Aldina Duarte

Aldina Duarte & Capicua, Araucária

Emocionante exploração musical em torno da harpa, “Araucária” é o single que nos introduz no disco que a fadista Aldina Duarte criou com Capicua.

Acontece a tantos portugueses, dentro do sentido do velho ditado que nos diz «em casa de ferreiro, espeto de pau». O primeiro contacto de Aldina Duarte com o fado foi tardio e só aos 37 anos é que se estreou num álbum, Apenas O Amor (2004), onde está a sua canção de maior impacto mediático, “Ai Meu Amor Se Bastasse”. Nestas duas décadas que passaram, a artista de Chelas protagonizou várias viagens discográficas pelo cancioneiro tradicional português, colaborou com nomes como Ana Moura, António Zambujo, Camané, Mariza e Carminho, e os seus dois últimos álbuns foram Roubados (2019) e Tudo Recomeça (2022).

Assim se chega ao disco que é editado a 22 de Março de 2024. Desta vez, a fadista arrojou-se a colaborar como um dos maiores vultos do hip hop português. Capicua é a autora dos poemas que Aldina vai cantar em “Metade-Metade”, uma opção que Aldina Duarte explica em comunicado: «Graças ao talento enorme de Capicua, que inventou uma nova linguagem poética, um léxico nunca antes cantado nas melodias do fado tradicional, sendo que a seu pedido ensinei-lhe todas as regras da escrita para todas as estruturas do espólio do Fado Tradicional, incluindo dois fados com estruturas irregulares».

Ainda nas palavras de Aldina Duarte, “Metade-Metade” «é uma declaração de amor à natureza, à liberdade e à poesia. E, também, uma grande incerteza sobre o futuro da Humanidade; a urgência de nos reencontrarmos com a nossa forma de inteligência comunitária, de reaprender o nosso lugar no planeta, [mudando a visão antropocêntrica danosa]».

«Este é o meu primeiro disco em que o amor romântico não é o tema, mas sim o amor universal, sendo, também, um manifesto político e social: os velhos são a esperança, enquanto espelhos de superação de guerras, doenças, ditaduras, muitas fomes e frios, com quem temos de aprender, as crianças, o futuro ameaçado, numa civilização consumista decadente que precisa de avançar quanto antes para uma civilização ecológica, mais igualitária, justa e digna para todos», conclui.

Em 2023, Capicua falou à BLITZ sobre esta colaboração: «Foi uma experiência incrível, porque aprendi muito. Tive a honra de ser aprendiz da Aldina e escrever para uma pessoa que sabe muito sobre fado, que gosta muito de poesia e que tem muita sensibilidade. Então também me esforcei muito para aprender o máximo possível, para entrar no seu universo e para conseguir escrever letras à medida dela, respeitando todas as regras dos fados tradicionais e da escrita de poemas para eles».

Vale a pena recordar que Capicua já teve uma aventuras similares no passado, tendo escrito “Hostel da Mariquinhas” para Gisela João (que já no seu primeiro álbum usara letras da rapper), mas desta vez as coisas foram redimensionadas, como explica a mesma interlocutora, ao mesmo meio, sobre o trabalho com Aldina Duarte: «Foi uma experiência de muito prazer, porque o formato poema, mesmo com aqueles constrangimentos das regras e das métricas do fado, faz-me muito bem, do ponto de vista quase espiritual. O exercício de escrever diverte-me muito e, do ponto de vista emocional e espiritual, acaba por ser muito catártico, então foi muito enriquecedor».

Para o resultado final deste trabalho que é “Metade-Metade” contribuíram ainda os músicos Ana Isabel Dias (harpa), Bernardo Romão (guitarra portuguesa), Rogério Ferreira (viola) e Joana Sá (piano), sendo que as gravações dos temas decorreram no histórico estúdio lisboeta Namouche. O novo álbum de Aldina Duarte é prenunciado por “Araucária”, single acompanhado de um vídeo assinado pela Casota Collective.

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