Hamer 12 Cordas

O Hamer 12 Cordas & Jeremy

O raríssimo Hamer 12 cordas, o baixo custom de Jeff Ament, fundamental no início e no álbum de estreia dos Pearl Jam e, particularmente, em “Jeremy”.

Foi ainda antes da formação dos Pearl Jam que a Hamer construiu um modelo verdadeiramente único para Jeff Ament. Um baixo de 12 cordas concebido à medida, pensado para explorar uma dimensão harmónica raramente ouvida no rock da época. O instrumento tornar-se-ia lendário poucos anos depois graças ao seu papel decisivo em Ten (1991) e, em particular, num dos maiores clássicos da década de 90: “Jeremy”.

A canção nasceu inspirada na história real de Jeremy Wade Delle, um adolescente de quinze anos que, a 8 de Janeiro de 1991, entrou na sala de aula da Richardson High School, no Texas, e pôs termo à própria vida diante dos colegas. Eddie Vedder cruzou essa notícia com memórias da sua própria adolescência e da sensação de isolamento que muitos jovens experimentam sem que os adultos se apercebam. O resultado foi uma das letras mais perturbadoras do catálogo dos Pearl Jam, uma reflexão sobre negligência, bullying, abandono emocional e saúde mental muito antes de estes temas ocuparem o espaço público que têm hoje.

Quando a banda entrou em estúdio para gravar Ten, Jeff Ament recuperou uma composição instrumental que já existia e que acabaria profundamente reformulada. O tema foi reestruturado, Vedder acrescentou a letra e, na versão definitiva, o baixo Hamer de 12 cordas assumiu um protagonismo inesperado. Aquele enorme corpo sonoro, criado pelas cordas oitavadas, produz uma ressonância quase orquestral que faz com que o riff inicial pareça simultaneamente um baixo e uma guitarra de doze cordas. É precisamente essa densidade que ajuda a construir a tensão permanente da canção, reforçada ainda pelo violoncelo que encerra o tema.

O impacto de “Jeremy” seria amplificado poucos meses depois pelo icónico videoclip realizado por Mark Pellington. Inspirado em técnicas de montagem fragmentada, expressionismo visual e imagens simbólicas, o vídeo evita representar literalmente o suicídio de Jeremy, optando antes por sugerir a violência psicológica através de uma sucessão de planos inquietantes. A interpretação de Eddie Vedder, as referências visuais à educação repressiva e à alienação juvenil, bem como a poderosa fotografia em tons quentes, transformaram o videoclip num dos maiores símbolos da MTV dos anos 90. Em 1993 venceria quatro prémios nos MTV Video Music Awards, incluindo Vídeo do Ano e Melhor Vídeo de Grupo, consolidando “Jeremy” como um fenómeno cultural muito para lá da música.

Ao longo de Ten, Jeff Ament voltaria a recorrer ao mesmo instrumento em temas como “Deep” e “Why Go”, contribuindo para uma assinatura sonora que se tornaria imediatamente reconhecível. Enquanto muitos baixistas utilizavam o instrumento apenas para reforçar as frequências graves, Ament explorava-o quase como um híbrido entre baixo, guitarra rítmica e instrumento orquestral, preenchendo espaços harmónicos sem nunca competir com Mike McCready ou Stone Gossard.

Apesar da sua aura lendária, o Hamer de 12 cordas nunca entrou em produção regular. Construído especificamente para Jeff Ament, recorria a pickups activos EMG e produzia um som colossal, onde o peso das quatro cordas principais era enriquecido por duas cordas de harmonização afinadas à oitava em cada curso. O resultado era uma profundidade tímbrica invulgar, capaz de gerar um efeito coral que poucos instrumentos conseguem reproduzir.

Calcula-se que existam apenas cerca de cinco exemplares deste modelo espalhados pelo mundo, incluindo o original de Jeff Ament. Já no final da década de 90, a Hamer aceitou produzir algumas réplicas por encomenda, embora estas apresentassem diferenças evidentes relativamente ao instrumento original, nomeadamente na escala, na ausência dos característicos inlays em forma de boomerang e na utilização de um rosewood de qualidade inferior.

As cordas utilizadas seguem igualmente uma lógica muito própria. Embora a afinação mantenha exactamente o mesmo princípio de um baixo convencional de quatro cordas (E-A-D-G), cada corda principal é acompanhada por duas cordas mais finas, semelhantes às de guitarra, normalmente afinadas uma oitava acima. É esta arquitectura que confere ao instrumento a riqueza harmónica e a enorme ressonância que tornaram o Hamer de Jeff Ament inseparável da identidade sonora de “Jeremy” e, por extensão, de um dos álbuns mais influentes de toda a década de 90.

Leave a Reply