Bilha d'Aço 2026

Os Falecidos RAMP no Bilha d’Aço 2026

Regresso dos RAMP a Caneças trinta anos depois encerrou o Bilha d’Aço 2026 com intensidade, memória e uma viagem pela história do metal português, que incluiu ainda Thormenthor, Besta, Equaleft e Capela Mortuária.

Recuemos no tempo, até à primeira metade da década de 90, quando a descendência dos boomers portugueses criou uma forte cena underground em Odivelas, que rapidamente alastrou até à Vila de Caneças. Foi um período em que nomes como RAMP, Nameless, Sacred Sin, Slamo, entre outros, fizeram suar as paredes da Sociedade Musical e Desportiva de Caneças, num tempo em que o underground português se construía com proximidade, intensidade e um sentido comunitário.

Três décadas depois, esse espírito parece ter regressado. O Bilha d’Aço afirmou-se, em 2025, como uma nova proposta no panorama nacional, estreando-se com força total na Sociedade Musical e Desportiva de Caneças, no dia 5 de Abril, com um cartaz liderado pelos Bizarra Locomotiva e ainda nomes como Vaneno, Murro e In Chaos. O sucesso de público e as condições de som e luz acima da média elevaram naturalmente as expectativas para a segunda edição.

Durante dois dias — 27 e 28 de Março — o palco do Bilha d’Aço 2026 foi tomado por alguns dos nomes mais marcantes e influentes do panorama musical nacional, celebrando a força e a diversidade da música pesada feita em Portugal. A segunda noite resultou num evento de forte carga emocional, muito por culpa dos RAMP que voltaram a esta Vila após trinta redondos anos, num concerto que percorreu a sua discografia.

Festa Mortuária

Oriundos do fervilhante e prolífero Poço bracarense, e partilhando elementos com bandas como Vai‑te Foder, Grunt, Morto e Crab Monsters, os Capela Mortuária trouxeram ao Bilha d’Aço 2026 uma descarga de thrash rápido, furioso e cantado integralmente em português — vociferado de indicador apontado, punho descontraidamente cerrado e sem qualquer filtro. O som foi estridente e directo, com uma secção rítmica de granito sustentada pelo “veterano” baterista Jordi e pelo baixo sólido de Maria Pereira.

Nas guitarras, Leonardo Gonçalves serve de dínamo entre baixo e bateria e o seu colega Júlio César. O arranque ficou marcado por um pequeno percalço: a Jackson de César cedeu logo no início, obrigando o músico a recorrer à guitarra suplente — um modelo Ibanez RG da colecção Giger. Fancy!

Na linha da frente, João Carlos assumiu o papel de mestre de cerimónias com grandiloquência nortenha e sentido de humor, conquistando uma plateia já muito bem composta para as 17 horas de um sábado à tarde. A resposta do público foi imediata, num concerto curto, mas eficaz, onde a urgência e a frontalidade foram palavra de ordem.

Para quem ainda não está familiarizado com a banda, vale a pena descobrir o EP Ossadas e o álbum de estreia Monstro, que ajudam a contextualizar a identidade do grupo. Ainda assim, o momento de maior convergência — tanto na execução dos músicos como no impacto junto do público — surgiu com a versão de “Troops Of Doom”, dos Sepultura, como comentou comigo João “Deris” Duarte malhão «do tempo em que o Brasil era perigoso».

O alinhamento de Capela Mortuária no Bilha d’Aço 2026 foi: Morto; Ordem; Estranho; Ego; Ódio; Imploro o Caos; Troops of Doom; Pornocultura; Thrash Faster.

Strandbergs

Sem lançamentos em catadupa e concentrando-se na sua solidificação enquanto grupo desde a sua formação em 2004, os portuenses Equaleft têm vindo a redimensionar, de forma consistente, o groove metal nacional. Se a ambição da banda produziu malhões memoráveis em Adapt & Survive (2014), a competência técnica dos músicos atingiu um claro zénite em We Defy (2019).

A junção dessas duas vertentes — técnica e groove — consolidou-se plenamente em Momentum, o terceiro álbum de longa-duração (abre review), lançado no final de 2024 via Raising Legends / Raging Planet. Um disco que vive do seu próprio impulso, mas também da persistência, maturidade e sangue novo que o alimenta. Aliás, os Equaleft apresentaram-se no Bilha d’Aço 2026 com mais uma alteração no line-up. Em Momentum, Nuno “Veggy” assumiu o lugar de Miguel Martins ao lado de Manuel “Malone”, mas entretanto o baixista André Matos saiu da formação.

Ao vivo, todo o peso baritonal passou a ser fornecido por backing track e pela dupla de guitarras, assente em dois modelos Strandberg Boden. Como nos explicava o frontman Miguel “Inglês”, foi uma opção «ficar sem baixista desde Março do ano passado». E, aparentemente, para manter. «Sentimo-nos bem assim», acrescentou. Nada a dizer. Em oposição ao caso dos Sinistro no dia anterior (abre link) — onde a imposição matemática da instrumentação virtual pode colidir com a respiração dinâmica das composições — nos Equaleft essa opção resulta numa parede de som impenetrável, que potencia o entrosamento do quarteto e reforça a sua natureza mecânica e musculada.

Ainda assim, houve espaço para momentos de emoção. Miguel “Inglês” dedicou “Endure” a Johnny, dos W.A.K.O., tragicamente falecido no início de Março de 2026 (abre link), num instante particularmente sentido, e logo de seguida Paulo Rui, dos Avesso e Besta, foi convidado a subir ao palco para interpretar “To Step”, reforçando o espírito de comunhão que marcou toda a edição do festival.

Atrás do drumkit, Gaspar Ribeiro foi um verdadeiro Tomas Haake gaiense: cerebral, preciso e devastador, sustentando um concerto de enorme consistência técnica e impacto físico. A setlist do Bilha d’Aço 2026: New False Horizons; Silent; Wavering; Fragments; Endure; To Step; Invigorate; And It Will Strive; …The Chameleons; Heartless Machine; We Defy (em medley com Fury).

Na Língua do Bardo

Há muitos anos que vejo os Besta ao vivo. Vi todas as formações da banda. São muitos concertos, muitas fases, muitas encarnações. Ainda assim, o concerto no Bilha d’Aço 2026 foi, sem hesitação, o melhor que já vi do colectivo.

Rick Chain e Ricardo Matias estão cada vez mais entrosados, encontrando novas formas de preencher a ausência de um baixista “real”. Essa reformulação sónica parece directamente ligada ao impacto de Terra em Desapego (2023), um álbum que introduziu riffs mais elaborados (abre review), mais assumidamente death metal, e linhas cruzadas entre guitarras que aumentam substancialmente o dinamismo da banda.

O resultado é uma sonoridade mais densa e articulada, mas sem comprometer a intransigência estética que sempre definiu os Besta. A abordagem continua profundamente old-school, sem concessões, assente numa agressividade frontal que se mantém como identidade nuclear do grupo.

Atrás do drumkit, Paulo Lafaia voltou a afirmar-se como o motor maquinal da banda — mas o que mais impressionou não foi apenas a força bruta. A tentação de qualquer baterista seria percorrer o concerto com blast beats de uma ponta à outra. Lafaia optou por algo mais sofisticado: precisão e velocidade com tremendo savoir-faire nos pratos, groove nas ghost notes e um apurado bom gosto nos fills. Houve blast beats de sobra, claro, mas foi o domínio rítmico — nas sincopações, nos breakdowns e até nos compassos compostos que surgiram ocasionalmente — que se revelou verdadeiramente trovejante.

O highlight do concerto terá sido esse malhão robustecido com riffs claramente “morbid-angelicais”, apropriadamente intitulado “Olhar Seráfico”, cujos solos poderiam perfeitamente ter sido gravados por Trey Azagthoth. Uma referência inevitável ao universo dos Morbid Angel, assumida sem complexos e executada com enorme convicção. Paulo Rui esteve em todo o lado, neste concerto e no festival…

Com todo o respeito pelas restantes bandas, este foi o nosso concerto favorito do segundo dia do Bilha d’Aço 2026. Há uma palavra particularmente apropriada na língua do Bardo: relentless.

Lovecraft Much?

Quando o death metal começou a ceder à simplificação de processos que emergiu da Escandinávia no início dos anos 90 — riffs mais directos, estruturas mais lineares, brutalidade imediata — foi em Portugal que surgiu uma das alternativas mais estimulantes à vertente mais técnica e progressiva do género. Enquanto Death, Atheist e Cynic expandiam as fronteiras do death metal técnico, os Thormenthor surgiam como uma entidade singular, quase alienígena, dentro do panorama nacional.

Depois de várias demotapes, chegou no final de 1991 o EP Dissolved In Absurd (abre review). Ainda distante da excelência do icónico Abstract Divinity, esse registo revelava uma banda mais pesada, mais brutal e mais tradicionalista — mas já com aquele estranho ADN cósmico que viria a definir a identidade dos Thormenthor. Foi precisamente nesse território primordial que a banda decidiu abrir o seu concerto no Bilha d’Aço 2026, com o tema-título desse primeiro EP, como se estivesse a invocar as suas próprias origens.

À semelhança do que aconteceu com os Besta, este foi também o concerto dos Thormenthor que mais me impressionou até hoje. Talvez a apresentação da reedição de Abstract Divinity, lançada pela Larvae Records (abre link), no final de 2024, no RCA Club, tenha sido mais “catacúmbica”, mais subterrânea e ritualística, mas no Bilha d’Aço 2026 houve algo diferente: uma energia mais directa, quase rockeira, que não diluiu o carácter lovecraftiano das composições, antes o projectou com maior intensidade física.

Há algo de fascinante nesta fase dos Thormenthor. O entrosamento progressivamente readquirido entre os músicos parece transformar a complexidade geométrica das composições numa força orgânica, viva, que respira e pulsa com maior naturalidade. Onde antes havia uma certa frieza cósmica, surge agora uma energia mais imediata, sem que isso implique qualquer concessão estética.

Ainda assim, o ADN old-school do death metal dos almadenses permanece absolutamente intacto. Nem parece que a banda tenha qualquer intenção de o diluir, a julgar pela estética da novidade composicional que foi “Prisms”, apresentada já depois de “Troops of Doom”, dos Sepultura, ter soado novamente no Bilha d’Aço 2026 — uma curiosa coincidência que atravessou mais do que um momento do festival, quase como um eco subterrâneo entre gerações do metal extremo.

Entre estruturas labirínticas, mudanças de dinâmica e riffs que parecem desenhar arquitecturas impossíveis, os Thormenthor ofereceram um concerto que reafirmou a sua singularidade dentro do death metal português. Não foi apenas um exercício de nostalgia — foi a confirmação de que a banda continua a soar estranhamente actual, décadas depois das suas primeiras manifestações.

A setlist de Thormenthor no Bilha d’Aço 2026 foi: Nebula; Into The Death; Self Immolation; Abstract Divinity; Imaginary Landscape; Face Thormenthor; Dissolved In Absurd; Nothing Expanded; Large Hadron Collider; Troops Of Doom; Prisms; Pulverising.

RAMP

O regresso dos RAMP à Sociedade Musical e Desportiva de Caneças, cerca de trinta anos depois, tinha inevitavelmente algo de simbólico. Não era apenas mais um concerto no Bilha d’Aço 2026: era um regresso a um espaço que ajudou a moldar a história do metal nesta região, a deixar sementes. Acreditem — afinal quem vos escreve esteve presente nessa noite de 1996, que incluiu ainda os Afterdeath e os Nameless. Há regressos que são apenas nostalgia; este teve algo de circular, quase histórico.

Não sendo, confesso, a banda que mais me diz pessoalmente, seria difícil não reconhecer a eficácia do concerto. Os RAMP optaram por um alinhamento que percorreu várias fases da sua discografia, num espectáculo intenso e com forte ligação ao público. Rui Duarte assumiu naturalmente o papel de catalisador, puxando pela plateia com o seu discurso combativo e identitário tão característico, ironizando com aqueles que proclamam ciclicamente a morte dos RAMP. A atitude foi assumidamente metal as fuck, quase militante, e encontrou eco numa audiência que viveu o momento final do festival com entusiasmo evidente.

E havia também algo de geracional naquele público do Bilha d’Aço 2026. Rostos que certamente estiveram naquela noite de meados dos anos 90 misturavam-se com uma audiência mais jovem, criando uma curiosa ponte temporal — o passado e o presente do metal português reunidos na mesma sala, numa espécie de comunhão ruidosa e suada.

Musicalmente, os RAMP mantêm a sua abordagem musculada e directa, assente em riffs pesados e numa estética groove metal que marcou profundamente o metal dos anos 90 e que, no contexto nacional, ajudou também a definir uma linguagem própria para o peso português. Mais do que reinventar a fórmula, a banda apostou na consistência e na energia, privilegiando a ligação com o público e a força imediata das canções. Ricardo Mendonça está com o som renovado, tendo abdicado da Schecter Guitars, ostentando agora um dos modelos Adrian Smith da Jackson Guitars.

Os RAMP entraram com imensa força, através de “Insane” e da antémica “How”. “Alone” foi outro momento alto, mas a famosa cover de António Variações, os clássicos “Hallelujah”, “All Men Taste Hell” e “Black Tie” viraram a sala de pantanas. O peso, a familiaridade e a entrega colectiva transformaram o encerramento numa verdadeira celebração. O concerto funcionou, acima de tudo, como um gesto de continuidade. Mais do que surpreender, os RAMP vieram reafirmar a sua longevidade e resiliência, fechando o Bilha d’Aço 2026 com uma mensagem simples e eficaz: o metal português continua vivo. Tal como os falecidos RAMP.

A setlist de RAMP no Bilha d’Aço 2026: Insane; How; Dawn; The Number One; Clear; Alone; Blind Enchantment; For Those We Cannot Blame; Follow You; The Cold; Insidiously; Anjinho Da Guarda; Drop Down; Hallelujah; Old Times; All Men Taste Hell; Through; Black Tie; Try Again.

Leave a Reply