A persistência do peso certo no lugar certo. “Momentum” é um álbum onde a urgência do groove e a precisão técnica se fundem numa explosão de peso e identidade. Um trabalho de assinalável maturidade que afirma os Equaleft como um nome incontornável do metal português contemporâneo.
Há bandas que parecem feitas para resistir. Resistir ao tempo, às modas, às estatísticas e até às próprias fraturas internas. Os portuenses Equaleft são uma dessas raras entidades: um colectivo que leva mais de duas décadas a polir, testar e redefinir o seu próprio núcleo — e que em vez de estagnar, renova-se. “Momentum”, o terceiro álbum de longa-duração, lançado no final de 2024 via Raising Legens/Raging Planet, é precisamente isso: um disco que vive do seu próprio impulso, mas também da persistência, da maturidade e do sangue novo que o alimenta.
Antecedendo o álbum, os Equaleft explicavam em comunicado de imprensa que “Momentum” «captura a essência da jornada da banda ao longo de 20 anos. Enquanto exploramos novos e empolgantes territórios musicais, este álbum entrega os mesmos riffs devastadores, melodias intrincadas e vozes poderosas que os nossos fãs esperam, enquanto mergulhamos de uma forma mais profunda em temas como a resiliência, a introspeção e a condição humana. Com faixas que exploram a complexidade das emoções, a necessidade de viver no presente e a luta contra as forças sociais, ‘Momentum’ está destinado a ser uma experiência profunda e imersiva».
Formados em 2004, os Equaleft sempre foram mais operários do que estrelas — daqueles que não lançam álbuns em catadupa nem se deslumbram com o hype. A sua primeira década foi passada a forjar uma sonoridade desafiante, feita de death metal técnico, thrash musculado e groove estratégico, alimentada por palcos e por uma obsessão saudável com a coesão. Quando chegou Adapt & Survive (2014), a fundação estava sólida; em We Defy (2019), a execução técnica e a clareza estrutural atingiam novos patamares, com malhões como “Before Sunrise” ou “Mindset” a provarem que havia muito mais ali do que músculo e breakdowns: havia inteligência hive mind, havia uma banda.
Cinco anos depois, e após uma mudança relevante na formação dos Equaleft — com a saída de Miguel Martins e a entrada de Nuno “Veggy” Cramês em plena fase de gravações —, “Momentum” não apenas sobreviveu ao abalo como o incorporou. Longe de soar hesitante ou colado com fita-cola, este é um disco que vibra com identidade, firmeza e um equilíbrio raro entre peso, precisão e propósito.



O título não é só eficaz: é sintomático. Os Equaleft não querem regressar a nada — querem avançar. Há uma contenção estratégica no som de “Momentum”. É um disco que sabe quando se deve expor e quando se deve retrair — sem perder intensidade. O peso está todo lá, claro, mas há menos exibicionismo técnico gratuito e mais atenção ao detalhe estrutural.
Se fosse preciso posicionar os Equaleft numa árvore genealógica do metal moderno, talvez os víssemos ali entre os terrenos percussivos de uns Meshuggah — mais pelo rigor rítmico e pela geometria dos riffs do que pelo mimetismo — e a veia directa, musculada e incisiva dos Grip Inc. na fase “Nemesis”. “Here & Now”, por exemplo, combina uma singularidade criativa e essa transparência visceral com o groove metal pioneiro da banda de Dave Lombardo., e ainda algum swag hip hop. Uma malha tão simples e directa como complexa nas suas camadas.
“And It Will Thrive”, por exemplo, não tem a genialidade polimétrica sobrehumana de Tomas Nils Haake, mas podia figurar perfeitamente num greatest hits dos titãs suecos. Algo semelhante poderia ser dito de “Fury” em relação aos Fear Factory e aos riffs bastardos de Dino Cazares.
Mas os Equaleft não soam “como” ninguém. Há uma assinatura muito própria naquela voz áspera, mas articulada de Miguel Inglês, no músculo técnico da secção rítmica e no modo como a banda trabalha o groove não como um acessório, mas como uma estrutura — como se cada malha fosse construída para descolar ao vivo. E por falar em energia, “Heartless Machine” é o núcleo deste disco. Os riffs são tensos, incisivos, muitas vezes matemáticos, mas também há espaço para atmosferas mais negras e introspectivas, numa linguagem cada vez mais afinada com o presente (sem se vender ao modismo do djent) e com um domínio muito próprio da dinâmica.
A produção é cirúrgica sem ser fria, e a entrada de Nuno Veggy traz uma energia aguda e inventiva, que nunca tenta apagar o passado, mas ajuda a redesenhar o agora. Há uma urgência que se sente até nas pausas. Até pelas referências anteriores, já terão percebido que o baterista Gaspar Ribeiro é o MVP deste disco. Ainda assim, a coesão da banda atinge um nível pouco usual no nosso underground. No fundo, “Momentum” é menos sobre estilo e mais sobre decisão. E os Equaleft decidiram continuar — mais nítidos, mais densos, mais afiados.

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