Branco procurou a densidade poética que o fado tem que carregar, quer se tratassem de vultos incontornáveis como Fernando Pessoa ou David Mourão-Ferreira ou dos clamores femininos de Aldina Duarte, Manuela de Freitas ou Natália Correia. «Não sou história por viver, sou a história por contar», entoa em “Folha em Branco”: as palavras podem ser de Teresinha Landeiro, que assina, ainda, “Liberdade” e “Passos Certos”, mas definem o olhar de Cristina Branco em “Mãe”.

Pelos contornos de “Mãe” encaramos a melancolia, mas também nos rendemos à nostalgia das vivências. Embalamos o corpo em cadências lentas mas também dançamos. Se “Essa Tristeza” é subtileza apaixonante, “Noite Apressada” é sombra à procura de expiação. “Liberdade” é ode convicta, mas “Folha em Branco” é ginga. Ao longo do álbum, o piano de Luís Figueiredo é tão subtil como emblemático, o contrabaixo de Bernardo Moreira tanto abraça como ampara, a guitarra portuguesa de Bernardo Couto provoca arrepios com a mesma tranquilidade que assinala cada instante de paixão – e, depois, há a voz de Cristina Branco, límpida e pura, capaz de traduzir na perfeição cada curva da vida que tem de estar presente quando se canta, realmente, fado.

“Mãe” começa no silêncio e acaba no silêncio, no silêncio desmedido da voz de Cristina Branco em “Fado de Uma Mulher Feliz Sozinha”. Ela está só, mas, ao contrário do título do poema de Aldina Duarte, não está sozinha. É impossível estar sozinho quando se expõe tamanha tradição. Em “Essa Tristeza”, quando encena as palavras de Manuela de Freitas, assume, entre confissão e orgulho, “sei que com esta tristeza não sou livre nem cativa, sou fadista, com certeza”. Que não restem dúvidas: Cristina Branco é fadista, mas, acima de tudo, em “Mãe”, Cristina Branco é do fado.

Abril

É no palco que tudo se conjuga. Os concertos de Cristina Branco são conhecidos pela sua intensidade emocional e habilidade técnica, a sua interpretação ao vivo transcende a experiência musical das gravações. Depois de uma recente digressão com salas cheias em Portugal e no estrangeiro para apresentar “Mãe”, Cristina Branco associa-se às comemorações dos 50 anos do 25 de Abril numa emocionante digressão, trazendo aos palcos o disco “Abril”, lançado em 2007, dedicado às canções de Zeca Afonso.

A escolha cuidadosa das músicas em “Abril” é um reflexo da intensa ligação de Cristina Branco com a obra de José Afonso. Em concerto, a cantora irá revisitar as 16 faixas do álbum, incluindo temas emblemáticos como “Menino d’Oiro”, “Venham Mais Cinco”, “Redondo Vocábulo”, “A Morte Saiu à Rua” ou “Índios da Meia Praia”. Um alinhamento que irá, certamente, proporcionar uma experiência ao vivo absolutamente inesquecível.

Nesse disco, a cantora capta a essência do génio da música popular portuguesa, sem afastar a sua singularidade artística. Em palco será acompanhada por um grupo de reputados músicos: Ricardo Dias no piano, Bernardo Moreira no contrabaixo, André Sousa Machado/Alexandre Frazão na bateria e Mário Delgado na guitarra eléctrica. Regressar a “Abril” é uma manifestação autêntica do respeito e admiração por José Afonso e o mote perfeito para celebrar os 50 anos do 25 de Abril e a Liberdade.

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