álbuns nacionais

Best Of 2025: Álbuns Nacionais

Eis os álbuns nacionais que mais gostámos de ouvir em 2025. Como sempre, procurámos ser eclécticos. Da pop ao metal, passando pelo fado e jazz, talvez a música de intervenção (num sentido nem por isso tradicional) tenha alguma predominância nesta excepcional lista.

Este parágrafo é um copy/paste que vai tornando-se tradicional. Felizmente, já é chavão dizer que «este foi um grande ano para a música portuguesa». Mas foi mesmo! Entre as várias expressões musicais, sucedem-se excelentes álbuns nacionais. Talvez pelo reflexo ainda do tempo que as bandas tiveram para ponderar e preparar bem as suas composições durante o isolamento pandémico e depois, já em estúdio, tenham manifestado uma enorme sede de tocar. Alguma coisa terá sido.

Há anos em que a música portuguesa parece responder a uma pergunta que ninguém teve coragem de formular. 2025 foi um desses anos — não por excesso de produção nem por consensos fáceis, mas porque muitos dos discos mais relevantes dizem coisas sobre o país mesmo quando fingem que não o fazer. Uns fazem-no de forma explícita, outros por omissão, outros ainda através da recusa estética, do incómodo, da negação do conforto.

Este texto parte dessa constatação: a de que a música portuguesa de 2025, nos seus melhores momentos, funcionou como diagnóstico. Não como propaganda, nem como crónica jornalística directa, mas como sintoma. Há aqui discos que regressam à memória fundadora — o 25 de Abril — para medir o seu desgaste e as suas falhas; outros que se concentram no presente imediato, nos corpos cansados, nas vidas precárias, nos discursos esvaziados; outros ainda que escolhem o peso, o ruído ou o ritual como resposta a um mundo que já não parece recuperável.

Não é um ranking. É uma curadoria assumidamente parcial, feita a partir de uma escuta prolongada e de um diálogo contínuo com muitos destes trabalhos ao longo do ano — alguns deles já analisados extensivamente na ROMA INVERSA. Aqui, voltamos a eles não para os resumir, mas para os colocar em relação, perceber as tensões que os atravessam e aquilo que, juntos, revelam sobre este momento. Porque não ouvimos nem metade dos discos que saíram.

2025 foi um ano em que a música portuguesa relevante se mostrou heterogénea sem ser esquizofrénica: estilos, gerações e linguagens diferentes, unidos não por som, mas por urgência. Uma urgência que atravessa o político, o histórico, o existencial e o estético. Eis os dez discos que destacamos, sem qualquer ordem.

★★★★★

Rock N’ Roll Salvation parte de uma constatação simples e incómoda: o rock já não é linguagem dominante, nem pretende voltar a sê-lo. Dapunksportif aceitam essa condição de marginalidade relativa e transformam-na em espaço de liberdade criativa. O resultado é um disco consciente da sua herança, mas profundamente atento ao presente. A presença de Alain Johannes em Lisboa para trabalhar com a banda não é um detalhe de bastidores; é um gesto simbólico. Johannes — figura central na história recente do rock alternativo — aproxima-se aqui não por nostalgia, mas por afinidade estética. O disco beneficia dessa colaboração na forma como equilibra crueza e sofisticação, mantendo sempre a canção como núcleo.

Musicalmente, o álbum percorre territórios familiares do rock, mas fá-lo com inteligência e distanciamento crítico. Não há aqui revivalismo acrítico nem fetiche de época. As guitarras soam gastas, as melodias surgem como comentários irónicos, e a escrita revela uma consciência aguda do lugar que o rock ocupa hoje: residual, mas ainda pertinente. Em 2025, Rock N’ Roll Salvation destaca-se precisamente por não tentar salvar nada. Limita-se a pensar o rock enquanto linguagem possível num mundo que já não lhe pertence. E esse gesto, paradoxalmente, devolve-lhe relevância.

«Há algo que salta logo à vista n: é menos explosivo e mais balanço (no sentido do groove) que o anterior “Old, New, Fast & Slow”. Seria um fiasco chamar um produtor com uma assinatura sónica tão vincada e esse carácter não se sentir desde o primeiro segundo. E, assim que arranca “Analog Player In A Digital World”, percebe-se que os Dapunksportif sabiam exactamente aquilo que queriam de Alain Johannes. Uma sonoridade fuzz que deve mais ao sentido rocker dos Queens Of The Stone Age que ao sentido stoner dos Kyuss, simplicidade rítmica com um som espaçoso, apesar do pocket, e coros harmonicamente bem desenvoltos e orelhudos», lê-se na review na ROMA INVERSA (abre artigo).

★★★★★

Inquieta é um dos discos mais politicamente complexos de 2025 precisamente porque evita o discurso directo. Gisela João regressa aqui, de forma implícita mas insistente, ao 25 de Abril — não como celebração épica, mas como memória interrogada. O que resta dessa promessa? O que ficou por cumprir? Musicalmente, o disco aposta na contenção. A voz surge muitas vezes em primeiro plano, rodeada por arranjos mínimos que reforçam a sensação de suspensão. Cada escolha parece deliberada: menos para impressionar, mais para criar espaço de tensão. O fado é tratado como matéria viva, sujeita a desgaste, dúvida e reconfiguração.

A inquietação do título manifesta-se precisamente nesta recusa em estabilizar o significado. Não há respostas claras, nem conforto emocional. O disco pede escuta atenta e tempo — duas coisas que o presente raramente concede. No contexto político e cultural actual, Inquieta funciona como contra-narrativa à ideia de que Abril é um ponto de chegada. Gisela João sugere, com subtileza implacável, que talvez seja apenas um ponto de partida mal resolvido. E é nessa fricção entre passado e presente que o disco ganha a sua força.

A luta pela liberdade continua a ser diária, e Gisela João acredita que só existe como pessoa e pode expressar-se através da sua voz, precisamente porque a liberdade existe e é defendida e celebrada diariamente. Dessa forma, este disco parte de um desejo antigo da artista de homenagear autores que sempre admirou — e sempre cantou —, bem como de celebrar e lembrar a importância da liberdade, perpetuando, assim, a memória colectiva através de canções que tornou suas.

★★★★★

Os Mão Morta regressaram ao 25 de Abril por uma via oposta à da celebração. Viva La Muerte olha para a memória revolucionária como corpo exausto, mito gasto, promessa corroída pelo tempo. É um disco profundamente político, mas avesso a slogans e triunfalismos. A teatralidade sempre presente na obra da banda surge aqui depurada, quase austera. A música constrói ambientes de tensão prolongada, onde a palavra pesa tanto quanto o silêncio. Não há catarse; há confronto. O ouvinte é colocado perante um espelho desconfortável.

Em comunicado oficial, em 2024, explicava-se o contexto do novo espectáculo/disco: «O ano em que a Revolução de 25 de Abril celebra 50 anos é também o ano do 40.º aniversário de Mão Morta. À primeira vista, estes dois acontecimentos nada têm em comum, não fosse terem sido a liberdade e a democracia trazidas pela Revolução a permitirem a existência da banda, com a sua reconhecida postura estética e a fraturante intervenção social e política».

«Numa época em que o perigo do regresso do fascismo se torna palpável, os Mão Morta não podiam deixar de se manifestar e de denunciar o ar dos tempos», explicam, apresentando o novo ciclo de carreira como um gesto de «comemoração e de alerta, com a composição de temas que irão buscar referências a José Mário Branco, Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso ou Ary dos Santos, que viveram o fascismo salazarista e encontraram nessa opressão e censura a motivação para criar arte».

Tecnicamente, o disco revela uma banda que domina plenamente a sua linguagem. Cada elemento está ao serviço do discurso, sem excessos decorativos. A produção privilegia a clareza sombria, permitindo que o texto seja ouvido como matéria central. Ao ouvi-lo, por exemplo, é notória a influência supracitada de José Mário Branco e dessa venerável malta do P.R.E.C. Os coros dão-lhe uma certa grandiosidade e elegância em que se destaca uma articuladíssima mistura sónica e um enorme som de bateria. Em 2025, Viva La Muerte destaca-se por recusar a neutralidade estética e política. Não propõe soluções nem consolos. Limita-se a expor feridas abertas — e a lembrar que a memória, quando não é pensada criticamente, transforma-se em ruína.

★★★★★

Tó Trips lançou em Março “Dissidente”, o álbum mestiço em nome próprio e o primeiro gravado em quarteto, ao lado de Alexandre Frazão na bateria, António Quintino no contrabaixo e Helena Espvall no violoncelo, que, com ele, compõem os Fake Latinos.

Dissidente é um disco de deriva consciente. Tó Trips continua a explorar uma linguagem onde a guitarra funciona como instrumento narrativo, mais interessado em sugerir paisagens do que em afirmar virtuosismo. A dissidência aqui não é política no sentido estrito, mas existencial. O disco recusa centros, evita clímax óbvios e constrói-se a partir de pequenos gestos, repetições subtis, variações mínimas. É música que pede deslocação — física e mental. Há a sensação de uma aproximação ao som e estética que os Dead Combo produziam no seu ciclo final.

Para Trips, o novo álbum representa «uma mão cheia de músicas, de lugares de histórias de vida, por vezes mais escuras, outras mais luminosas, mais rítmicas, outras mais jazzy, sempre com um pé em Lisboa e outro fora. Onde o modo de tocar guitarra do passado se encontra com o de hoje! A minha música sempre foi um poderoso meio de dissidência para mim, sendo capaz de transformar sentimentos pessoais em formas de plenitude e de protesto. Ser eu próprio no mundo com a minha música e a minha guitarra!» No contexto português, Dissidente propõe uma outra forma de pensar identidade: não como afirmação ruidosa, mas como movimento constante. Um disco que resiste precisamente por se manter em trânsito.

★★★★★

Desde que os Irae surgiram no início do milénio, Vulturius tem perseguido uma ideia muito clara: não há concessões na busca da crudeza do black metal. Com uma discografia marcada por LPs, inúmeras demos e splits, e com um mais recente vínculo à Signal Rex, o percurso do projecto culmina agora em In the Key of Twilight, o álbum mais ambicioso da carreira da banda até hoje. Longe de se limitar a uma repetição de fórmulas antigas, este disco procura expandir territórios e explorar nuances sem abandonar a agressividade que define Irae desde o início.

In the Key of Twilight não é apenas um álbum conceptual sobre superação, renascimento e conflito interior; é uma obra que se lê nas guitarras, na bateria e na estrutura de cada faixa, e não nos panfletos (mais ou menos) poéticos que, muitas vezes, acompanham o género. O disco abre com “Apex Predator”, um banger imediato que define o rumo de In the Key of Twilight sem qualquer hesitação.

A produção de In the Key of Twilight merece destaque. É limpa sem se tornar artificialmente polida: guitarras definidas, baixo com um corpaço, bateria super viva, blast beats nítidos. A articulação permite que cada elemento seja apreciado e que a complexidade estrutural das composições não se perca. Twin guitars harmonizadas e dedilhados limpos adicionam textura e profundidade – o mesmo deve ser dito do metódico uso de synths – sem suavizar a ferocidade do material e um disco coerente e consistente: uma experiência completa, em que cada momento é usado para construir tensão, densidade e narrativa musical. Eis a review completa na ROMA INVERSA (abre link).

★★★★★

Há momentos em que uma banda parece parar para se reorganizar no silêncio, antes de emergir mais clara, mais forte e mais determinada. Kali, o novo álbum do projecto de raízes luxemburgueses, liderado por Priscila Da Costa, é exactamente isso: uma travessia entre o peso do passado e a urgência de recomeçar, entre a memória e o renascimento e novos colaboradores. Com lançamento a 6 de Novembro de 2025 pela Raging Planet, o segundo LP de Ptolemea começou a ser apresentado através de singles que revelam um universo musical denso, cinematográfico e intimamente pessoal.

Kali é um disco de confronto físico. PTOLEMEA trabalham o som como matéria bruta, explorando peso, repetição e intensidade até ao limite da resistência sensorial. Inspirado por uma lógica ritualista, o álbum rejeita estruturas convencionais e narrativas lineares. O desconforto é objectivo estético, não efeito colateral. Cada faixa funciona como prova de resistência. Num contexto cultural que privilegia leveza e fluidez, Kali afirma-se como gesto de oposição consciente — um disco que exige presença total e devolve exaustão. E assim, é um disco de confronto espiritual também.

É notável como Kali surge num contexto de reorientação criativa de Ptolemea. Embora não haja uma declaração formal sobre refundação, a banda parece ter sido centrada mais directamente em torno de Priscila Da Costa, que assume agora o papel de líder criativa e compositora principal. A gravação do álbum decorreu em fases diferentes: algumas músicas foram compostas durante a pandemia, outras posteriormente, criando um mosaico de experiências e emoções. A produção contou com o apoio de colaboradores próximos, como membros dos Sinistro, que contribuíram tanto na composição do tema principal como na realização dos vídeos promocionais.

Musicalmente, o álbum mantém o peso e a densidade que se espera do doom atmosférico, mas combina-os com lirismo, tensão narrativa e nuances cinematográficas. O som de Ptolemea em Kali é, ao mesmo tempo, melancólico e intenso, uma combinação de guitarras pesadas e vocais etéreos, sustentados por uma linha rítmica que se move entre a delicadeza introspectiva e a urgência dramática. Há uma clara atenção ao detalhe: cada pausa, cada silenciamento, cada eco de voz ou instrumento é pensado para maximizar a tensão emocional e criar uma experiência quase imersiva, quase teatral.

★★★★★

«Os temas deste disco nascem de textos terceiros, de beats, pinturas, manias, falas parlamentares e notícias. De lugares onde à vezes só a natureza torna os dias sãos. São ensaios livres, observação; nada têm de académicos. São o passo dos dias, casas desarrumadas, famílias de luto. Dentes estragados e punhos cerrados, ironias coletivas, sonhos levantados do chão», refere o Bandcamp d’A Garota Não.

Sobre “Ferry Gold”, A Garota Não avançou: «Na praia que era de todos [Tróia], dei muitos mergulhos voadores. Fiz exércitos de carochas da paz e comi gelados de laranja. A areia era fina, macia e quente e na maré vazia formava milhares de poças, onde cada um brincava com a imaginação que tinha. O resto do tempo eram cambalhotas, pinos e rodas até doer os pulsos. E depois adormecer naquele fim de tarde de sonho».

«Se um dia me perguntarem por Tróia, era sobre isto que gostaria de falar, em vez do incomportável preço dos bilhetes, da vaidade de quem exclui do espaço público feito privado, das dunas protegidas por caterpillars, dos governos que adormecem sob a palmeira importada, dos condomínios de luxo, da segregação. Há muitas outras Tróias no país, mas dão por outros nomes. O meu novo disco chama-se ‘Ferry Gold’ e entre outras coisas fala disto», conclui.

Se Gisela João e Mão Morta olham para o passado revolucionário, Ferry Gold fixa-se no presente imediato. A Garota Não constrói aqui um retrato político menos épico, mas mais entranhado no quotidiano: precariedade, violência simbólica, desgaste emocional. A colaboração contínua com Sérgio Mendes, braço direito de Cátia Mazari Oliveira, reforça a elegância instrumental e interpretativa das composições. A escrita é afiada, mas nunca panfletária. A música serve o texto sem o suavizar. Estamos diante de músicos que deviam surgir nas capas da imprensa internacional, em vez de surgirem quase anónimos nas nossas páginas.

Em contraste com os trabalhos anteriores, o disco evoluiu, apresentando arranjos mais cuidados e uma interpretação vocal intimista, embora mantenha a sonoridade que foge ao pop convencional. Ferry Gold abandona o foco no amor romantizado, dirigindo o seu afeto aos excluídos, à família e à infância. Canções como “Este País Não É Para Mães” e a faixa-título são como murros no estômago, gerando uma angústia palpável pelas desigualdades políticas e sociais em Portugal. A força poética do álbum é sublinhada pela canção “Os Sapatos da Minha Mãe”, que evoca o cansaço das mulheres e mães na sociedade, equilibrando o trabalho remunerado e o não remunerado.

Este é um disco lindíssimo, que se infiltra lentamente. Não convoca grandes gestos históricos; fala de vidas reais, de corpos cansados, de silêncios impostos. E é precisamente nessa escala reduzida que reside a sua força política.

★★★★★

O sétimo LP dos Linda Martini foi o primeiro disco com Rui Carvalho (também conhecido como “Filho da Mãe”) a bordo do quarteto que ao longo de mais de 20 anos de estrada nos habituou a discos e concertos memoráveis. Sobre este registo, a banda explicava: «’Serra’ é o nome do espaço onde, ao longo de uma semana, tentámos construir as canções de ‘Passa-Montanhas’. Esta cassete documenta as sessões de composição e revela um lado que habitualmente escondemos. O que aqui se ouve são ideias em bruto — um atropelo que, por vezes, soa coerente e que, segundos depois, pode transformar-se num balbucio indecifrável».

«Há uma ideia persistente ao longo das novas canções: conversar melhor. Talvez seja essa a procura quando quatro pessoas se fecham voluntariamente numa sala e esperam sair de lá com qualquer coisa que não existia antes de entrarem», concluem.

Passa-Montanhas confirma a raridade que Linda Martini representam no contexto português: uma banda capaz de envelhecer sem perder inquietação. O disco reflecte maturidade, mas recusa a domesticação. Musicalmente, equilibra peso emocional e clareza estrutural. As guitarras mantêm-se centrais, mas ao serviço de canções que respiram e evoluem. Não há aqui nostalgia paralisante, mas consciência do percurso. Num panorama onde o rock sobrevive muitas vezes apenas como memória, Passa-Montanhas prova que ainda pode ser linguagem viva — marcada por cicatrizes, mas relevante.

Passa-Montanhas confirma algo que poucas bandas portuguesas conseguiram: envelhecer sem domesticação. Linda Martini soam aqui conscientes do seu percurso, mas ainda inquietos, ainda dispostos a testar limites. O rock surge como linguagem viva, marcada por cicatrizes, a vida adulta e uma certa serenidade do quotidiano, mas longe de qualquer nostalgia paralisante. As canções equilibram peso emocional e clareza estrutural, mostrando uma banda em pleno domínio do seu ofício. Num panorama onde o rock tantas vezes sobrevive apenas como memória, Passa-Montanhas prova que ainda pode ser ferramenta expressiva relevante.

★★★★★

Inspirados por nomes e editoras que moldaram o género — Three One G ou Sargent House —, os Hetta mantêm-se fiéis a uma abordagem honesta, inventiva e intensamente física, revitalizando o post-hardcore com frescura e propósito.

Composto por Alex Domingos (voz), João Pires (guitarra), Simão Simões (baixo) e João Portalegre (bateria), a partir do Montijo, os Hetta tem vindo a conquistar terreno em ritmo constante, seja em palcos nacionais ou incursões além-fronteiras, reunindo uma base de seguidores fiel e entusiasta — fenómeno raro num circuito tantas vezes de nicho. Depois do EP Headlights e do split com Alas, Apostles of Eris e Letterbombs, Acetate surge como uma evolução natural e vigorosa. Funde o caos controlado e a intensidade rítmica característica do quarteto com uma escrita mais incisiva e emotiva, onde a técnica e a urgência coexistem em perfeita tensão.

Acetate é um disco de tensão contínua, construído a partir de minimalismo, repetição e textura. A decisão de trabalhar com Jack Shirley na mistura e masterização não é neutra: inscreve o disco numa linhagem estética associada à crueza e à recusa do polimento excessivo. O som é seco, físico, quase abrasivo. Cada camada acrescenta peso, cada variação subtil altera o equilíbrio geral. Não há momentos de alívio claros; o disco constrói-se como um bloco compacto. Num mundo de escuta fragmentada, Acetate insiste na experiência integral. É um disco curto, mas que pede tempo, atenção e disponibilidade para o desconforto.

★★★★★

Talvez tenha sido algo iniciado (pun intended, só os guardiões das chaves vão entender) pelos Helloween, mas houve uma altura em que era lei: um álbum de heavy metal que se prezasse arrancava com uma introdução dada a ares sinfónicos. Quanto mais épica, melhor. “March Of The Triumphants” tem quase nada de orquestral, mas é épica para caracinhas. Trata-se de fazer as coisas como manda a lei. E, logo no arranque de Fall Of Man, os SpeeDemon garantem-nos que é exactamente isso que se passará ao longo do álbum, fazer como manda a lei!

“Metal Rage” lança-nos numa intensa viagem de NWOBHM, speed e thrash. Riffs vigorosos, twin guitars, shred vertiginoso, cavalgadas rítmicas e agressividade sem tréguas. Tudo como manda a lei. Logo ao segundo tema ficava estabelecido que estávamos diante de um álbum para figurar nas listas de melhores do ano, no final de 2025. Fica claro neste “Speed On Fire”, em relação com o álbum “Hellcome” e o EP de estreia “First Blood” que os SpeeDemon se emanciparam das referências que lhes serviram de pilares de sustentação original (Destruction/Grave Digger/Sodom).

E, embora logo nas seguintes “Cursed Of The Gods” e “Fall Of Man” (aconselhamos a maior prudência na escuta deste vendaval aos que têm qualquer problema cardíaco) se perceba a reverência mantida diante do speed/thrash germânico, agora os SpeeDemon congregam força e melodia de forma muito mais maturada e superlativa. Podem ler a review completa na ROMA INVERSA (abre link).

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