O sexto disco dos Dapunksportif reúne o proselitismo da banda de Peniche pelo género e o indisputável savoir faire de Alain Johannes na produção. Pesado, melódico, visceral e contemplativo, “Rock ‘n’ Roll Salvation” é um discaço!
Os Dapunksportif lançaram o seu primeiro álbum, Ready! Set! Go!, em 2006, e logo no ano seguinte consolidaram a sua sonoridade “sem rodriguinhos” com Electro Tube Riot. Seguiram-se Fast Changing Landscapes (2012) e Soundz of Squeeze’o’phrenia (2016), um disco talvez com algum psicadelismo e um sentido mais experimental. Sobre a nossa vigilância, editaram Old, New, Fast & Slow, álbum que elegemos na nossa AOTY 2022.
Muitas bandas celebrariam o seu vigésimo aniversário com uma série de concertos de revisão de carreira ou a edição de um tipo de greatest hits. Paulo Franco e João Guincho fizeram algo recorrente desde que se juntaram em Peniche, em 2004: levaram a sua fusão de influências punk, rock alternativo e garage rock para estúdio, nomeadamente o Namouche. As sessões de gravação dos Dapunksportif foram concluídas no final de Outubro, com o leme assumido pelo produtor Alain Johannes (QOTSA, Them Crooked Vultures, Arctic Monkeys, Chris Cornell, etc). “Rock ‘n’ Roll Salvation” teve edição digital Anti Corpos Records em Abril de 2025.
Há algo que salta logo à vista n: é menos explosivo e mais balanço (no sentido do groove) que o anterior “Old, New, Fast & Slow”. Seria um fiasco chamar um produtor com uma assinatura sónica tão vincada e esse carácter não se sentir desde o primeiro segundo. E, assim que arranca “Analog Player In A Digital World”, percebe-se que os Dapunksportif sabiam exactamente aquilo que queriam de Alain Johannes. Uma sonoridade fuzz que deve mais ao sentido rocker dos Queens Of The Stone Age que ao sentido stoner dos Kyuss, simplicidade rítmica com um som espaçoso, apesar do pocket, e coros harmonicamente bem desenvoltos e orelhudos.
Curiosamente, os Dapunksportif acabam por aproximar-se de outro luminoso exemplo nacional de acólitos do som de Rancho De La Luna: os Miss Lava. Mas a banda de Peniche tira o máximo proveito de alguém que lhe veio “abrir” o som, como tão bem ilustra aquele quase monotónico lead de guitarra no refrão de “Chumocracy”. Um detalhe que muda a abrangência da composição, numa viragem mais Arctic Monkeys. A progressão dissonante da intro de “Liar’s Game” abre para uma canção bastante propulsiva, mas sempre com algo assombroso, com nuvens fechadas sobre o Sol que se sabe espreitar. Outra dicotomia de assinatura de Johannes, intensificada pelos órgãos. E o mesmo podia dizer-se de “Everything Changes”.
“Daily Grind” é uma pedrada de malha que podia figurar em “Songs For The Deaf”. Um bloco rítmico quadradão, com Dapunksportif a destilar octanas e bourbon. A meio da malha (e do disco) é preciso destacar algo que ainda não fizemos, os incisivos solos de guitarra de João Guincho. Não há propriamente shred, mas há muita intencionalidade em cada nota, muito sentido dinâmico e boas progressões, com muito controlo de vibrato, de expressão.
“Strange Times” soa como se quatro gajos tivessem invadido uma garagem cheia de amplificadores valvulados, acendido um cigarro com as páginas rasgadas do manual indie rock e, entre riffs cortantes, cuspido nas grades do mainstream com a displicência de quem sabe que a raiva pode dançar. É uma marcha zombificada que arrasta os pés pelo asfalto rachado destes tempos de merda que vivemos, que bate como um martelo de borracha numa pinhata vazia – oco, repetitivo, mas cheio de significado. O baixo pulsa como um coração entupido de frustração, a guitarra debita sarcasmo em forma de distorção, e Paulo Franco canta como quem mastiga pastilha elástica de ácido sulfúrico.
A acidez prossegue em “I Won’t Do It Again”, mas desta vez os Dapunksportif expulsam-na com maior intensidade rítmica. Quase um rhythm and blues, só ilusoriamente apologético. As notas dominantes a soarem marteladas em oitavas acima da tónica, uma progressão tão velha como o Diabo e igualmente perigosa. Quem nunca teve uma recaída que meta a mão no ar! Qualquer um pode necessitar de salvação via rock ‘n’ roll…
As expectativas eram elevadíssimas sobre os Dapunksportif. Com um corpo sónico que se vem aproximando a cada malha de “El Camino”, só para jogar uns tais de Black Keys para o meio da contenda, “Just Another Day” (mais directa) e “Deranged Perceptions” (um midtempo gloriosamente prog e contemplativo) encerram um álbum que cumpriu tudo o que se esperava dele. Sem fillers. Para tocar em repeat.

Um pensamento sobre “DAPUNKSPORTIF, Rock ‘n’ Roll Salvation”