Eric Clapton

A Mão Lenta de Eric Clapton

Originalmente editado em 1977, talvez não seja o melhor disco de Eric Clapton, nem o mais tecnicamente exuberante, mas é possivelmente o mais completo e diverso esteticamente. “Slowhand” envelhece cada vez melhor.

Quantos álbuns no mundo abrem com dois temas do calibre de “Cocaine” e “Wonderful Tonight”? Nunca contámos, mas certamente não serão muitos. São não só duas das mais icónicas canções no catálogo de Eric Clapton, mas também no mundo do blues e do rock. Por si só, essas canções valem a presença de Slowhand em qualquer colecção, mas o boogie de twang extravagante que é “Lay Down Sally”, logo de seguida, deixa perceber que o disco é muito mais que esses dois super singles. Aliás, este último até foi, durante muito tempo, um single de maior impacto comercial e reputacional que a canção que JJ Cale escreveu (abre link) contra o éster do ácido benzoico…

Há, aliás, algo de profundamente enganador na abertura de Slowhand. “Cocaine” e “Wonderful Tonight” não apenas dominam o imaginário colectivo — moldam a percepção do disco como um trabalho suave e acessível. No entanto, essa suavidade é apenas aparente. O álbum move-se num território intermédio entre o blues descontraído, o country eléctrico e o rock de raízes, com uma confiança que revela um Eric Clapton já distante do virtuosismo nervoso dos anos anteriores, mas mais seguro da sua própria identidade musical.

Para gravar o seu quinto álbum, Eric Clapton decidiu recrutar os esforços de Glyn Johns, cujo currículo incluía discos com os Rolling Stones e com os Eagles. A lógica era que o super produtor dominava as sensibilidades bluesy e country dos dois lados do Atlântico. Além disso, era um profissional de disciplina espartana e pouco adepto de jams, capazes de minar tempo de estúdio de forma inconsequente, ainda mais quando Clapton e a restante banda, por mais que “Cocaine” seja uma canção anti-cocaína, estavam intoxicados a maior parte do tempo das sessões.

Fosse como fosse, o produtor extraiu o melhor de cada um dos músicos. O elenco era absolutamente estelar. Além de Eric Clapton, George Terry foi a segunda guitarra. Com o tempo, tornar-se-ia um dos mais prolíficos hired guns na indústria, gravando ao lado dos ABBA, Bee Gees (e posteriormente Andy Gibb), Joe Cocker, Freddie King, Diana Ross, Stephen Stills e Kenny Rogers, entre outros. No baixo surge Carld Radle, que acompanhava Clapton já desde Derek & The Dominos, pelo menos.

Na bateria está Jamie Oldaker, outro ás que assinaria trabalhos com Peter Frampton, Stephen Stills, Ace Frehley, Bee Gees ou Freedie King, muitas vezes ao lado de George Terry. Depois há ainda Dick Sims, nas teclas, e Mel Collins, no saxofone.

Essa disciplina de estúdio, aliada à experiência colectiva dos músicos, é perceptível na coesão do álbum. Não há excesso, nem espaço para divagações desnecessárias. Cada tema parece construído com economia e intenção, numa lógica que privilegia a canção sobre a exibição técnica. É um contraste evidente com o Clapton mais turbulento da primeira metade da década, e um sinal claro de maturidade artística.

Slowhand repete a alcunha que Eric Clapton ganhou de Giorgio Gomelsky e que os fãs adoptaram por evocar os rufias do faroeste norte-americano. Essa mão lenta é magistralmente escutada no riffalhaço de “The Core” e nos seus solos épicos, onde Terry também tem uma grande fatia do mérito, e nos sleazy slides de “Mean Old Frisco” (original de Arthur Crudup). A alcunha “Slowhand” nunca foi apenas uma referência ao estilo pausado de Clapton. Há também uma dimensão quase narrativa nessa designação: o guitarrista que já não precisa de provar nada, que prefere a precisão à velocidade, a contenção ao excesso. Nesse sentido, o álbum funciona como uma afirmação estética — menos pirotecnia, mais carácter.

Não é o álbum mais virtuoso de Eric Clapton e perde o título de melhor (na nossa opinião) para a obra-prima de 1974, “461 Ocean Boulevard”. Mas será o álbum em que o guitarrista melhor se rodeou de grandes músicos e mais sapientemente conjugou o seu talento como compositor e destreza de interpretações instrumentais. Com isso, Slowhand ganhou uma maior variedade de estéticas musicais e deixou as bases para a transformação estética que o som de Clapton iria atravessar na década seguinte.

De certa forma, Slowhand antecipa o Eric Clapton dos anos 80, mais polido e orientado para a canção, mas ainda preserva a ligação orgânica ao blues e ao country que marcara a sua década anterior. É um disco de transição, mas não no sentido de hesitação — antes como uma ponte segura entre duas fases distintas da sua carreira. Mesmo nos momentos mais discretos, o álbum mantém uma elegância difícil de replicar. Não há aqui urgência juvenil nem dramatismo excessivo. Em vez disso, domina uma confiança tranquila, quase relaxada, que transforma cada tema numa conversa entre músicos experientes, mais interessados na subtileza do groove do que na afirmação individual.

A música discorre sem pressas e insinuante, as linhas instrumentais e as guitarras são sedutoras e a voz de Eric Clapton, ainda que não esteja no seu melhor, revela aqui capacidade para retratar mais emoções, da nostalgia melancólica de “Wonderful Tonight”, passando pela aspereza blues de “Mean Old Frisco” e pela tristeza de “We’re All The Way”, ao acto de contrição meio Dylan que é “Next Time You See Her”. Foi editado, originalmente, no dia 25 de Novembro de 1977 e envelhece cada vez melhor.

Um pensamento sobre “A Mão Lenta de Eric Clapton

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